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Todo fim é difícil de ser compreendido. Muitas vezes insistimos, tentamos e nos decepcionamos. Amor é assim, afinal. E nem sempre termina como sonhamos.

É que ninguém jamais confundiu Parreira e Felipão. Só você, naquele momento, naquele lugar. Era 2010, Copa do Mundo. Felipão tinha sido contratado pelo Palmeiras (ou seria, não sei bem). A tevê mostrou Parreira, então técnico da África do Sul. Eles não são nada parecidos, obviamente. Você, na verdade, nem sabia quem era quem. E tudo passou assim: leve, imperceptível, inalterável. A gente riu, infantilmente quase. E se abraçou em uma das últimas vezes.

Tudo que termina sem perceber é estranho e carrega uma dor leve. "Como seria se?", perguntamos em voz baixa, bem baixa para que ninguém escute, como um segredo bom que se esvaziou com o tempo. E chega ao fim sem solenidade, sem cortejo, sem reunião. Acaba sem despedida, discussão, tentativa. Quase como um amor de carnaval, que se perde diante de tanta gente.

"Que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?", escreveu um dia Rubem Braga, melhor cronista da história brasileira. E ele tem razão. Não é necessário mais do que isso, afinal.

Viramos retratos. Quase que não somos mais os mesmos das fotos. Nem eu sou aquele menino, nem você é aquela mulher. Dois amigos passeiam facilmente pelas memórias. Se divertem diante de tudo que viveram e dividiram. Retomam o que foram um dia. E gargalham, se divertem, brincam. Um casal, não. Casal vira lembrança apenas. Posso pensar o que seria, mas prefiro recordar o que ficou. O que restou daquele dia no bar, do dia na praia, dos dias em São Bernardo, do dia na praça e no estádio. O que sobreviveu no fim.

Sou péssimo para escrever essas coisas. Alguém vai dizer: lá vem um texto piegas, brega, cheio de lamentações. Mas é que já não somos mais o que éramos juntos, de fato. E acho até que é normal. Afinal, já não somos os mesmos e nem temos os mesmos sonhos. Não compartilhamos as mesmas aulas, as mesmas mesas, os mesmos amigos. Somos quase meros desconhecidos, que devem se cumprimentar com o velho sorriso de canto de boca se por acaso se encontrarem por aí.

Você tinha razão: Felipão e Parreira, depois de tudo, quase viraram a mesma pessoa, em 2014, no sete a um. Lá poderia não ter recomeçado o amor com a seleção. E terminado como nosso caso: do nada, com carinho, embalado com a luz que um dia prometeu nos iluminar e jamais se apagou completamente.

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