
Na Copa do Mundo de 1930, a Seleção Brasileira foi formada somente por jogadores de times cariocas e disputou apenas 2 jogos.
A primeira Copa do Mundo rolou em 1930, no Uruguai, e o futebol de um modo geral ainda era bastante amador, não só no Brasil, mas também no resto do mundo.
Uma prova disso é que a Seleção Brasileira nem mesmo tinha um técnico fixo.
Em todos os jogos que o Brasil entrava em campo o elenco era treinado pelo técnico de algum time brasileiro, numa espécie de freela de comandante da Seleção.
Na Copa de 1930, o escolhido foi o Píndaro de Carvalho.
Píndaro era treinador do Flamengo e antes de ser técnico jogou como zagueiro no próprio Flamengo e no Fluminense, além de ter defendido a Seleção Brasileira num período pré-Copas do Mundo, entre 1914 e 1919.
Em 1930, Píndaro de Carvalho tinha a missão de ser o primeiro treinador a representar o Brasil numa Copa do Mundo. Mas uma briga entre dirigentes deixou a vida do treinador um pouco mais difícil.
A rixa entre Rio de Janeiro e São Paulo
No dia 7 de maio, dois meses antes da estreia do Brasil na Copa, a CBD, antiga CBF, divulgou uma lista com 25 jogadores convocados para a Copa: 15 jogadores de times paulistas e 10 de times do Rio de Janeiro.
Em 1930, a capital do Brasil era o Rio de Janeiro e a cidade era o principal centro econômico, social e cultural do país. Nessa época o principal produto de exportação brasileiro era o café e o estado de São Paulo era o maior produtor do país.
Isso ocasionou uma certa rivalidade entre Rio de Janeiro e São Paulo, que se estendeu para o futebol.
A Confederação Brasileira de Desportos tinha a sua sede no Rio de Janeiro e, por isso, toda a comissão técnica brasileira que defenderia a Seleção na Copa de 1930 era carioca.
A Associação Paulista de Esportes Atléticos não gostou da ausência de um representante de São Paulo na comissão técnica e decidiu proibir a presença de jogadores de times paulistas na Seleção.
Isso acabou impedindo o técnico Píndaro de Carvalho de convocar nomes como Friedenreich, que jogava no São Paulo e era considerado um dos melhores jogadores do mundo na época.
Outro nome que ficou de fora da lista da Copa de 1930 foi o Feitiço, que jogava no Santos e foi artilheiro do Campeonato Paulista em seis edições.
A briga nos bastidores entre cariocas e paulistas ainda quase tirou outro nome importante da Seleção: o Araken Patusca.
Em 1930 o Patusca era jogador do Santos e por isso estaria proibido de defender o Brasil na Copa.
Mas pouco antes da convocação do Píndaro de Carvalho, o Araken Patusca brigou com a diretoria do Santos e acabou sendo inscrito na Copa como jogador do Flamengo, contrariando tanto dirigentes paulistas como cariocas.
Os pioneiros brasileiros na Copa do Mundo
A Seleção Brasileira acabou sendo representada na Copa de 1930 por esses nomes:
- Goleiros: Joel do América e Velloso do Fluminense.
- Zagueiros: Brilhante e Itália, do Vasco; Oscarino, do Ypiranga de Niterói; Zé Luiz, do São Cristóvão.
- Meias. Benevenuto do Flamengo; Fausto, do Vasco, Fernando e Fortes, do Fluminense; Hermógenes, do América; Ivan Mariz, do Fluminense; e Pamplona do Botafogo.
- Atacantes. Araken Patusca, do Flamengo; Carvalho Leite, do Botafogo; Doca, do São Cristóvão; Manoelzinho, do Ypiranga de Niterói; Moderato, do Flamengo; Nilo, do Botafogo; Poly, do Americano; Preguinho, do Fluminense; Russinho, do Vasco; e Teóphilo do São Cristóvão.
Uma curiosidade é que dessa lista de 23 convocados pelo técnico Píndaro de Carvalho, 22 nunca tinham jogado uma partida pela Seleção Brasileira.
A Seleção Brasileira embarcou para a Copa em um navio a vapor, deixando a cidade do Rio de Janeiro e chegando a Montevidéu 3 dias depois.
Na Copa, o Brasil estava no grupo 2, ao lado da Iugoslávia e da Bolívia. Somente o primeiro colocado do grupo avançaria para a semifinal.
A estreia brasileira seria contra a Iugoslávia, no dia 14 de julho, no estádio Parque Central.
O Brasil entrou em campo com o goleiro Joel, Brilhante e Itália na zaga, Hermógenes, Fausto e Fernando no meio-campo, e com 5 atacantes: Poly, Nilo, Araken Patusca, Preguinho e Teóphilo.
A formação 2-3-5, extremamente ofensiva, era a grande novidade da época.
A Seleção Brasileira entrou em campo com camisas brancas e calções azuis. Esse era o uniforme principal do Brasil, que ainda seria usado por muitos anos após a Copa de 1930.
A seleção iugoslava abriu 2 a 0 ainda no primeiro tempo, com gols de Tirnanic e Bek.
O Preguinho descontou pro Brasil aos 17 minutos do segundo tempo.
O gol, apesar de histórico, afinal foi o primeiro gol brasileiro em Copas do Mundo, não ajudou a evitar a derrota. Final de jogo, Iugoslávia 2, Brasil 1.
O nível da rivalidade entre cariocas e paulistas era tão grande que algumas pessoas saíram às ruas da cidade de São Paulo pra comemorar a derrota da Seleção Brasileira.
Em 17 de julho, três dias depois de vencer o Brasil, a Iugoslávia goleou a Bolívia por 4 a 0 e garantiu a classificação antecipada para a semifinal.
Para o Brasil, restava disputar mais um jogo meramente amistoso contra a Bolívia, já que nenhuma das duas seleções tinha chances de classificação.
O técnico Píndaro de Carvalho colocou em campo uma seleção ligeiramente diferente da estreia contra a Iugoslávia.
No gol, Joel deu lugar a Velloso. Na zaga, Zé Luiz substituiu Brilhante, e Itália foi mantido. O meio-campo permaneceu inalterado, com Hermógenes, Fausto e Fernando.
No ataque, quatro substituições. Saíram Poly, Nilo, Araken Patusca e Teóphilo, e entraram Benedicto, Russinho, Carvalho Leite e Moderato.
O único mantido no ataque foi Preguinho, capitão do time.
Nessa época ainda não existiam substituições no futebol, então o único jeito de modificar um time era mudando a escalação desde o início da partida.
O Brasil goleou a Bolívia por 4 a 0, com 2 gols de Moderato e 2 de Preguinho.
O goleiro Velloso ainda defendeu um pênalti na partida, se tornando o primeiro goleiro brasileiro a defender uma penalidade em Copas.
Preguinho acabou sendo o artilheiro da seleção na Copa, com 3 gols.
Uma curiosidade inusitada é que o Preguinho também praticava natação, remo, basquete, pólo aquático e vários esportes. Às vezes tudo ao mesmo tempo.
Em 19 de abril de 1925, ele foi campeão estadual de natação na categoria 600 metros, e na mesma tarde fez a sua estreia no futebol jogando pelo Fluminense.
Mesmo com os 3 gols do Preguinho, a Seleção Brasileira se despediu precocemente da Copa, com 2 jogos disputados, 1 vitória e 1 derrota, 5 gols marcados e 2 sofridos.
A seleção algoz do Brasil nessa Copa acabou sendo a Iugoslávia, que avançou para a semifinal mas acabou levando uma goleada do Uruguai: 6 a 1.
O pós-Copa melancólico da Seleção Brasileira
Após o final da Copa, a seleção iugoslava permaneceu na América do Sul para disputar alguns amistosos.
Um desses amistosos foi justamente contra a Seleção Brasileira, menos de 1 mês após a derrota do Brasil na Copa do Mundo.
Dessa vez, a Seleção Brasileira, formada praticamente pelos mesmos jogadores que foram à Copa no Uruguai, venceu a Iugoslávia por 4 a 1, com 2 gols de Carvalho Leite, um de Benedicto e outro gol de Russinho.
A Iugoslávia ainda enfrentou o Vasco em um amistoso no estádio de São Januário. E levou outra goleada: 6 a 1. Russinho foi o autor de 3 gols do Vasco nessa goleada.
A Seleção Brasileira também enfrentou outras seleções que permaneceram pela América do Sul após o final da Copa.
O Brasil venceu a França por 3 a 2, e a seleção dos Estados Unidos por 4 a 3.
Os três amistosos, contra Iugoslávia, França e Estados Unidos foram realizados no estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
Apesar desses amistosos pós-Copa do Mundo, o Brasil não realizou nenhum amistoso pré-Copa do Mundo, o que seria o natural.
O último amistoso da seleção antes da Copa de 1930, um jogo contra o time do Ferencvaros da Hungria, rolou em 1929, ou seja, 1 ano antes da Copa.
Aliado a isso, outros motivos contribuíram para a eliminação precoce do Brasil na Copa.
A falta de preparação física e de experiência prévia dos jogadores em partidas pela Seleção Brasileira, já que apenas 1 jogador do time já tinha jogado vestido a camisa brasileira.
O inverno uruguaio, que foi bastante rigoroso e com temperaturas bastante baixas naquele ano de 1930, também contribuiu para o fiasco brasileiro.
E, principalmente, a rixa entre cariocas e paulistas, o que impediu a convocação de vários jogadores que teriam lugar garantido na escalação do time.
Após a Copa de 1930, o Píndaro de Carvalho deixou o cargo de treinador da seleção e quem assumiu foi o Luís Vinhaes, que ficaria no cargo até a Copa de 1934, na Itália.