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Futebol

23/07 - 12:41

"Macaquitos" é mais chacota do que racismo, defende o autor de "Brasil x Argentina"
Confira bate-papo com jornalista Newton Cesar de Oliveira Santos, que se debruçou sobre a história do que considera "o maior clássico do mundo"

Mauricio Stycer, repórter especial do iG

SÃO PAULO - Abaixo, Newton Cesar de Oliveira Santos, autor de “Brasil x Argentina – Histórias do maior clássico do futebol mundial (1908-2008)”  responde a cinco perguntas do iG Esporte sobre a rivalidade entre os dois países:

Você acha que hoje ainda é possível falar em um estilo argentino e um estilo brasileiro de jogar? Como você os definiria?

Pelo fato de a maioria dos principais jogadores dos dois países se transferirem para a Europa cada vez mais cedo (Brasil e Argentina são os maiores exportadores de jogadores) e, com isso, terem de se adaptar ao estilo de jogo dito “europeu”, acredito que as características mais marcantes das duas “escolas de futebol” se perderam um pouco. Tanto assim que nos selecionados, nos últimos anos, os jogadores são convocados para se adaptarem ao estilo de jogo proposto – e não mais como antigamente, quando primeiramente se chamavam os melhores, e depois de definia a estratégia em campo (vide Zagallo em 1970 e Menotti em 1978). Ainda assim, ainda se vê, na imprensa especializada mundo afora, comentários acerca da “pegada argentina”, da “pressão ao estilo argentino”, do “amor à camisa argentina”, assim como se escuta sobre a “fantasia brasileira”, o “toque de bola típico brasileiro”, a “improvisação clássica do jogador brasileiro”. No futebol, como na economia e na sociedade, globalização e localização se chocam todo o tempo. 
 
A primeira vez que jogadores brasileiros são chamados de “macaquitos” pela imprensa data de 1920. O problema perdura, aparentemente. A que você atribui isso?

Acredito que seja pela relação de amor e ódio que permeia o embate futebolístico entre dois países. O termo, preconceituoso, vem da época da Guerra do Paraguai (1865/1870), quando os soldados argentinos lutaram lado a lado com escravos brasileiros, se transpôs ao futebol como forma de distinção – eles, os “europeus”' da América do Sul, que chegaram a ser a quinta economia do mundo, e nós, com alto índice de analfabetos e grande quantidade de mestiços. Além disso, acho que existe um fator raramente citado que acabou se canalizando aos gramados: eles eram os melhores no futebol na América do Sul até a década de 1950 (vide conquistas de campeonatos sul-americanos). De repente, o Brasil ganha uma Copa do Mundo em 1958, em que o destaque foi um negrinho magricelo – enquanto eles voltaram humilhados pela derrota de 6 a 1 diante da Tchecoslováquia. Esse revés somente foi superado quando surgiu Maradona – branco, latino, rebelde, enfim, “argentino”, e o melhor da história, para eles. No fundo, acredito que seja menos pelo racismo em si e mais pela chacota que pegou – como se sabe, tem apelidos que “pegam” e outros que não.
 
Por que há tantas brigas em jogos entre Brasil e Argentina? Há alguma rivalidade semelhante a essa?

Sim, existem rivalidades que até superam a essa em número de partidas violentas (Argentina x Uruguai, Galatasaray x Fenerbaçe, Gre-nal, etc.). Atribuo as brigas entre brasileiros e argentinos ao fato de que essa partida se tornou, ao longo da história, “o jogo” a ser disputado. Pergunte a qualquer jogador, de ambos os lados, qual o confronto mais esperado/emocionante/vibrante do qual ele gostaria de participar. A vontade de ganhar é tamanha que abre espaços para excessos e, consequentemente, reações intempestivas e irracionais – isso ainda hoje, quando muitos dos jogadores são companheiros de clubes na Europa.  
 
Brasil e Argentina se tornaram exportadores de jogadores. Isso não tira o brilho do clássico?

Não acredito. Por dois motivos: a) Nas partidas oficiais, os craques são chamados e vêm, de onde estiverem, para jogar o clássico. Exemplo: na imprensa argentina, e em meio aos jogadores, desde a derrota para o Equador, no mês passado, só se fala no confronto contra o Brasil dia 5 de setembro (mesmo porque a Seleção Argentina ficou inativa nesse período); b) apesar de grandes exportadores de craques (e de jogadores medianos, também), Brasil e Argentina são os maiores “produtores” de novos talentos – peças de reposição, diriam os comentaristas modernos. Exemplos: a Argentina é a maior vencedora dos Mundiais sub-20 (seis títulos), seguida pelo Brasil (quatro conquistas). Novos talentos sempre surgem, fato que alimenta a chama da esperança. Quando Messi começou a aparecer, era o “novo Maradona”. Agora, já se fala de um camisa 10 da seleção sub-17 que será o “novo Messi”. A exportação de jogadores tira o brilho, na minha opinião, dos torneios locais, em ambos os países.  
 
Julio Grondona assumiu a AFA em 1979, Ricardo Teixeira preside a CBF desde 1989. Não parece estranho que dois países tão importantes na história do futebol mundial, como você mostra no livro, sejam dirigidos pelos mesmos cartolas há tanto tempo?

Na verdade, acho que “estranho” não seria a palavra mais adequada para descrever essa situação. Ao contrário, seria esperado que algo assim ocorresse. Por quê? Nos dois países, o futebol é a expressão cultural mais importante e poderosa. Portanto, seria de se esperar que atraísse gente “poderosa”, capaz de relacionar-se muito bem com os dirigentes de futebol e políticos locais e, ao mesmo tempo, com os cartolas da  Conmebol e da Fifa. De um lado, um chegou ao poder pela influência do ex-sogro, que comandou a Fifa por décadas, e desde que assumiu o primeiro mandato soube trilhar o caminho do continuísmo respaldado pelos títulos do selecionado nacional, pelos contratos milionários com patrocinadores e pelo enriquecimento das federações estaduais – que, em última instância, são quem definem o máximo dirigente da CBF. O outro vem de família vinculada ao futebol e assumiu o comando da AFA logo no início da era Maradona – coroada de títulos e glória, portanto. Diga-se de passagem, ambos venceram eleições e superaram seus adversários (especulações sobre os meandros de cada pleito, por ora, não passam de especulações). Além disso, conscientemente ou não, parece valer para os dirigentes a máxima que vale para os clubes: em time que está ganhando não se mexe...


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