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As salas são as mesmas, as quadras estão iguais. Eu mudei, porém. É uma lembrança boa, mas também machuca. Talvez aconteça o mesmo com Carille

Outro dia eu voltei pra escola que me acolheu da primeira série até o terceiro colegial. Lá eu aprendi a escrever, a desenhar, a gostar de futebol e a tirar menos de cinco na maioria das provas. Não ia pra escola com pesar, tristeza e desanimo. Muito pelo contrário: acordava uma hora mais cedo para, antes do sino tocar avisando sobre o início da aula, jogar bola com meus amigos. Eu era gordinho, tinha cabelo tigela e amava o Marcos, goleiro do Palmeiras. Gritava o nome dele quando defendia um pênalti.

Com o passar do tempo, emagreci. Na quinta série, talvez, eu era um palito. Ganhei fôlego e velocidade. Troquei as mãos pelos pés, literalmente, e comecei a atuar na linha. Curtia chutar. E chutava forte, inclusive. Era minha maior virtude. Com ela, sempre dando o pontapé de saída na quadra do Liceu Santa Cruz - minha escola - conquistei um lugar no time titular da sala. Na oitava série foi meu auge como "jogador". Não durou tanto.

Nosso time estudava pela manhã e treinava no período da tarde. O rachão era sempre com a sétima série, com um ano a menos. Fui artilheiro da Olimpíada marcando - nunca esqueço - sete gols. E fomos campeões. Naquela escola, naquele pátio, eu comecei a paquerar as primeiras meninas. Mas, desde aquela época, nunca foi recíproco. Naquela escola, naquele pátio, eu briguei pela única vez na vida. E hoje o Dênis é um grande amigo meu. Me chamava de Coruja, por causa do nariz pontudo pra baixo.

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A escola me abraçou forte quando meu pai morreu, em 2007. Eu tinha 16 anos. Ele me levou pra tomar café da manhã, me deu um beijo e foi trabalhar. Eu treinei com meus amigos depois da aula e fui dormir em casa. No começo da noite, por volta de 18h, meu avô me ligou e só disse: "Seu pai, seu pai, seu pai". Confirmaram pouco depois o que eu suspeitei, pela voz de choro do Neneu. E ele virou meu pai depois disso. Ele e o Yeye, meu avô materno.

Naquela escola, naquele pátio, vivi momentos de celebridade. Eu e meu violãozinho velho que tá aqui encostado no quarto. Eu levava ele e passava o intervalo todo tocando com a galera. Tinha gente que eu nem conhecia e adorava ficar me ouvindo. Eu arranhava, na verdade. Nunca me destaquei muito. Tanto é que tocava Lobão (arghhhhh) e não sabia um acorde do Chico Buarque. Vida louca, vida breve. Era e sou fã do Cazuza. Cheguei a tocar em uns bares por aí, mas não foi pra frente. Hoje só desafino. Meu sonho era passar no rádio.

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Fui trabalhar no rádio depois de alguns anos, como jornalista. Como produtor, repórter e apresentador. A turma do Liceu me chamou pra voltar e dar uma palestra pra molecada. Eu fui. Isso faz uns cinco anos. Eu entrei no pátio, olhei para as salas, passei pela cantina e veio uma sensação esquisita. É como se eu estivesse no mesmo lugar, mas também era como se não fosse mais aquele menino olhando as mesmas coisas. Ficaram só as lembranças boas, os melhores lances, os chutes certos, as risadas demoradas.

Mas minha turma não estava lá, meus professores - muitos deles - já não estavam lá, as apostilas já não estavam lá, muita gente da família já não estava por perto. A quadra não era mais verde. A outra quadra, no último andar, estava sendo reformada. O tamanho das carteiras era menor. Eu já não sou o mesmo. Dói dizer que eu não sou o mesmo. Ninguém é.

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Nem eu, nem você, nem sua antiga escola. Casais reatam depois de anos e descobrem, na sequência, que o amor de antes não existe mais. Insistem no passado. Que é gostoso e serve apenas como passado. A lembrança machuca. Dá aquele sorriso de canto de boca, sorriso de criança, e logo vira saudade. A saudade é o que a gente sente falta e nunca mais vai alcançar. Nem se esticar o braço, o peito, o choro. Nem se esticar o tempo. "Não somos mais aquelas pessoas nem é mais o mesmo aquele rio", diz a frase famosa.

Fábio Carille foi muito feliz em 2017. Arrumou o Corinthians, sua escola . Saiu, ficou pouco tempo fora e encontrou tudo diferente. Carille ainda visita os cômodos da primeira casa. Assim como o meu, seu violão tem desafinado. Nem sempre a mesma música diz a mesma coisa.