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Adilson Carvalho de Almeida mantém a torcida e seu acervo até hoje e conta como virou amigo de seu maior ídolo ao lembrar da morte do piloto brasileiro, há exatos 20 anos

Adilson Carvalho de Almeida, da Torcida Ayrton Senna, na exposição de seu acervo no Tribunal de Justiça de São Paulo
Thiago Rocha/iG
Adilson Carvalho de Almeida, da Torcida Ayrton Senna, na exposição de seu acervo no Tribunal de Justiça de São Paulo

A morte, seja natural ou por uma fatalidade, costuma fazer com que as pessoas tentem mensurar a dor de amigos e familiares pela perda. Quando se trata de alguém famoso, um ídolo, esse sentimento se intensifica. Mas como é para um fã ver seu ídolo ter a vida interrompida? Adilson Carvalho de Almeida conta sua versão sobre a situação: "Não é muito diferente de perder um parente, é a mesma de perder um pai ou uma mãe. É um sentimento dos piores."

Almeida sentiu essa dor em 1º de maio de 1994, há exatos 20 anos, quando Ayrton Senna sofreu um acidente fatal no GP de San Marino da F1, em Ímola. Na hora da batida, ele assistia à corrida ao lado de outros fãs do piloto brasileiro na sede da TAS, em São Paulo. A primeira reação foi lamentar o abandono da prova, sem a consciência de que a situação era crítica. "O ídolo é aquele que você tem como exemplo de vida. Com o Ayrton foi um choque para a gente principalmente por ter acontecido num acidente que a gente estava vendo. Naquele mesmo dia em que ele faleceu eu prometi que, enquanto fosse vivo, iria continuaria com os eventos que a gente já fazia para mostrar a carreira dele a outras pessoas e outras gerações que não o viram correndo."

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A TAS, Torcida Ayrton Senna, virou o fã-clube oficial do piloto. Em 1988, Almeida decidiu fundá-la à distância com amigos que moravam em Brasília. Mas a proximidade com o ídolo, que virou amizade, fez com que a sede do grupo migrasse para São Paulo. Mais de 18 mil pessoas se cadastraram no primeiro ano - o ápice foram 25 mil. O advogado recebia as pessoas em sua residência, na Vila Maria, Zona Norte da cidade. Foi no bairro que conheceu Ayrton, quando ele ainda estava em seu segundo ano na Fórmula 1: "Foi em 1985, na porta do antigo escritório dele, que acabou virando a sede da TAS anos depois. Ele estava dando autógrafos para fãs. Eu nem sabia que ali era o escritório dele, por coincidência era perto da minha casa. Mas foi em 1988 que nos estreitamos. Além da relação de fã, nasceu uma amizade, o Ayrton me tinha como um amigo", afirmou.

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Sem espaço para atender a demanda de fãs em sua casa, Almeida conseguiu, em 1989, a cessão da danceteria Zoom, em Santana, para as reuniões da TAS - segundo ele, mais de três mil pessoas frequentavam o local em dia de corrida. Anos depois, a casa onde viu Senna pela primeira vez foi alugada e virou a sede da torcida. 

A amizade com Ayrton e seus pais, Milton e Neide, ajudaram a TAS a angariar objetos pessoais e fotografias, sejam da intimidade ou nas pistas, que transformaram a sede da torcida numa espécie de santuário para quem ia ver as corridas nas manhãs ou madrugadas de domingo. Boa parte desse acervo está exposta até dia 14 de maio no Tribunal de Justiça de São Paulo, na Praça da Sé, com entrada gratuita.

Veja algumas fotos da exposição sobre Ayrton Senna em São Paulo:

Um ritual comum em dia de vitória de Ayrton era o grupo reunido na TAS sair em carreata pela ruas da Zona Norte para festejar. Algumas iam até o bairro do Tremembé, onde a família Senna morava. Em 1991, ano em que o piloto se sagrou tricampeão de Fórmula 1, a torcida recebeu seu ídolo no aeroporto e desfilou por grandes avenidas de São Paulo para comemorar o feito. 

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A TAS se mantém em atividade mesmo após 20 anos da morte do piloto. Os objetos que pertencem à torcida ficam em exposição permanente num imóvel cedido pela família de Senna, em Santana. Qualquer evento que envolva a memória do piloto tem autorização automática do pai. "É uma relação de confiança", explicou Adilson Almeida. Uma página no Facebook virou canal de comunicação com fãs de outros países, especialmente do Japão, onde Ayrton é tão idolatrado quanto no Brasil.

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Duas décadas se passaram. E como o fã assimila a perda depois de tanto tempo? "Sem dúvida ele é um herói nacional. Vinte anos se passaram e não existe uma mácula, nada negativo à imagem dele, à vida dele. É como uma unanimidade. É uma pessoa muito querida no Brasil e é um imortal", resumiu Almeida. Haverá alguém do mesmo nível de Ayrton Senna? "Não acredito. Tanto que em 20 anos não houve até agora. Falam do (alemão Michael) Schumacher, mas ele teve uma vida fácil na Fórmula 1, sem um competidor à altura."

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