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A crônica de hoje vai de um gol da terceira divisão do futebol gaúcho até uma questão intrigante da língua portuguesa. Afinal, e o acento? Como fica?

Vejo que um João - anônimo - marcou o gol de empate do Rio Grande contra o Novorizonte, pela terceira divisão do Campeonato Gaúcho. Quero, aliás, que meu filho se chame João. Se eu tiver um menino, claro. E, evidentemente, se a patroa permitir. É curto, bonito e simples. Dá um ar de humildade até. Alheio a qualquer tipo de moda: João é João desde sempre e desde sempre está na boca do povo, nos cartórios e nas assinaturas. Ontem, porém, conheci dois novos amigos. A Lívia e, veja só, o João. O João alertou para um problema sério, que pode mudar o rumo do meu futuro herdeiro: "vão chamar ele de Joãozinho".

Chamar de Joãozinho, segundo o João, experiente no assunto, é um negócio meio estranho. É que nem me chamar de Guilherminho, sabe? Não é legal. Não houve nesse mundo quem um dia me chamou de Guilherminho. E que seja assim para todo sempre. No máximo fui Guizinho, que também é feio pacas. Fui Guilhermão, mas não combina muito com meu um metro e setenta de altura. Vamos esquecer, porém, minha miudeza e falta de tamanho. O que está em pauta é o nome João. Sugeri, diante de tudo, outro apelido: pode ser Joãozão. 

Mas aí está o "x" da questão, o esconderijo do pega-pega, a chave certa da porta, a pegadinha da palavra cruzada: como se escreve Joãozão? Eis a grande questão moderna da humanidade. O acento é só no último "a"? Ou vai nos dois? Como o popular tiozinho se encaixa no nome aumentativo do meu possível primeiro filho? Na internet, o tiozinho seria deserdado. Ficaria Joaozaum, com 'aum' no final, geralmente escrito pelos adolescentes. "Oiiiii, JOaoZaUuUMm. Fmz?", diriam os amiguinhos. Ou os gripados e os com nariz entupido, também, na vida real: JoãozAUM. Tem o hífen como outra opção: João-zão. Não, né? Pior ainda.

Outras palavras também vivem esse dilema doloroso. O anão, por exemplo. Ficaria anaozão? Anãozão? Eis uma nova polêmica. Mas essa discussão é irrelevante, na verdade. Não existe nenhum anão tamanho família, tipo um Oscar, do basquete, ou um Giba, do vôlei. Nem da estatura do Cássio, goleiro do Corinthians. Anão grande que justificasse tal apelido. Anãozinho também é sacanagem chamar. Anão é anão e ponto final. 

Feijão, Afeganistão, impressão, anfitrião, alcatrão, paixão e outras muitas palavras vivem esse dilema: já são, por si só, imponentes desde que nasceram, exageradas desde que foram ditas pela primeira vez, fadadas aos curiosos como eu. São grandes por natureza: têm o "ão" para valorizá-las. Tipo João. Já são fortes, valentes e destemidas. Pra que ainda querer aumentar, afinal? 

Sou intrometido e curioso, admito, diante dessas dúvidas malucas. De entrão, no máximo, pode me chamar. Mas entraozão já é demais.

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