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Luxemburgo disse que Fábio Carille, se trabalhasse no Santos, montaria um time atacante. E também falou sobre Jorge Sampaoli, sensação na Vila

O prêmio de maior bobagem dita no ano vai para Vanderlei Luxemburgo. Tentei assistir a conversa do treinador na ESPN e desisti logo no começo. “Se o Sampaoli viesse ao Corinthians, ele não conseguiria fazer o time defensivo que o Carille fez. E o Carille conseguiria fazer o time ofensivo que ele tem lá no Santos”, disse o profexô, em tom explicativo, como nas velhas aulas dos anos noventa. Tentei defender Luxemburgo muitas vezes, mas não dá mais. Desisto.

Sampaoli , por não ser um treinador covarde e medroso, jamais deixaria de querer a bola. Em todos os trabalhos do argentino pelo mundo, a bola sempre foi aliada. Mesmo que seus times não fossem técnicos como os adversários, seus jogadores tivessem qualidade menor do que o oponente. Na seleção do Chile – o melhor trabalho – foi determinante para fazer com que uma geração se tornasse vitoriosa. E foi pela coragem . Não é questão de identidade de time, mas de identidade de trabalho. O Santos está longe de ser a melhor equipe. É uma das mais agradáveis de se ver, no entanto.

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No Brasil são raros os treinadores corajosos. O drible deixou de ser característica e passou a ser pecado. Driblar é artifício raro, contraventor, transgressor. O negócio é fechar a equipe com onze atrás do meio de campo e esperar o contra-ataque. E, com chutão, ligar o zagueiro ao atacante. Por milagre sai um gol e o medo toma conta por completo. Um a zero aqui é goleada. Pobreza total, evidentemente.

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Carille não é um técnico corajoso. Muito pelo contrário, aliás. Carille, Felipão e Mano Menezes têm características defensivas . Corajoso é quem busca o gol, propõe o jogo, quer ter a posse. Renato Gaúcho e Fernando Diniz são exceções. O cinco a quatro de domingo foi um grande presente para quem ama o futebol e procura o verdadeiro futebol – sempre - fora do país. Luxemburgo tem como ideia a ofensividade. Por isso senti falta dele por tanto tempo. Mas realmente os vinte clubes da série-A e os outros da B têm razão: não dá para apostar. O primeiro atributo do vencedor é reconhecer quem está fracassando. Não só nos resultados, claro.

O vitorioso Carille jamais fará um time corajoso e vistoso. Só se mudar completamente a forma de ver o jogo, como se formou como técnico, as velhas manias defensivas que imperam no antigo país do futebol. O mesmo vale para Scolari. E para quase todos os outros. E Sampaoli jamais fará um time defensivo. O motivo é simples: ele prefere fazer o segundo do que segurar o primeiro gol e é valente.

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Se Jorge Sampaoli treinar o Ibis – ou o Juventus, o Nacional da Barra Funda, ou o Guararemense – seu atributo será o mesmo. A tal defesa da classe preocupa. Sampaoli não faria um time como o de Carille ou de Felipão. Ele trairia sua maneira de enxergar o jogo. Um argentino tem olhos mais brasileiros do que os cegos que criticam os estrangeiros. E protegem a cegueira geral. Duvido que Sampaoli perca sua identidade, assim como nosso futebol se perdeu ao longo dos anos. Estamos apanhando de verde e amarelo. Apanhando mais do que driblando.