
Não conhecia Carla Madeira . Ignorância minha. Pós-graduado em literatura, a minha graduação é em jornalismo. E, na graduação da minha vida, da minha história, do meu amor, o futebol vem primeiro, independentemente da fase, da qualidade, da colocação, da estação, das condições normais ou, mais comum, anormais de temperatura e pressão. Amor metonímico, a parte pelo todo, centrado no rio alvinegro da minha aldeia. Rio que vai-se para o mundo, para além-mar, além da América.
O mundo futebol, vivido umbilicalmente por intermédio do meu time, sempre esteve à frente, pois, de outras grandes paixões não competitivas, não exclusivistas, não sádicas como são o cinema, o samba e a literatura, poliamores não tóxicos que procuro só quando tenho vontade e não presto qualquer satisfação nem entrego fidelidade. E eles, cinema, samba e literatura, estão sempre ali, sem exigir absolutamente nada em troca, acessíveis, facinhos. Não há sofrimento, não há frustração, não há desespero, não há dor involuntária.

Apaixonado por Eliane Brum, Nelson Rodrigues (meu reaça de estimação), Charles Bukowski, Rubem Fonseca (Feliz Ano Novo é o melhor livro de contos de todos os tempos e quem discordar é clubista!), Gabriel García Márquez, Fiódor Dostoiévski, Machado de Assis, Ernest Hemingway , Jean-Paul Sartre, Franz Kafka, José Saramago e grande elenco, conheci Carla Madeira, por acaso, no mesmo lugar em que fui apresentado ao meu primeiro e eterno amor. No Pacaembu . Paixão em preto e branco. O meu primeiro lugar de pertencimento no mundo. Mundo que é muito mais cinza que preto e branco. Às vezes, muito às vezes, já que corinthiano ostenta orgulhoso o sofrimento, o universo é sublinhado, sombreado de cores mais vivas. A desesperança está no piso verde.
Como a praça Charles Miller não é só pernil, maria-mole, garapa e pastel de carne com muita pimenta, vi-ouvi, via telão externo (já que a tenda montada da Feira do Livro 2026 estava lotada igual jogo do Timão), a autora Carla Madeira, com um delicioso sotaque mineirim, falar, em uma triangulação com outra autora e uma apresentadora que não me recordo os nomes nem as feições, de um de seus livros. Não me lembro nem de qual livro, confesso, falava a autora. Não estava prestando a menor atenção. Ouvia com a mesma falta de concentração, paciência e interesse que "escuto" qualquer conversa que não tenha introduzido o chamado “lide” (colonizados afetados e tarados por estrangeirismos preferem “lead’) nos primeiros 18 segundos.
Tenho pela literatura e pelos livros relação parecida com a que tenho com o cinema, com os filmes e com as peças: importa-me a obra. No caso dos livros, a minha relação é com a leitura! E com a leitura que faço do que li, pouco me importa se era a intenção de quem escreveu ou se a minha interpretação é a mesma do próprio autor. O Nelson Rodrigues que grifa com tintas surreais a hipocrisia da sociedade me encanta muito mais que o cidadão conservador. Sempre me interessei menos pelos cidadãos Ingmar Bergman, Woody Allen, Luis Buñel e Pedro Almodóvar do que sou completamente apaixonado por Persona, Annie Hall, O Discreto Charme da Burguesia, Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos ...
Voltando ao clássico Tudo É Rio, não tenho 1% do talento de Carla Madeira, mas o fato de eu ter escrito dois livros (Paixão Corinthiana e 1990: O Ano Mais Corinthiano do Clube Mais Brasileiro) e por mais de duas décadas colunas diárias em jornais e portais, moldou-me. Cansei de ser elogiado por algo que não quis dizer e, mais ainda, cansei ao cubo de ser xingado, ofendido e ameaçdo por algo que não disse nem sequer insinuei nas entrelinhas. A conclusão, óbvia, que cheguei é a de que o texto é de quem lê, pouco importa o que disse e quis dizer o autor, o que fica é o que a pessoa interpreta e cria do texto/filme/quadro que consome.
Não sei o que a pessoa física Carla Madeira pensa e sente, embora não acredite em nada 100% não autobiográfico. O ser humano, inclusive os mais talentosos, como, indubitavelmente, é o caso da escritora, expressa o que sente e, óbvio ululante, sente o que vive. Seja o que vive na realidade, seja o que vive na fantasia, seja o que vive na utopia, seja o que vive no trauma, seja o que vive em si ou, não raro, seja o que vive no outro, mas, estou certo, não dá para narrar a aldeia do outro sem levar em conta, na construção do enredo, a aldeia que viemos e a que vivemos. Não se trata de CEP. Acredito 0% em autor que não vive no seu texto.
Chico Buarque, cuja "tricolidade" o impede de ser perfeito, é exceção à regra. Mortais têm muito mais dificuldade de se expressar no eu narrativo do gênero oposto. Adoro ouvir, ver e, claro, ler o pensamento feminino. Sou fã assumido de Rita Lee, de Beth Carvalho, de Clara Nunes, de Jovelina Pérola Negra, de dona Ivone Lara e de Elza Soares antes mesmo de aprender a ler e entender que fui criado com liberdades e privilégios que a minha irmã (a brilhante jornalista Marília Ruiz), um ano e três meses mais nova, não contou. E que vive hoje a fórceps! Só quando eu, da basílica safra 1977, já tinha alguma noção das diferenças culturais e sociais na criação de meninos e meninas, lá pela pré-adolescência, que virei fã de Isadora Ribeiro, de Rita Cadillac, de Matilde Mastrangi, de Adele Fátima, de Cicciolina, de dona Beija, digo, de Maitê Proença...
Falo com algum lugar de fala: não há experiências amorosas tradicionais e visitas frequentes ou bissextas a puteiros capazes de fazer um autor homem colocar no papel com a transparência e verossimilhança as personagens Lucy e Dalva como faz Carla Madeira. E como, acredito, a mulher lê o homem muito melhor do que o inverso, até o Venâncio do triângulo é mais humano e real do que seria fosse criado, sei lá, por Bukowski.
Futebol, como a literatura, não é um mundo à parte. Impossível vivenciá-lo sem levar em conta o repertório próprio. Nenhum crítico substituí o olhar do torcedor ou consegue interpretar a paixão de quem vive a arquibancada.
Vale para a Dalva, de Tudo É Rio, vale para corinthiano, maloqueiro e sofredor: só quem é sabe o que é ! Os outros? Nunca serão! Nem entenderão.
Conselho
A minha leitura é minha e, ainda que as letras seguidas de outras sejam as mesmas, cada leitura é única. E diferente da releitura. É apenas uma dica: leiam, para ontem, Tudo É Rio . De nada! Parafraseando o saudoso Almir Guineto, em cada experiência, se aprende uma lição. Eu quero ler para anteontem o que Carla Madeira ainda não escreveu e preciso ler e reler tudo o que ela já escreveu e que a minha ignorância desconhece.
Vitão Raiz
Eu sou o Vitor Guedes e tenho um nome a zelar. E zelar, claro, vem de ZL! É tudo nosso! É nóis aqui no iG com a coluna Vitão Raiz !
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