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Ponte Press
Ivan, goleiro da Ponte Preta, foi chamado para a seleção brasileira

Oi. Talvez você não me conheça. Meu nome é Ivan. Sou goleiro da Ponte Preta. Tenho 23 anos.

Sexta-feira. Dia seis de março de 2020.

Meu telefone começou a tocar. Era final da manhã, começo da tarde. Ligações, mensagens, WhatsApp. Números conhecidos e desconhecidos apareciam na tela do meu celular. Eu tinha sido convocado pelo Tite para os jogos contra Bolívia e Peru.

Várias pessoas estavam querendo me abraçar. Me desejar sorte.

Eu lembrei do meu avô Roberto.

Ele escolheu meu nome: Ivan. E disse, quando eu era bem pequenininho: meu neto vai ser um cara muito reconhecido e terá sucesso. Vai ser um grande doutor.

Não virei doutor.

Não segui a medicina. Meus amigos dizem que opero alguns milagres, mas acho exagero. Minha grande defesa é orgulhar minha família.

Vô Roberto faleceu quando eu tinha seis anos, mais ou menos. Queria que ele tivesse visto esse momento. Queria abraçar meu avô e agradecer. A palavra tem força.

Quando fiquei sabendo que o Tite falou meu nome no meio da lista, liguei para minha mãe. A gente nunca passou fome, mas minha infância foi difícil. Morávamos numa casinha pequena, com dois cômodos e um banheiro. Eu, ela, meu pai e meus dois irmãos.

Um guarda-roupa separava o quarto, da cozinha. Eu e meus irmãos dormíamos na sala, numa beliche. Era beliche para não ocupar muito espaço.

Lá eu cresci, vivi minha infância e fui feliz. Lá comecei a sonhar. Era sitio, estrada de chão. Longe da cidade. 14 quilômetros, mais ou menos.

Tive a chance de treinar em uma escolinha. A escolinha ficava no centro da cidade.

No começo um vereador me dava carona. Depois os horários começaram a não bater. Minha mãe queria que eu parasse. Eu falei para ela:

- Mãe, se você me ajudar a realizar meu sonho, vou ser eternamente grato.

Na mesma hora ela foi lá e comprou uma bicicleta. Em várias prestações.

Com a bike eu percorri vários dias os 14 quilômetros para ir e depois para voltar. Chegava cansado ao treino na escolinha, mas o amor pelo futebol superava tudo. Tudo que eu mais gostava era jogar bola com os meninos da cidade.

Uma vez acabou a atividade e eu voltei correndo. Estava com muita fome. A corrente da bicicleta estourou e eu tive de trazer no ombro.

Hoje tudo parece leve, mas a vida de muita gente é bem pesada. Levar o sonho nas costas deixa marcas. Marcas que eu tenho muito orgulho de ainda possuir no corpo.

Uma vez o meu treinador da época, o Wainer, da escolinha de Rio das Pedras, me disse que eu seria goleiro de Seleção. Isso quando eu tinha 13 anos.

Sempre joguei com os mais velhos, que chutavam forte e eu não tinha medo. Rogério Ceni era meu ídolo. Fazia uma defesa e gritava o nome dele. Só não consegui bater falta.

Veio o Guarani e me contratou. Aí surgiu a Ponte Preta na minha vida. A melhor coisa que poderia ter acontecido.

Não sei se no Guarani eu teria chance.

Deus coloca as oportunidades no momento certo.

Eu cresci. Tenho um metro e noventa e seis de altura. Outro dia visitei a casinha onde morei. Quase bato a cabeça no teto.

17 de janeiro de 2018. Corinthians x Ponte Preta. Pacaembu.

O professor Eduardo Baptista me escalou. Eu jogaria em São Paulo. Primeira vez começando como titular. E logo contra o Corinthians.

Pênalti para eles. Jadson se aproxima da bola. O estádio todo quer o gol.

O Jadson que eu via na TV e ouvia no rádio iria bater. Era ele contra mim.

Eu defendi.

Acho que o vô Roberto deu uma mãozinha lá do céu. Ele defendeu comigo. Queria que tivesse visto tudo de perto. Queria poder abraçar o vô Roberto, minha mãe e meu pai naquele momento.

Nós abraçamos a bola. Espalmamos juntos.

Nesse momento, narradores de todo Brasil gritaram meu nome. O nome que o vô Roberto escolheu para mim.

Ivan.

Não sei se sou doutor como ele disse, mas sou abençoado.

Abençoado por poder orgulhar minha família.

Recentemente comprei uma casa para meus pais. Olhei nos olhos da minha mãe:

- Mãe, essa casa é sua. É onde você vai viver. Você nunca mais vai pagar aluguel.

Eu tinha prometido quando criança: mãe, um dia eu vou ser jogador e vou te dar uma casa.

6 de março de 2020.

Eu, Ivan, sou goleiro da Seleção Brasileira. Da principal também.

Vou me apresentar junto com os craques Éderson e Weverton. Quero chegar um dia ao nível deles.

Meu telefone ainda toca. Ligações e mensagens de todos os lugares do mundo.

As de Rio das Pedras são especiais.

Lá eu cresci. Lá eu prometi aos meus pais. Lá eu comecei a alimentar o sonho de ser goleiro.

Passa o filme na cabeça. Muitos protagonistas saíram mais cedo do filme da minha vida.

Se me chamo Ivan é por causa do meu avô.

Meu maior sucesso é carregar o sangue dele no meu corpo. Para sempre.

E defender nossa família de qualquer pênalti que surgir pelo caminho.

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