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Vítima de endocardite bacteriana, o ala/armador americano Laurence Scott Young morreu 17 dias depois de internação

Alexandre Vidal/divulgação
Laurence Scott Young morreu de infecção generalizada 17 dias depois de internação
Um problema bucal, como uma gengivite ou uma cárie, e dias depois a morte. O conceito causa e conseqüência parece não encaixar e torna o choque da perda é ainda maior. Aquilo que aparentemente não tem explicação passa a não fazer sentido nenhum. Foi o que aconteceu com o jogador americano Laurence Scott Young , de 30 anos, que atuava pelo Internacional/Santos, time da primeira divisão do Campeonato Paulista de basquete. Entretanto, é exatamente na boca que nascem a maioria dos casos de endocardite bacteriana, como o que vitimou o ala/armador.

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Na opinião de médicos cardiologistas ouvidos pelo iG , a doença é grave, tem diagnóstico difícil e necessita de tratamento intensivo à base de antibióticos ou mesmo intervenção cirúrgica. Ela acomete pessoas com predisposição à mesma, aquelas que têm problemas nas válvulas do coração. Isso, somado a uma boa porta de entrada para bactérias, é expor o organismo a um risco nada desprezível. O acompanhamento médico é fundamental, tanto para detecção quanto para o tratamento. Infelizmente, o acompanhamento médico do Internacional/Santos se resumia aos jogos .

“É uma coisa muito séria”, resume em tom grave Otávio Gebara, diretor de cardiologia do Hospital Santa Paula. Young jogou sua última partida no dia 15 de outubro, cinco dias depois, dava entrada na Santa Casa de Santos. Outros 17 dias e o jogador estava morto. “É uma infecção por bactéria que acomete as válvulas do coração. A bactéria faz uma espécie de ninho ali e vai destruindo a válvula e se espalhando pelo corpo. É como um chuveiro de bactéria pelo corpo todo”, resume o médico.

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A exemplo do que acontece na maioria dos casos da doença, Young tinha na boca uma porta de entrada para a infecção bacteriana. Até agora não foi inteiramente esclarecido, mas o jogador tinha um problema dentário. Quem se assustou com o cronograma trágico do atleta, deve prestar muita atenção ao que dizem os médicos. Embora no caso de Young o problema bucal tenha desencadeado, muitas ocorrências de endocardite bacteriana começam depois de tratamentos dentários.

De acordo com Ibraim Masciarelli, cardiologista do Instituto Dante Pazzanese, antes de tratamentos dentários, alguns pacientes fazem até antibioticoterapia profilática, ou seja, uma aplicação preventiva de antibióticos para evitar infecções posteriores. Isso porque tratamentos de longa duração, como os de canal, por exemplo, expõem o organismo à entrada de bactérias. Da mesma forma, lesões bucais têm o mesmo potencial. Deixar de tratá-las é manter uma porta aberta.

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Masciarelli explica que a boca é o principal foco desse tipo de problema por causa de suas condições peculiares. “Tem uma enorme quantidade de agentes que vivem na boca. E esses agentes devem mesmo estar ali. Convivemos com eles da forma como estão. O problema é quando um deles entra no organismo”, explica o médico. Gebara acrescenta que já teve pacientes que sofreram da doença por causa de piercings, não só aqueles colocados na língua, mas em locais de pouca higiene. O adorno acaba por gerar uma lesão que funciona como porta de entrada.

Fatores de risco

Não há razão para histeria em função de qualquer afta. Masciarelli afirma que para ter endocardite bacteriana é preciso haver um defeito na válvula do coração. Sem esse defeito, a bactéria terá pouca possibilidade de estacionar na válvula e desenvolver uma colônia nela em função da velocidade do fluxo sanguineo, que diminui em casos de anormalidade. “É muito difícil ter algo desse tipo sem algum tipo de defeito dessa natureza”, diz o cardiologista.

A necessidade de um acompanhamento médico é determinante para o diagnóstico e tratamento da doença. “Não é algo que se diagnostique só com avaliação clínica. São necessários exames. Em alguns casos é preciso fazer ecocardiograma, cultura de sangue, enfim, é uma série de exames. Consulta de pronto socorro não detecta de jeito nenhum”, garante Gebara.

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Além do diagnóstico ser complexo, os sintomas não são evidentes. Geralmente, febre (cuja intensidade depende do tipo de bactéria que contamina o organismo), falta de ar, tosse e perda de peso, entre outros. “É um quadro de difícil diagnóstico. Pode ser uma febre básica, parece uma gripe”, ilustra Gebara que oferece uma dica: se você tiver esses sintomas cerca de 15 dias depois de um tratamento dentário, não é má ideia checar a natureza dos sintomas de forma cuidadosa. “O paciente tende a não valorizar, e isso pode significar um atraso fatal”, acrescenta Masciarelli.

Tratamento difícil

A luta de 17 dias de Young é parte de uma batalha que vai muito além. Infelizmente infrutífero para o atleta, o tratamento chega a durar seis semanas, período em que o paciente é submetido a altas doses de antibiótico. Masciarelli explica que isso acontece devido à estrutura única das válvulas. O combate à endocardite bacteriana é complicado por uma ironia: as bactérias se instalam num lugar em que o próprio corpo tem dificuldade de chegar.

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“O antibiótico tem dificuldade de chegar lá pela ausência de vasos sanguineos. Aquela é uma região que se direciona ao fluxo do sangue, por isso é necessário grande quantidade de antibiótico e internações longas. A válvula é um santuário para a bactéria”, descreve Masciarelli. O médico recomenda que todo atleta seja frequentemente avaliado por especialistas em medicina esportiva. Segundo ele, muitos dos defeitos do coração são pequenos e quase imperceptíveis e alguns não são impeditivos para a prática esportiva. Porém, suficientes para que doenças como a endocardite bacteriana se desenvolva.

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