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A Franca conquista o bicampeonato mundial 20 anos depois do primeiro título. Se Zidane foi o herói de 1998, Mbappé é o de 2018

Minha primeira lembrança de Copa do Mundo é de 1998. Meu pai me acordou cedo e saímos para buscar meu primo, Danilo. As ruas estavam cheias de faixas, todas dizendo sobre o possível pentacampeonato. O estádio oficial não era em Paris, na verdade: era na minha casa. No meu prédio, aliás. Rojões, camisas amarelas e bolachas com recheio. Nada de sofás. Estávamos todos no chão, sentados. Ronaldinho era meu ídolo. Não largava por nada o uniforme com o número nove do Brasil.

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Mbappé iguala Pelé como jogador com menos de 20 anos a marcar em final de Copa do Mundo
FIFA/ Divulgação
Mbappé iguala Pelé como jogador com menos de 20 anos a marcar em final de Copa do Mundo

Ali não sabia nada sobre esquemas táticos, nem discutia posicionamentos e muito menos jogadas ensaiadas. O negócio era falar sobre gente. Gente que o mundo inteiro conhecia e admirava. Gente que atuava fora do Brasil – e o Brasil, para mim, era só até onde meus olhos chegavam. Gente que também teve ídolos. E que também, em algum momento, teve sua primeira lembrança de Copa do Mundo. E gente para idolatrar. O meu não brilhou naquele dia, final da Copa do Mundo .

O jogo começou. Um tal de Zidane cabeceou pela primeira vez. Meu pai quis explicar: disse que o zagueiro não marcou bem, mas eu nem sabia o que era zagueiro; que Roberto Carlos errou a bicicleta e bicicleta, aos meus olhos, era aquele bicho estranho que eu sempre caia quando tentava andar. E Zidane cabeceou pela segunda vez.  Ele tentou explicar de novo. E Petit sacramentou a coisa. Marcou o terceiro. E meu pai passou a dizer com os olhos, apenas. No dia seguinte, a capa era Zidane levantando a taça. E é essa minha primeira lembrança de um jornal: Zidane levantando a taça. Em 2007, quando meu pai morreu de repente, eu procurei explicações. Mas ele já não estava lá.

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20 anos depois do jogo de 98, algum menino deve ter chorando com os gols da Bélgica. O mesmo menino passou a conhecer Mbappé, Pogba, Griezmann. Certamente não o papel tático deles, as recomposições e as linhas de quatro. Viram, porém, como Mbappé corre. Como Pogba, com suas pernas gigantes, busca a bola longe do alcance. Como o apagado Griezmann brilhou no momento certo. O menino não viu os números, mas viu o essencial. Sentiu, aliás, o essencial.

O pai do menino de hoje deve ter tentado explicar como Lloris espalmou com o último pedaço de corpo. Como Pavard acertou chute improvável. Umtiti e Varane defenderam. Como Lucas Hernandéz deu suporte. Como Kanté encantou distribuindo. Como Pogba acertou o pé esquerdo no gol, desiludindo. E como Matuidi trabalhou. Como Giroud não marcou. Como Mbappé.

Para o garoto de hoje, Mbappé é o Zidane de ontem. Suas características são completamente diferentes: Mbappé é velocidade; Zidane é passe; Mbappé é arrancada; Zidane é drible curto. Mas há algo maior do que papel tático, funções ofensivas e até características técnicas. Existe a lembrança. E a lembrança, amigos, vive em pequenos detalhes. Armazenada no carinho de cada detalhe.

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Em 2038, amigos, algum marmanjo vai se lembrar do velho jornal de 2018. E, assim como os pais nos jogos decisivos de Copa do Mundo , vai tentar explicar. Mas explicar a si próprio porque o tempo passa tão rápido. E não volta.