Tamanho do texto

A crônica mistura futebol e política. Flamengo e Palmeiras empataram no Maracanã. Nesse domingo, o Brasil escolhe seu novo presidente

Aqui quem fala é o Antônio. Tenho 62 anos. Esse rapaz da coluna está na minha frente, em um bar perto de casa. Flamengo e Palmeiras jogam no Maracanã. Ele é meio perdido, né? Conheci hoje. Só aos trinta e poucos minutos do primeiro tempo foi perceber que não estava me deixando ver o jogo na tevê. Tava com o cabeção cobrindo toda tela. Olhou pra trás e pediu desculpas.  Achou que eu tivesse ficado bravo. Imagina... já vi cada coisa nessa vida.

Leia também: Carta ao democrata Sócrates

Já vi meu time jogar duas vezes a Série-B . Vi o Marcos ficar para disputar uma delas. Recusar proposta da Inglaterra para pular nos campos esburacados da segundona. Tomar de sete do Vitória, perder clássicos, virar alvo de piadas dos rivais. Ter de aturar tantos jogadores que não mereciam vestir nosso verde. Vi tudo isso cantando e vibrando. Perdendo a voz. Gritando para empurrar o tempo todo. No antigo Palestra Itália, muitas vezes sem ver. Você acha que eu tô ligando?

Vi meu time ser campeão e cair. Vi o melhor técnico da história do meu time trazer uma Copa do Brasil quase que impossível e depois sofrer queda. Vi ganhar do Grêmio heroicamente. Com o melhor e mais preguiçoso jogador fazendo a diferença. Vi o Valdívia sofrer lesões seguidas. Vi a lágrima contrastar com meu grito de ‘é campeão’. Vi Assunção bater falta e fazer infiltração para atuar. Vi Bruno falhar. E admito: muitas vezes acabei fechando os olhos. Preferindo não ver.

Vi muita gente fechando os olhos no período militar. Li sobre tortura , crimes escondidos, censura, notícias falsas. Ouvi Chico. Ouvi quando pude. Ouvi Caetano. Quando pude. Ouvi Elis. Quando pude. Vandré, Gil, Simonal. Quase não podia. As letras eram proibidas se fizessem qualquer alusão aos ditadores. Sem democracia é assim, meu filho. A arte e a informação são as primeiras sacrificadas num governo autoritário. E há quem acredite que naquela época as coisas funcionavam melhor...

Leia também: Flamengo e Palmeiras emparam no Rio

Mas eu vou te confessar uma coisa. Em alguns momentos eu fechei os olhos. Fechei os olhos porque não queria saber sobre as barbaridades que Ustra e outros torturadores faziam. Sabe quando você fecha os olhos com força, meio que no reflexo, com medo do que pode vir? Então. O Herzog. Já ouviu falar? Era chefe da TV Cultura. Não cometeu nenhum crime. Foi levado pelo regime, torturado e morto. Seu pecado? Pensar diferente. Pensar diferente não é uma boa ideia na ditadura. Nunca foi e nunca será.

Hoje eu tô aqui. Já tenho filhos, netos, netas. Se tem uma coisa na vida que eu aprendi é que a história se repete. Acho que a gente vai eleger um cara que tem Ustra – repito: torturador da ditadura – como exemplo. O livro de cabeceira do tal candidato é sobre a vida do Ustra. Ele votou no Congresso citando Ustra. Disse que precisa matar pelo menos 30 mil. E que é a favor da tortura. E que fraquejou quando teve uma filha mulher. E que precisa fuzilar a petralhada do Acre. E que seus filhos não correm risco de se relacionarem com uma negra. O Mourão, vice dele, falou em clareamento da raça. Que a indolência do brasileiro é herança dos negros. Criticou décimo terceiro salário. Férias e remuneração. O filho disse que fecha o Supremo  – o STF, veja só – com um soldado e um cabo.

Leia também: Helicóptero do dono do Leicester cai e explode em estacionamento

Só que agora eu não vou fechar os olhos, meu filho. Vou ficar com eles escancarados e resistentes, assistindo a história acontecer. Antes eu fazia força para não ver. Hoje eu faço questão. Ainda tenho voz. Talvez ela arranhe um pouco, com o tempo. Ele passa. E se eu não puder gritar, vou falar. Baixinho, até. Escrever, sei lá. Quem quiser vai ficar sabendo o que eu penso. Tem muita gente que nem quer. Só quer ter razão. Discutir, brigar, apoiar torturador. Por raiva de um partido. E me desculpa, viu? Ó lá. Acabou o primeiro tempo e fiz você perder quinze minutos do jogo.

Antes quinze minutos do que a vida inteira, né? O resultado no Maracanã, na verdade, pouco importa. Pode ficar na minha frente, só não tire minha voz . Muita gente já me impediu de ver. Mas ainda sinto. Tenho sensibilidade. E ouço. Ouço o que muita gente faz questão de não escutar. Entra por um ouvido, sai pelo outro.

Mas vem cá, garoto: será que o Felipão vai mudar o time no segundo tempo ?

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.