Guilherme Cimatti no Carnaval 2020 arrow-options
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Guilherme Cimatti no Carnaval 2020

Eu não esperava te encontrar quando o Caetano me chamou para tomar cerveja. Eu não esperava te encontrar quando chamei o Uber. Quando o Uber foi buscar meu primo. Quando chegamos num boteco no centro da cidade. Eu não esperava te encontrar quando ameaçou chover. Quando a gente começou a beber. Quando apertou a vontade de ir ao banheiro e estava tudo cheio.

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Eu não esperava te conhecer quando um bando de pessoas apareceu. Quando as ruas encheram, a cidade sorriu com o Carnaval , o noticiário catastrófico político deu uma trégua. Eu não esperava te conhecer num dos únicos dias em que a esquerda e a direita mostravam os dentes, mas alegres. Eu não esperava te conhecer quando o Rodolfo avisou o Caetano que estava chegando.

Eu não esperava te conhecer quando ele ligou avisando que tinha chegado. Quando o Caetano disse que o Rodolfo estava com umas amigas. Que elas eram estrangeiras. Colombianas, suíças, alemãs. Eu – já bêbado como quase todo o país – não esperava entender o que você diria. Eu não esperava que alguém fosse tão inteligente e tivesse a capacidade de falar 136 idiomas fluentemente. Eu não esperava falar espanhol na maior festa do meu país. Eu não imaginava que alguém pudesse se chamar Moïra . Com esse acento estranho que eu nem sei o nome.

Eu falei pouco com você no começo. Eu jamais imaginei que você pudesse dar um mole, uma olhada diferente, uma chancezinha. A primeira coisa que reparei: você vive sorrindo. Sorrindo para todo mundo. Sorrindo para as ruas, as pessoas, os carros de som. Eu raramente vi alguém sorrindo tanto. Sorrindo de graça, simples, leve.

Eu não esperava falar mais coisas com você quando fui outra vez ao banheiro. Quando o Caetano me chamou e meu primo se perdeu. Quando eu e Caetano dividimos um salgado frio de queijo. Comprei uma bala de hortelã. Levei a camiseta no nariz para evitar o cheiro do banheiro químico. E voltamos até a turma. Eu não esperava voltar e ver meu primo beijando uma das amigas do Rodolfo. Tomei um susto quando um ladrão quase levou a carteira dele.

Você estava sozinha. Sorrindo .

Eu não esperava voltar a falar com você. Muito mais portunhol do que espanhol. Não esperava entender uma palavra sua. Não esperava anotar seu telefone. Não esperava que meu rosto ia se aproximar do seu. Não esperava que a gente se beijaria. Jamais pensei que conheceria uma suíça na vida. Que ficaria com uma suíça em fevereiro. No Carnaval .

Eu não me encanto desde 2015. Desde então, com todo mundo, vivia dizendo que nunca ficaria balançado outra vez por alguém. Duvidava muito mais de mim e do meu sentimento do que de qualquer outra pessoa. Me achava incapaz de me desequilibrar outra vez.

Você apareceu.

Eu não esperava te conhecer naquele sábado.

No domingo você foi para o Rio. Depois viajaria para Salvador. Para a Suíça , na sequência.

E eu, que não esperava nada disso, não conto com seu retorno. A vida é feita de instantes, de lances, de pequenos momentos. Nosso pequeno momento foi leve. Leve como é quase todo momento bom.

Diz alguém que momentos são lapsos e não se repetem. Pode ser.

Mas eu, que não esperava conhecer você - no fundo – ainda guardo uma leve esperança.

Minha leve esperança pode ser comparada ao seu sorriso mais delicado.

Minha esperança tem um voo de distância e a força de um dia de abraço.

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