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Atleta que assumiu ser gay aproveita os momentos de fama e diz ao iG que, agora, é conhecido em qualquer esquina

Michael, central do Vôlei Futuro, assumiu ser gay e, agora, aproveita a fama e o carinho da torcida
Divulgação
Michael, central do Vôlei Futuro, assumiu ser gay e, agora, aproveita a fama e o carinho da torcida
Michael, central do Vôlei Futuro, ganhou as manchetes após sofrer ofensas da torcida rival e assumir que era homossexual. Agora, depois levar o terceiro lugar na Superliga, o atleta aproveita as férias e, enquanto programa uma viagem para Fortaleza com os amigos, recebeu o iG para uma entrevista exclusiva. Michael afirma que não se incomoda por ter ficado conhecido como o jogador gay, curte a fama e o carinho dos novos fãs.

Michael também disse que entendeu quem era aos 13 anos e lembrou como foi contar sobre sua orientação sexual para a família. O jogador ainda afirma que nunca namorou e que sonha com a seleção brasileira. Veja a entrevista

iG: Você joga vôlei há 12 anos, mas ficou conhecido agora, depois das ofensas e homenagens nos jogos da semifinal da Superliga entre Vôlei Futuro e Sada/Cruzeiro. Isso te incomoda?
Michael: Fiquei assustado ao ver nas manchetes: “Ele é gay!”. Não era todo mundo que sabia o meu nome, só quem acompanha vôlei mesmo, e, de repente, eu era conhecido como “o gay”. Mas não me incomoda porque pelo menos, agora as pessoas podem acompanhar o meu trabalho. O bom disso tudo é que o jogo depois da confusão foi na TV aberta e todo mundo viu quem era o Michael. Se não poderia ficar aquela coisa de “quem é aquele cara que é gay e que ficou falando tanto?”.

iG: Em algum momento você se arrependeu por ter se exposto e ter assumido a sua orientação sexual?
Michael: Não me arrependi, mas sabia que para falar sobre as ofensas eu teria que me assumir. E você não tem ideia do carinho que eu recebi depois. Se eu for à esquina todo mundo me conhece e me trata muito bem. Por isso eu me sinto à vontade de falar agora. Acho que muita gente se viu na minha história de alguma maneira.

iG: Você sabe quando teve certeza de que era homossexual?
Michael: Eu sempre tive um “jeitinho”, mas nunca sofri nada em relação a isso. Nunca fui pressionado ou reprimido. Sabia que era diferente no começo, mas não sabia o que era. E meus amigos eram todos como eu. Com uns 13 anos eu soube quem eu era. Eu olhava para menina e não achava bonito. Aí você começa a ter consciência de algumas coisas. Você só andava com meninas, mas não namorava com elas, não jogava futebol, só queimada... Mas eu nunca precisei chegar e falar para alguém: “olha, eu sou gay”. Só agora.

Eu gosto muito da Lady Gaga, mas o Rick Martin, para falar a verdade, eu só acho ele bonito.

iG: E a sua família? Como foi ter que contar para eles? Como eles reagiram?
Michael: Eu não precisei contar, assim, abertamente. Eu estava com meus amigos e tinha uma festa GLS na cidade. Eles chegaram à minha casa e falaram para a minha mãe que era eu quem queria ir a tal festa. Ela sabia qual tipo de balada seria e veio me perguntar se eu queria ir mesmo. Disse que sim, e ela deixou e me deu uma lição de moral, falando que eu teria que tomar muito cuidado, sempre usar camisinha e essas coisas. Acho que ela ficou brava na hora, mas, no final, ela me levou à festa.

iG: Você já namorou meninas?
Michael: Nunca namorei, nenhum dos dois. Mas eu também nunca quis, nem menino e nem menina. Eu já tive umas ficadas, mas relacionamento sério, ainda não. Eu não me vejo até hoje compromissado com alguém. A paixão ainda não pegou.

iG: E como o vôlei apareceu na sua vida? Você praticou outros esportes antes?
Michael: Sim e, para falar a verdade, fui um pouco "obrigado" para o vôlei. Com nove anos, eu jogava junto com o meu primo, mas os meninos implicavam comigo, eu não sei o por quê. E parei de jogar. Depois, todos os meus amigos começaram a fazer ginástica (artística), e eu fui no embalo, mas eu era muito alto. Eu até melhorei, competi nos Jogos Regionais. Aí fizeram um ginásio e tinha escolhinha de vôlei e meus amigos todos foram treinar lá. Eu não queria ir de jeito nenhum, mas como não queria ficar sozinho, fui obrigado. Aí eu tinha de 12 para 13 anos e comecei a gostar.

Michael começou a carreira profissional no Banespa e ficou 11 anos no time
Divulgação/CBV
Michael começou a carreira profissional no Banespa e ficou 11 anos no time
iG: Pouco depois você saiu da sua cidade, Birigui, e veio para São Paulo para fazer teste no Banespa. Como foi mudar para a cidade grande?
Michael: Com 15 anos eu tinha feito uma peneira em Sorocaba e não passei. Depois, tentei no Banespa. Na época era uma semana inteira de testes. E eram meninos de 81, 82 e 83 e tinha uma galera que eu nem acreditei. Era uma fila enorme eu era o mais novinho. Deu um desespero, mas já que estava lá, tinha que fazer os testes. Fiz e passei. Todo mundo que foi aprovado foi estudar em escolas particulares. Foram três para uma, quatro para outra e fui sozinha para a minha. Na primeira semana eu queria morrer. Depois eu consegui fazer amizade e tudo melhorou.

iG: Agora, depois de ter construído a carreira em quadra, você diz que nunca precisou dar explicações sobre quem você era porque todos percebiam. Mas como foi no começo, depois da peneira? Viveu algum preconceito nesses anos de voleibol?
Michael: Na minha cabeça, eu sempre achava que todo mundo sabia que eu era (gay). Por isso eu achava que tinha que malhar mais e treinar mais para não correr o risco de não ter espaço. Era por medo de um preconceito, mas isso nunca aconteceu. Só que quando me xingavam quando eu estava jogando, era a morte. Eu chorava e ficava super mal, mesmo sendo pouca gente. Mas isso foi até os 18 anos. Depois, eu comecei a entender e ver que eu era bem tratado dentro do vôlei. Com isso, passei a não ligar para as pessoas de fora.

iG: Mas na primeira partida da semifinal você se sentiu ofendido com os gritos que vinham da torcida do Sada/Cruzeiro, em Contagem...
Michael: Lá foi constrangedor. Se fosse um lance ou outro, tudo bem, mas foi o jogo inteiro o ginásio inteiro. Eu sabia que bastava eu tocar na bola para falarem alguma coisa. Teve uma hora que eu saí para a entrada do líbero e tinha uma garota ao lado do banco que ficava gritando “bicha” na minha cara. Mas eu ia fazer o quê? Não poderia levantar e xingar a menina. Eu a olhava com cara feia, mas ela não parava. Durante o jogo, a gente tenta se concentrar e nem escuta tanto, mas depois, vendo na TV, foi muito pior. Fiquei indignado.

Com uns 13 anos eu soube quem eu era. Eu olhava para menina e não achava bonito. Aí você começa a ter consciência de algumas coisas. Você só andava com meninas, mas não namorava com elas, não jogava futebol, só queimada...

iG: Em algum momento passou pela sua cabeça em sair daquele jogo?
Michael: Eu não pensei em sair do jogo, não. Mas só fiquei sabendo depois que eu ou o Ricardo (Ricardinho, levantador e capitão o Vôlei Futuro) poderíamos ter reclamado como juiz sobre isso. Ele poderia ter parado a partida, colocado na súmula e só ter voltado quando a torcida parasse.

iG: Depois disso, o Vôlei Futuro reclamou da torcida mineira, fez notas de protesto e o Sada/Cruzeiro até foi multado. Além disso, a equipe de Araçatuba fez uma “festa rosa” para você no segundo jogo da semifinal. Você sabia de tudo?
Michael: Eu sabia que o Basílio (Torres, diretor do Vôlei Futuro) ia fazer alguma coisa porque eu o conheço, mas não sabia o que era. Eu fiquei com medo do que ele iria aprontar. Ele é louco, ele poderia pintar o ginásio de rosa! E eu não queria muita coisa para não parecer irônico. Ele falou do bate-bate com meu nome e eu adorei. Mas tinha mais. Além da camisa rosa que a gente usou para aquecer, tinha meia e joelheira rosa. Só que eu falei que isso eu não iria usar porque era exagero. Também tinha uma camisa rosa para o Mário Jr, além da normal de jogo e da arco-íris que ele usou. Mas na hora que levantou a bandeira, arrepiou.

Bandeira contra o preconceito estendida pela torcida do Vôlei Futuro na semifinal da Superliga
Divulgação/CBV
Bandeira contra o preconceito estendida pela torcida do Vôlei Futuro na semifinal da Superliga
iG: Você se sentiu pressionado para esse jogo? Afinal, o Vôlei Futuro teria que vencer para seguir na competição e foi a volta à quadra depois de todas as ofensas.
Michael: Eu estava super preocupado. Imagina você ter essa repercussão toda e, depois, ir lá e não jogar bem? Justo no jogo que seria transmitido na TV para o Brasil todo? Eu entrei, fui me alongar e nem conversei com ninguém. O Acácio (central do Sada/Cruzeiro) chegou para mim e disse: “Você conseguiu, né? Deixou tudo rosa!”.

Na minha cabeça, eu sempre achava que todo mundo sabia que eu era (gay). Por isso eu achava que tinha que malhar mais e treinar mais para não correr o risco de não ter espaço.

iG: E o Vôlei Futuro venceu o jogo e levou a decisão para terceira partida, que seria mais uma vez em Contagem. Deu medo por ter que voltar àquele ginásio?
Michael: Fiquei preocupado com o que a torcida iria fazer. Sabia que não iria ter nada porque o Cruzeiro não iria deixar, mas eu fiquei apreensivo. Imagina sacar e a torcida inteira quieta, sem fazer nenhum barulho. Também seria constrangedor. Só que assim que a gente chegou, já teve gente pedindo desculpas. Tinham vários cartazes. E eu até levei um susto. Quando a gente entrou, eu vi um pedaço de um escrito “Lady Gaga”. Eu pensei: “Meu deus, o que será isso?”. Aí depois eu li e era: “Lady Gaga was born this way”. Eu achei super engraçado. Na hora que me chamaram de Richarlyson, eu comecei a rir. Pelo menos foram criativos. 

iG: Você acha que o Brasil deveria ter alguma lei contra homofobia?
Michael: Acho que deveria ter sim uma lei contra homofobia. Esse é um assunto que já vem de meses. Teve o gay na Paulista que levou uma “lampadazada” no rosto, por exemplo. Mas também eu não sou a favor de radicalizar. O brasileiro não está acostumado a ver gays se beijando na rua, então não é preciso ficar provocando. Deveria ter a lei até para evitar esses casos de espancamento, agressões. Mas tem gente que é oportunista e fala que qualquer coisa é homofobia. Acho que a lei ajudaria contra a violência.

Torcedoras exibem cartaz se desculpando com o central
Frederico Machado
Torcedoras exibem cartaz se desculpando com o central
iG: Aos 28 anos, você já ainda sonha com uma convocação de Bernardinho para a seleção principal? Acha que o fato de você ter assumido ser gay pode te atrapalhar de alguma maneira em quadra?
Michael: Não porque eu sempre fui bem tratado e respeitado. E sempre joguei em time de ponta. Acho que não tem essa de preconceito porque eu já fui para as seleções de base e para a seleção B de Bernardinho. É claro que a gente espera uma convocação e isso é apenas resultado do trabalho no clube, mais nada. 

iG: Depois de todos esses episódios, você ganhou fama e, como disse, é reconhecido a cada esquina. Chegou a receber algum convite para fazer ensaios sensuais?
Michael: Graças a Deus, não. Mas imagina... Eu não faria nunca. Já pensou, todo mundo ficar te vendo? Não, eu não faria, não. Eu quero é jogar vôlei, não quero fazer outra coisa.

iG: Tem alguma personalidade no universo LBGT que você admire?
Michael: Eu gosto muito da Lady Gaga, mas o Rick Martin, para falar a verdade, eu só acho ele bonito.

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