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Kristaps Porzingis, 20 anos e 2,21m de altura, conquista Nova York em 2 meses de temporada e arranca elogios de Barkley e Nowitzki. "É melhor do que eu com essa idade", diz o alemão

Kristaps Porzingis, a sensação de Nova York (e da Letônia)
Getty Images
Kristaps Porzingis, a sensação de Nova York (e da Letônia)


Quando o comissário da NBA, Adam Silver, anunciou em Brooklyn o nome de Kristaps Porzingis como o calouro escolhido pelo New York Knicks, o garoto letão, de 2,21m e 20 anos, era só sorrisos. Levantou-se, abraçou seus familiares e exibiu seu terno chamativo. O que acontecia ao seu redor no Barcklays Center, porém, não era nada empolgante. Os torcedores nova-iorquinos o vaiaram de modo inclemente, inconformados com a escolha de alguém de quem eles provavelmente nunca haviam falado. Durante a transmissão do chamado "Draft", a "ESPN" focalizou um garoto que chorava histericamente, colocando o polegar para baixo (e tirando uma selfie):

Isso foi no dia 25 de junho. Seis meses depois, com apenas 25 jogos como profissional no currículo, a percepção em torno de Porzingis em Manhattan e, na verdade, em toda a liga não poderia ser mais diferente. Entre as oito camisas mais vendidas da competição, sete são variações do atual queridinho da América, Stephen Curry, o craque do Golden State Warriors. A única intrusa? A camisa 6 do letão. "Já ouvi, inclusive, que o garoto que chorou já também comprou uma", diz o pivô. 

Nesses 25 jogos, Porzingis conseguiu médias de 13,6 pontos, 8,4 rebotes, 1,8 toco, em pouco mais de 27 minutos. Ótimos números para um novato que veio do basquete espanhol para os Estados Unidos. Mas a febre em torno jogador vai além dos números. Muito mais do que sua respeitável produção, o que faz o agora fanático torcedor dos Knicks salivar é o potencial que ele mostra em uma combinação rara de tamanho, agilidade e técnica. Chamando a atenção em lances como estes:

Depois de tantas jogadas plásticas, quem iria vaiar? "Quando encontrei Kevin Garnett pela primeira vez, ele me deu um grande conselho: 'Use estas vaias como motivação. Deixe que elas o motivem a cada dia em que for para a quadra'. É isso o que estou tentando fazer. Não me concentro nisso. Não é o único fator que me motiva, mas ainda está dentro de mim. Só quero provar para aqueles torcedores que eles estavam errados. Quero provar que sou um bom jogador."

Porzingis e o comissário Silver. Enquanto o ginásio vaiava
Getty Images
Porzingis e o comissário Silver. Enquanto o ginásio vaiava





Na Letônia, fato é que, a partir do momento em que foi escolhido pelos Knicks, virou rap:

Força mental
O jovem letão está provando. A cada cidade que visita pelos Knicks, a cada cravada ou chute de longa distância, a lista de elogios só cresce. Até mesmo uma figura como Charles Barkley, o ex-jogador, craque e comentarista mais popular da NBA, se rendeu. "Esse garoto é incrível", afirmou ao "Newsday". "Ele obviamente me surpreendeu. E o que mais gosto dele, e que acho não dão o crédito devido, é sua força mental. O modo como ele foi vaiado na noite do Draft pode realmente abalar  um garoto. Isso me impressiona."

Quando enfrentou o Dallas Mavericks na semana passada, no Madison Square Garden, a meca do basquete, Porzingis se deparou com um de seus ídolos e um jogador com o qual vem sendo constantemente comparado: Dirk Nowitzki, uma lenda viva. O que o alemão pensa disso? "Acho que é mais do que o justo. Ele provavelmente está à frente na curva. Ele é muito melhor do que eu era quando tinha 20 anos".

Quem está feliz da vida com toda essa repercussão é Phil Jackson, o técnico mais vitorioso da história da NBA, com 11 títulos por Bulls e Lakers, e que agora faz as vezes de presidente dos Knicks. "Há um elemento mágico para este jovem que ganhou a admiração da torcida aqui em Nova York e de pessoas ao redor do país que seguem os Knicks."

Nowitzki se diverte com o que Porzingis vem fazendo na NBA
Getty Images
Nowitzki se diverte com o que Porzingis vem fazendo na NBA


Só não esperem que ele esteja surpreso com o resultado. "Sabia do que era capaz. Muitas pessoas não estavam esperando muito de mim logo de cara, então talvez estejam surpresos. Mas sabia o que poderia fazer. Acho que eles me pensavam como esse europeu branco, magrelo, que teria medo de jogar. Mas eu não sou assim. Sempre tento me manter agressivo, usar meus pontos fortes e trabalhar nas minhas fraquezas para melhorar. Sou assim."

Um pouco de sorte?
Mas e se, depois de tantos elogios, no meio dessa história tão bacana, você soubesse que, dependendo do que os Timberwolves, os Lakers e os Sixers fizessem no Draft como os três primeiros na ordem de seleção, Porzingis talvez estivesse encantando outra cidade, de menos impacto. Talvez os Knicks estivessem sendo vaiados por tê-lo deixado passar.

São 2,21m de Kristaps Porzingis
Getty Images
São 2,21m de Kristaps Porzingis

A prioridade de Phil Jackson no dia de recrutamento de calouros não era o letão, ainda que um de seus principais conselheiros, Clarence Gaines Jr, estivesse convencido de que ele era o jogador certo. Se os Sixers tivessem deixado o pivô Jahlil Okafor passar, a mídia nova-iorquina estava convencida de que ele seria a escolha nova-iorquina.

E aí Porzingis talvez tivesse de se virar na Filadélfia, num dos piores times da história, sem os conselhos de um Jackson. "O Phil está sempre disponível, para qualquer coisa que eu precise. Ele está sempre me falando dos pequenos detalhes em quadra. É um estre, então não podia pedir um mentor melhor", afirma. Ou poderia ficar sem a proteção indireta de Carmelo Anthony, o superastro que ainda carrega a maior pressão pelos resultados dos Knicks. "Tenho sorte de ter Melo ao meu lado. Isso alivia as expectativas em torno do meu jogo, sendo uma escolha top 5."

Por enquanto, Anthony, que um dia se viu enciumado pela atenção que Jeremy Lin recebeu da mídia nova-iorquina durante algumas semanas mágicas de basquete em 2012, se mostra contente com o papel de mentor e animado com o potencial de seu jovem companheiro. Se o seu progresso for rápido, pode ajudar a levar o time de volta aos playoffs."Posso usar minha experência para ajudá-lo a se aclimatar, e ele tem ido muito bem nisso. Mas não assumo crédito nenhum por isso. Ele está se virando muito bem por conta própria, aprendendo e sacando o jogo. Dá para ver que ele melhora a cada jogo", disse o ala.

Os próximos passos
A despeito de tanto otimismo, a diretoria e os veteranos dos Knicks sabem que não podem perder de vista que Porzingis é apenas um novato e que, em meia temporada de NBA, ele praticamente já terá ficado mais tempo em quadra do que em uma campanha inteira na Espanha.

Nos últimos jogos, depois de viagem pela Conferência Oeste, o próprio ala-pivô admitiu um pouco de fadiga. Em Portland, no sábado passado, ele ficou zerado em 19 minutos de partida, e ainda assim o time venceu. "Ele não vai ser o grande Kristaps todo dia. É normal que num jogou ou outro, ele caia. E que em outros ele curta esse processo. Acontece", afirmou Anthony.

Pensando nisso, por mais que a tentação seja aumentar as responsabilidades de seu talentoso ala-pivô, o técnico Derek Fisher ainda procura limitar suas atribuições em quadra. E também faz questão de refrear qualquer comparação com Nowitzki ou outros atletas já aclamados. "Como colocar lado a lado alguém que jogou só dois minutos com alguém que está jogando há 17, 18 anos?", pergunta, retoricamente.

O pivô Robin Lovez e os Knicks mostram afeto pelo calouro
Getty Images
O pivô Robin Lovez e os Knicks mostram afeto pelo calouro


Outro ponto importante é que, à medida que faz sucesso, Porzingis também vai enfrentar maior resistência dos adversários. Como explica Dwyane Wade, astro do Miami Heat, outro fã: "Ele está causando impacto na liga. Talvez ningém estivesse reparando nele antes, mas ele não será ignorado pelos sistemas defensivos por muito tempo", disse.

Ainda assim, Phil Jackson e os Knicks mal conseguem esconder a satisfação. A badalação em torno do rapaz e a oposição dos melhores do mundo são desafios para ele superar. Mas o presidente confia que não se trata de 'fogo de palha'. "Vejo este cara, e observo que ele tem a atitude certa, que se comporta bem com isso", disse. "Fico apenas feliz que a personalidade, a motivação e a dedicação se equivalem ao seu talento."

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