Há questionamentos por parte de algumas pessoas quanto a Fórmula 1: os pilotos podem ser considerados atletas? E a resposta é sim, eles são atletas de elite.
Em entrevista exclusiva ao iG Esportes,
o Dr. Dino Altmann,
especialista consagrado em medicina no automobilismo e ex-presidente da comissão médica da Federação Internacional de Atuomobilismo (FIA), explicou tecnicamente o porquê disso.
Médico responsável pelo GP de São Paulo desde 2001, Dino Altmann é pioneiro da medicina no automobilismo brasileiro
"As exigências físicas para pilotar um carro de F1 são grandes e exigem muito treinamento físico aeróbico e anaeróbico. O treinamento aeróbico é o que vai permitir maior oxigenação dos tecidos através da elevação do VO2, que permite manter a capacidade cognitiva numa prova de dura entre 1h30 e 2h", iniciou.
"Imagina você exausto com o exercício, isso vai diminuir sua capacidade de concentração. Também é importante para a homeostase, ou seja, manutenção das funções fisiológicas na desidratação ou mesmo um sangramento em caso de acidente. O exercício anaeróbico, vai ajudar na performance aeróbica e também na sua capacidade de equilíbrio e reação oposta a forças que atuam sobre seu corpo", explicou.
Força e musculatura
Durante frenagens os pilotos chegam a sentir até cinco vezes a gravidade, e assim, precisam de um bom fortalecimento muscular para manter o equilíbrio e ainda executar ações como focado guiando o carro e frear.
"Além da reação muscular para manter seu corpo em equilíbrio, alterações circulatórias podem ocorrer. Importante ressaltar que a musculatura do tronco está sempre estressada para manter a posição, mesmo com o cinto de segurança bem apertado. A pressão que exercem no pedal de freio chega a 100kg, o que exige muita força nas pernas".
Dentre algumas caracetrísticas marcantes dos pilotos estão os pescoços musculosos. Altmann explicou o motivo pelo qual esta é uma das regiões do corpo mais exigidas na condução de um F1, e destacou a importância do preparo.
"Como o pescoço está mais “solto” dentro do cockpit, as forças laterais exigem maior reação da musculatura e a falta de preparo, leva a dor e perda de performance uma vez que precisam apoiar o capacete na proteção lateral da cabeça. Este apoio tira um pouco da percepção de espaço, por interferência com labirinto".
Os astros da F1 treinam força G com foco em pescoço, core, ombros e braços. Para isso, utilizam capacetes com peso, elásticos de resistência simuladores e treino de core. Fortalecidos, eles garantem que o corpo aguentará pressões sem perder visão ou controle.
Preparação dos pilotos
Em documento publicado pela Red Bull, em 2024, eles explicam que os pilotos de Fórmula 1 são atletas de elite, que precisam de um planejamento de treinos muito específico para disputar as corridas, aguentando até duas horas dentro do carro, com esforços extremos.
"Meu pai sempre dizia: você nunca pode estar cansado no carro, porque assim você não é forte o suficiente. Não gosto de treinar só pelos exercícios, mas sei o que preciso fazer para estar em forma. Não é agradável, mas eu simplesmente faço isso", revelou Max Verstappen na época.
Como os pilotos não podem simplesmente treinar e correr o risco de ficar pesado demais para o carro por conta dos músculos, eles contam com uma programação de treinos intensa, com ajuda de um treinador de performance.
"Muita massa muscular precisa ser oxigenada durante o exercício e a capacidade de oxigenação dos tecidos, medida pela VO2 é inversamente proporcional ao peso (ml/kg/min). Ou seja, se você abaixa o peso, melhora a VO2", finalizou Dr. Dino.
Alinhando um conjunto harmonioso, leve e aerodinâmico, piloto e carro precisam estar em sintonia, por isso os atletas não ganham muita massa muscular.