Porto e Peñarol no Mundial Interclubes de 1987, no Japão, debaixo de muita neve
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Porto e Peñarol no Mundial Interclubes de 1987, no Japão, debaixo de muita neve

Porto e Peñarol protagonizaram a final mais exótica do Mundial Interclubes de todos os tempos.



Debaixo de uma neve absurda, os dois times travaram uma batalha contra o adversário e também contra as condições climáticas que chegaram até a congelar a perna de alguns jogadores.

O Mundial Interclubes de 1987 (ou a Copa Intercontinental se você preferir chamar assim) foi disputado em 13 de dezembro no estádio Olímpico de Tóquio, no Japão.

Dezembro é um dos meses mais frios no país e chega a nevar em algumas regiões, mas na cidade de Tóquio especificamente é bastante raro o fenômeno acontecer.

A última tempestade de neve que caiu sobre a capital japonesa tinha acontecido há 35 anos.

O Mundial Interclubes foi disputado em Tóquio de 1980 até 2001, sempre no final do ano, e em todas essas outras edições a neve não deu as caras.

Os guerreiros do gelo

O Peñarol chegou ao Mundial após ser campeão da Libertadores de 1987, batendo o América de Cali na final.

Já o Porto foi o vencedor da Champions League 1986/1987, superando o Bayern de Munique na decisão.

Os dois times viajaram ao Japão para a disputa do Mundial, que era patrocinado pela Toyota, empresa automobilística japonesa.

Como a agenda dos clubes e toda a programação dos patrocinadores não previa um possível adiamento da partida, não teve jeito. Os times tiveram que entrar em campo debaixo de uma tempestade de neve para disputar a partida que decidiria quem seria o melhor time do mundo.

Os jogadores do Peñarol chegaram a trocar camisetas e flâmulas por luvas térmicas com torcedores japoneses nas arquibancadas.

Uma bola amarela teve que ser providenciada às pressas para o jogo poder rolar, já que uma pelota branca dificilmente seria enxergada no meio da neve.

Portugueses de um lado...

O Porto levava uma ligeira vantagem no quesito escalação, já que o goleiro do time era o polonês Józef Młynarczyk, que jogou a maior parte da sua carreira na Polônia e por isso tava um pouquinho mais acostumado com o frio do que os uruguaios.

O Porto ainda contava com dois brasileiros no seu elenco: o zagueiro Geraldão, que foi titular no jogo contra o Peñarol e que costumava marcar muitos gols de falta pelo time português.

O Geraldão também jogou pela Seleção Brasileira, onde ajudou o Brasil a ficar com a medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de 1987.

O outro brasileiro no Porto era o atacante Juary, que ficou no banco de reservas no jogo contra o Peñarol, mas foi bastante importante para o time português nessa temporada, já que foi ele o autor do segundo gol do Porto na final da Champions League contra o Bayern de Munique.

...uruguaios de outro

O Peñarol contava com o atacante Diego Aguirre, que anos depois jogou pelo São Paulo, Internacional e Portuguesa, e após encerrar a carreira, treinou vários times pelo mundo, incluindo Atlético Mineiro, Internacional, São Paulo e Santos.

Debaixo da tempestade de neve, o juiz autorizou o início da partida e em camp, era notável a dificuldade dos jogadores em conduzir a bola ou trocar passes num campo totalmente coberto pela neve.

Aos 40 minutos do primeiro tempo, depois de uma tentativa mal sucedida de afastar a bola do campo de defesa do Peñarol, a bola sobrou para Madjer, que driblou o zagueiro e chutou para o gol.

A bola parou a poucos centímetros da meta e Fernando Gomes completou para dentro da rede. Porto 1 a 0.

Um pouco depois rolou um princípio de briga, que foi rapidamente controlado pelo árbitro e pelos jogadores em campo.

O árbitro austríaco Franz Wohrer encerrou o primeiro tempo aos 44 minutos e 45 segundos de jogo.

No segundo tempo, a neve não deu trégua e o gramado foi ficando cada vez pior.

Aos 35 minutos do segundo tempo, Eduardo da Silva cobrou escanteio para o Peñarol e a bola sobrou para Ricardo Viera empatar a partida. 1 a 1.

Ao final dos 90 minutos o placar não foi alterado e com o empate a partida foi para a prorrogação.

No comecinho do tempo extra, depois de uma disputa entre jogadores do Peñarol e do Porto, o zagueiro português Inácio deu um chutão para frente e Madjer ganhou na corrida do zagueiro uruguaio.

O goleiro Eduardo Pereira estava adiantado e Madjer mandou por cobertura para fazer o segundo gol do Porto.

O autor do gol do Porto nasceu na Argélia e é considerado o melhor jogador argelino de todos os tempos.

Ele defendeu a seleção da Argélia nas Copas de 1982 e 1986 e ainda ajudou no único título da Argélia na Copa Africana de Nações, em 1990.

O Madjer também foi bastante importante na história do Porto, já que ele foi o autor do primeiro gol na final da Champions League de 1987 e ainda deu o passe pro Juary marcar o segundo gol.

Dragões campeões do gelo

O Peñarol ainda tentou desesperadamente empatar a partida, mas o gramado e a neve não colaboravam para o futebol.

No último lance da partida, o Peñarol ainda reclamou de um possível pênalti, mas o árbitro só marcou o escanteio.

Porém, antes da cobrança do tiro de canto o juiz pediu a bola e encerrou a partida, quando o relógio ainda marcava 14 minutos e 30 segundos do segundo tempo da prorrogação.

O Porto levantava pela primeira vez o troféu de campeão do Mundial Interclubes.

Confusão diplomática

Madjer, autor do gol do título, foi eleito o melhor jogador da partida e ganhou um carro da Toyota, que era a patrocinadora do Mundial Interclubes.

O carro original que a Toyota entregava, do modelo Carina II, era vermelho. Mas os diretores da montadora japonesa tiveram bom senso e entregaram para o Porto um carro cinza, já que vermelho é a cor do Benfica, um dos maiores rivais do Porto.

A ideia inicial era vender o carro e dividir o dinheiro entre os jogadores do Porto.

Mas o presidente do clube português, Pinto da Costa, foi contra a venda do carro porque considerava o veículo um item importante na história do clube.

Então, o veículo não foi vendido e chegou a ser usado por funcionários do clube e também pelo próprio Madjer quando ele assumiu o comando do time de juniores do Porto.

Por fim, o veículo ficou por um longo tempo em exposição, pendurado no teto da loja oficial do Porto, ao lado do Estádio do Dragão.

Recentemente o carro foi transferido para o museu oficial do Porto, ficando exposto ao lado de uma estátua do Madjer fazendo o gol de calcanhar na final da Champions League de 1987.

O Peñarol ficou com o vice do Mundial, nenhum jogador do time ganhou um carro, mas o time uruguaio já tinha em sua galeria de troféus três conquistas do Mundial Interclubes.

Um deles foi conquistado em 1982, quando o Peñarol venceu o Aston Villa, já nessa fase do jogo único disputado no Japão.

Os outros dois troféus foram conquistados na década de 1960.

O Peñarol bateu o Benfica em 1961 e o Real Madrid em 1966, quando o Mundial ainda era disputado em jogos de ida e volta na Europa e na América do Sul.

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