Tamanho do texto

André, atacante do Grêmio, marcou um golaço de bicicleta. Mas o árbitro anulou. O tema de hoje é esse tipo tão raro de gol no futebol brasileiro

Nunca consegui fazer um gol de bicicleta. Tentei várias vezes, desajeitado, esticar o corpo com flexibilidade suficiente para trazer perigo a algum goleiro. Nunca consegui, porém. Sempre cai sentado, machucando a bunda e não as costas, o que certamente fazia doer menos do que a segunda alternativa. A bicicleta original exige do jogador maior elasticidade, plástica e coragem. O corpo deita no ar. O pé de apoio levanta antes, alinhando e dando força para o outro bater na bola. Tudo em milésimos de segundos. Forma noventa graus. O lance foi criado pelo eterno Leônidas da Silva.

O gremista André fez de bicicleta contra o Fluminense, mas o gol foi anulado pelo juiz
Reprodução
O gremista André fez de bicicleta contra o Fluminense, mas o gol foi anulado pelo juiz

Mas nunca fui prodígio. Minha bicicleta era só chutando com a perna direita. A esquerda jamais subiu para apoiar e sempre ficou flexionada, incapaz de se mover. Era só meu pé favorito e um movimento meio que de lado, contrariando a regra de beleza que a jogada impõe. Os outros meninos, então, riam dos deslocamentos preguiçosos do meu corpo. Hoje, se me fizessem tentar dar uma bicicleta, acho que eu quebraria no meio. O confronto com o chão seria maior do que o conflito que vive o país. No meu caso, sempre faltou gasolina, não é de agora. Fui um meia preguiçoso. Meia boca.

Bicicleta mesmo foi a do Cristiano Ronaldo. Você deve ter visto. Ele fez o movimento perfeito, desenhou no ar: cruzamento da direita, o português voou no encontro da bola e chutou no canto esquerdo de Buffon. Ter acontecido em Buffon, aliás, apenas abrilhantou mais o feito. Nem ele foi capaz de impedir o sorriso do craque, a comemoração do gênio, a explosão da torcida. Uma verdadeira pintura que, na opinião desse cronista que aqui escreve, significa o gol mais bonito dos últimos tempos. Digno de placa.

Ontem, em Porto Alegre, o improvável aconteceu. Se eu jamais consegui, André – que também é Balada, segundo alguns - chegou ao êxito absoluto: foi lançado pelo alto, de costas, matou no peito e, com a marcação implacável do zagueiro, ergueu a perna esquerda e bateu com a direita. De bicicleta. Júlio César, goleiro do Fluminense, apenas acompanhou a trajetória da bola e viu a rede balançar, sem nada poder fazer. Ergueu o braço pedindo impedimento. E convenceu: o árbitro anulou. Apagou o belo lance de André pelo Campeonato Brasileiro. E teve sua razão.

Estava impedido, de fato. André recebeu na banheira. No momento do passe, estava adiantado. Tecnicamente a decisão foi perfeita. Mas plasticamente, para a história do futebol e de André, para os programas futuros que poderiam reprisar e para os gremistas de todo Brasil, meus caros, foi um crime. Mataram o golaço em meio a jogos com lances tão iguais e insignificantes. E sem drible. E sem ginga. E sem sorriso. Jogadas monótonas, previsíveis, com poucos lapsos geniais. O futebol brasileiro anda amargo, sério e ranzinza. 

E viu, dando razão ao apito, o assassinato do gol.

    Notícias Recomendadas

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.