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O goleiro Karius, do Liverpool, falhou em dois gols na final da Liga dos Campeões. O garoto Mantuan, do Corinthians, errou no domingo. Os dois choraram e foram duramente criticados

Não sei nada sobre a história de Karius. Sei, no máximo, que o goleiro tem apenas 24 anos e é alemão. Mas deve ter sido o pior dia da vida dele. O último sábado foi um verdadeiro pesadelo. Duas falhas apagaram as esperanças de um título europeu. A primeira ao entregar a bola nos pés do adversário. A segunda ao aceitar um chute de longe de Bale, o legítimo gol 'mão de alface'. Choveram críticas, piadas e ataques. Ele desabou. Chorou demais quando acabou a decisão. Pediu desculpas aos torcedores do Liverpool. Não é fácil ser responsabilizado.

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Karius após a derrota do Liverpool para o Real Madrid
Reprodução/Instagram
Karius após a derrota do Liverpool para o Real Madrid

O futebol traz a imagem do herói e do vilão. O salvador,  o ídolo, o acima do bem e do mal. O mercenário, o grosso e o perna de pau. Jogadores são personagens. Há Ronaldo, ressurgindo das cinzas, dando o título ao Brasil em 2002. E há Felipe Melo sendo expulso oito anos depois. Há Zidane, em 1998, cabeceando duas vezes em direção ao gol brasileiro. E há o mesmo Zidane dando cabeçada em adversário e sendo expulso no último jogo da carreira. Messi ganhando prêmio de melhor do mundo e títulos pelo Barcelona. Mas o mesmo Messi nunca levantou um troféu pela Argentina. O julgamento é implacável, como foi com Karius .

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Julio Cesar, ex-goleiro do Flamengo
flamengo
Julio Cesar, ex-goleiro do Flamengo

Muitas peças do sete a um têm nova chance. Marcelo cansou de ganhar pelo Real Madrid. E estava lá no Mineirão: assustado, impaciente, acuado, desesperado. Marcelo é o melhor lateral do mundo, mas é gente. Sente quando toma pancada, chora quando não tem o que fazer, recomeça quando necessário. Ele seguiu. Neymar também. Júlio César, no entanto, não. Ficou fadado quem outro dia foi considerado como o principal goleiro do planeta. Não suportou e foi nítido. É o lado cruel do futebol. Que pode ser algo perto da santificação e criminalização para um torcedor. Os exageros vivem dentro da bola.

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Karius falhou no sábado. É um menino em comparação com outros goleiros. O goleiro geralmente tem mais experiência, mais rodagem, tempo de uso. Segurança, para ser mais exato. Mantuan, lateral do Corinthians, errou no domingo. Deu o gol ao Internacional, o que garantiu a vitória colorada no Beira-Rio. Karius certamente não dormiu na noite de sábado para domingo. Mantuan provavelmente vai ter a mesma dificuldade. Porque são pessoas comuns, de carne e osso, sujeitas a pancadas e dores; a golpes e afundamentos; a finais e recomeços. São humanos, simplesmente. E é óbvio. Só não é óbvio para o futebol. Que cria personagens para exaltar e humilhar; glorificar e desqualificar; iniciar e encerrar. Sobrepor a condição de mortal. O jogo é apaixonante, mas impiedoso. Frio.

Karius é a prova de que a lágrima do derrotado pode valer tanto quanto o suor do vencedor. Ou - pelo menos - ser liberada pela mesma espécie que cria ganhadores e perdedores: gente.