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Futebol

20/04/2009 - 08:34

Em transe, no meio da torcida do Corinthians
Repórter do iG acompanhou o duelo São Paulo x Corinthians no meio da Fiel, que era minoria no estádio do Morumbi

Mauricio Stycer, repórter especial do iG

SÃO PAULO - Já tinha assistido a jogos no meio da torcida organizada do Corinthians, mas nunca na situação em que a Fiel é visitante no estádio. Senti como se estivesse no meio de um rito, no qual os participantes, num transe coletivo, ignoram a difícil situação em que estão (são, afinal, uma minoria, cercada de adversários ferozes) e cantam, abusadamente, como se fossem donos da situação.

Com direito a 5 mil ingressos, os corintianos ocupam um módulo e meio da arquibancada do Morumbi. É um espaço justamente ao lado do reservado à Independente, torcida organizada do São Paulo. Não podia ser um lugar pior. Separados por uma grade e duas dezenas de policiais militares, os dois grupos passam três horas trocando ofensas e fazendo provocações mútuas.

Confiantes na vitória, um grupo de corintianos discute, trinta minutos antes de a partida começar, onde devem ser disputadas as finais. “Por mim, a gente jogava no Maracanã”, diz um, mais animado. “Mas o Botafogo não vai ganhar hoje”, prevê um outro. “E eles vão precisar do Maracanã pra final do Carioca”. Na mosca.

“Prefiro que os dois jogos sejam no interior, do que ter um jogo na Vila Belmiro”, diz outro torcedor. “Jogo na Vila é sacanagem. Só dá pra entrar mil corintianos”, reclama. “E leva vantagem quem tem dinheiro pra pagar o ingresso”.

Enquanto a partida não começa, a diversão maior é ofender os são-paulinos. Alguns gritos são ameaçadores: “O pau vai quebrar, se o Corinthians não ganhar!!!”

Até o vendedor de salgadinhos faz gestos com os dedos para a torcida do São Paulo. Não sei se vendeu mais com esse marketing, mas ganhou muitos tapinhas nas costas.

Às 15h35 começa um grito de guerra que será ouvido, como um mantra, até a saída dos torcedores do Morumbi: “Vai pra cima dela, Timão... Da bicharada, ô, ô!!!” Quando a torcida do São Paulo grita alguma coisa, imediatamente a Fiel replica com outro grito de guerra, que anula, por assim dizer, o barulho dos adversários.

No fundo, ninguém ouve ninguém. Melhor assim.

Numa versão livre, muito livre, o “Hino da Independência” do Brasil vira, na voz da Fiel: “Brava gente, brasileira. Longe vá, temor servil. Quem não for corintiano, vai pra ....”

“Ronaldo, viado!!!”, grita a torcida do São Paulo antes do início do jogo. “Isso, cutuca ele”, pede um corintiano, incentivando os gritos dos adversários.

Um torcedor chega com a namorada e encontra um amigo na arquibancada. “Apanhamos juntos no Rio de Janeiro”, ele diz, apresentando as credenciais do amigo para a moça. “Eu não apanhei”, o amigo diz. “É verdade, ele fugiu”, explica o rapaz para a namorada.

Os jogadores estão perfilados, mas não se ouve o Hino Nacional. A Fiel entoa o clássico “Aqui tem um bando de louco! Louco por ti Corinthians! Para aqueles que acham que é pouco, eu vivo por ti, Corinthians! Eu canto até ficar rouco. Eu canto pra te empurrar! Vamos, Vamos meu Timão. Vamos! Meu timão, não para de lutar!” A Independente responde com outra canção, que não dá para ouvir.

A bola já está rolando quando começam a chegar os torcedores que trazem os instrumentos musicais. A torcida corintiana canta alegremente uma música consagrada pela Independente, mas devidamente adaptada: “Domingo eu vou lá no Morumbi! A Fiel vai invadir. Vou levar foguetes e bandeiras. Não vai ser de brincadeira. Ele vai se campeão. Eu não quero cadeira numerada, eu vou de arquibancada, para sentir mais emoção. Porque o meu time bota pra f... O nome dele é você que vai dizer.”

A bola já está rolando há mais de 30 minutos e ainda chegam torcedores uniformizados. “Fui parado umas 30 vezes”, reclama um gavião. A área reservada aos corintianos está tão cheia que um policial abre, à força, um corredor para dar vazão ao fluxo de torcedores que ainda querem entrar. “Eu sou corintiano. Eu nunca vou te abandonar. Porque eu te amo!!!”

Às 16h50, quando termina o primeiro tempo, os torcedores se sentam rapidamente na arquibancada. Como na brincadeira da dança das cadeiras, já que há mais gente do que banquinhos disponíveis, muitos ficam em pé.

O Corinthians ataca, no segundo tempo, na direção oposta onde está a sua torcida. Na hora do primeiro gol (de Douglas), a festa é enorme, mas ninguém sabe quem empurrou a bola para dentro das redes. “Foi o Ronaldo”, diz um ao meu lado. “Foi o Dentinho”, diz outro. “O Dentinho cruzou”, rebate um terceiro. Ninguém sabe, ninguém viu, o que não atrapalha em nada a festa.

A discussão não vai longe. Logo outra canção do repertório da Gaviões é entoada: “A maré tá cheia. Tá, tá ,tá, tá, ta. Cheia de sereia. E o Timão querendo golear. Caiu na rede é peixe. Le, leá. O Timão vai golear”.

Os cantos começam sempre do lado direito. De onde estou, no centro, os torcedores aguardam a orientação que vem do lado para repetir as músicas.

A festa na hora do gol de Ronaldo é ainda maior que no primeiro. Os torcedores se empurram, se socam e se abraçam de tanta alegria. Alguém que esteja assistindo a comemoração sem ouvir o áudio pode achar que aqueles homens estão se agredindo. Mas é apenas alegria. Um transe impressionante.

Ronaldo é muito festejado ao ser substituído. Aliás, foi o único jogador que teve o seu nome gritado em coro pela torcida na partida. Em estado de graça, os corintianos se permitem até piadas com o próprio time. “Hoje é dia”, diz um. “Até o Felipe está acertando tudo”, diz, após o goleiro sair para interceptar um cruzamento.

Aos 30 minutos do segundo tempo, os primeiros são-paulinos começam a deixar o estádio. A torcida grita “tchau” e logo alguém puxa um corinho: “Eliminado! Eliminado!” E outro: “Fica, c... Pra ver o campeão!!!”

Faltando dois minutos para o final da partida, a torcida do São Paulo acorda e começa a cantar, incentivando o time. Um momento bonito, mas ignorado pelos corintianos.

“Tá chegando a hora”, cantam alguns. “O Coringão voltou”, começam outros, entoando o grito de guerra usado ao final da participação do time na segunda divisão do Brasileiro de 2008. O grito se alastra. “O Coringão voltou!!!” E, pela primeira vez nesta tarde, tenho aquela sensação desagradável, frequente no Morumbi, de sentir a trepidação da arquibancada.

Encerrada a partida, os corintianos são impedidos de deixar o estádio. O anel onde está torcida é isolado pela polícia. Os são-paulinos deixam vagarosamente o Morumbi, enquanto a Fiel se comprime, à espera da abertura do portão. Outra sensação muito ruim.

Às 18h45, 50 minutos depois de encerrada a partida, o portão é finalmente aberto. Observados pela Tropa de Choque, quem ainda tem forças canta “o Coringão voltou!”. Na avenida Giovanni Gronchi, a cavalaria da PM impede os torcedores de descerem em direção à entrada do estádio. Só é possível sair na direção oposta. “O Coringão voltou! O Coringão voltou!”


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Mauricio Stycer/iG

Torcida do Corinthians

Torcida do Corinthians
Espaço dos alvinegros era justamente ao lado do reservado à Independente, torcida rival

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