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Crônica de hoje questiona o excesso de marcadores no futebol atual e a quase morte do drible. Keno foi um dos destaques da vitória do Palmeiras no sábado. No domingo, o Tricolor derrotou o Corinthians

São Paulo e Corinthians entraram em campo, ontem, com surpresas nas equipes. Em busca de precaução, os dois técnicos escalaram muitos volantes no Morumbi. Consequência: futebol amarrado, sem criatividade ou encanto. Poucos dribles e muitos passes de lado. Arroz com feijão sem tempero, para somente matar a fome. Apenas um isolado gol no clássico. Nada que não seja comum no pobre futebol brasileiro. Arriscar parece significar garantir no confuso dicionário nacional.

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Keno foge do comum com seus dribles
Reprodução
Keno foge do comum com seus dribles

Um dia antes, no Pacaembu, o Palmeiras derrotou o Santos com um jogador novamente quebrando o paradigma. Keno, o sem medo, arriscou em fintas desconsertantes, de esquerda ou direita. Sambou e brincou. Keno , o garoto já quase veterano, ia e vinha demonstrando a coragem dos dribladores antigos. Dotado de talento, ele é pouco reconhecido no país e amarga o banco de reservas alviverde em muitas oportunidades.

Keno destruiu a marcação santista. Arrancando, gingando, passando o pé lá e cá. Keno, que não é craque, sobra porque não se apavora diante de brucutus, açougueiros e ameaçadores do drible. E o mais contraditório é que Keno, sujeito sério, não sorri. Repare: tem sempre a mesma cara. É o mesmo quando avacalha o adversário e quando perde a bola. Não esboça reação. Eis o principal problema do atacante nada midiático: se os outros gargalham vendo seus dribles, ele sequer ri de canto de boca. Jamais haverá uma criança dizendo ser ou querendo ser Keno.

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Lucas Lima, jogador de passe, é mais reconhecido do que o ponta. Tem, claro, características diferentes: é do passe, da assistência, do último toque. E quase nunca dribla. Afinal, no Brasil, driblar virou uma espécie de crime lesa-pátria para entendedores e estudiosos das linhas de quatro. Driblar é desrespeito para alguns idiotas da obviedade. Todo e qualquer medíocre detesta o drible.

E Keno, espécie de sabonete humano, ainda ousa driblar. Escorrega por todos os cantos do campo. Parece estar sempre liso. Quase não há quem segure o moleque pelas mãos. Escapa, expõe, humilha e brinca. É puro e sem pudor. O calado Keno fala driblando. E poucos hoje gostam de escutar e entender. Mas há, tenho convicção, algum remorso na cabeça dos escaladores defensivos. Estão matando a finta. Que Deus não perdoe os assassinos do drible.

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Certo é que, em terra de volantes, o franzino Keno - se não é rei - é sabonete. O drible respira.

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