Marcos Miranda, técnico da equipe feminina é enfático ao dizer que são os atletas quem devem se adaptar ao formato, mesmo que fiquem longe da família ou percam a autonimia

Foto oficial da seleção de vôlei de praia, convocada pela primeira vez em dezembro
Divulgação/CBV
Foto oficial da seleção de vôlei de praia, convocada pela primeira vez em dezembro

A CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) colocou em prática neste início de ano a seleção brasileira de vôlei de praia. As mulheres treinaram três semanas e agora partem para o torneio Rainha da Praia, neste final de semana. Já os homens ainda passam o carnaval com a nova equipe nacional. A ideia acaba com 'mordomias' e pode ser vista como imposição, mas os atletas apostam em bons resultados. 

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Na seleção, a CBV escolhe um determinado número de atletas para se concentrar e treinar no CT da modalidade em Saquarema. É oferecidq toda organização e estrutura do local, já utilizado pelas equipes brasileiras da quadra. E desse conjunto de atletas sairão os representantes do Brasil em todas as competições internacionais a partir de 2013. 

"Pegou todo mundo de surpresa, mas não é uma ditadura ou um esquema militar. Sabemos que vão sair da seleção as duplas para os torneios, o que acaba sendo uma imposição. Mas isso tem que servir para motivar, porque quem vai jogar bem vai estar na seleção", disse ao iG o medalhista olímpico Ricardo.

Ricardo é um dos veteranos na seleção brasileira masculina de vôlei de praia
Divulgação
Ricardo é um dos veteranos na seleção brasileira masculina de vôlei de praia

Até a implatação desse projeto, seguiam para os campeonatos os melhores do ranking, sem qualquer interferência. A mudança não incomoda o veterano. "Pode ajudar. Se tiver uma dupla nova, vai ter que jogar bem o circuito nacional e tentar uma evolução ainda mais rápida para buscar uma vaga", analisa o jogador. 

A seleção também exige concentração, e os atletas estão desde 6 de janeiro em Saquarema. Isso bate de frente com uma filosofia do vôlei de praia, de que era possível treinar perto de casa e da família, o que motivou até mudanças da quadra para as areias. Rodrigão, por exemplo, tenta carreira na praia e  já disse ao iG que apostou no novo piso também por essa "mordomia"

"Tirou o comodismo", comenta Maria Elisa, integrante da seleção feminina. "Os atletas têm que se doar um pouco mais e entender esse projeto", completa Ricardo, que saiu de João Pessoa para treinar em Saquarema.

"É muito diferente porque antes eu treinava com uma pessoa ao meu lado e hoje tem 10. A adaptação é difícil, mas tem o lado bom que é a estrutura. Em Saquarema a gente só pensa em treinar, comer e descansar. Não tem que se preocupar com fila de banco, com conta para pagar, com nada, e isso facilita o desenvolvimento", explica Maria Elisa. 

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Outra mudança é a perda da autonomia. Antes, os atletas, com seus patrocinadores, escolhiam quem seria a sua dupla. Porém, já para as Olimpíadas de Londres, em 2012, foi a CBV quem decidiu quais parcerias representariam o Brasil. Na época, foram escolhidos os líderes do ranking e nenhuma dupla foi desfeita. Isso pode mudar. 

Marcos Miranda comanda treino da seleção feminina de vôlei de praia em Saquarema
Divulgação/CBV
Marcos Miranda comanda treino da seleção feminina de vôlei de praia em Saquarema

"A Confederação ganhou o direito de administrar as duplas e fazer com que se tenha o melhor. Podemos pensar em novas parcerias, se for o caso. Uma dupla pode ser a líder porque acumulou pontos de outra temporada, por exemplo, mas pode não estar em seu melhor momento", afirma Marcos Miranda, o Marcão, técnico da seleção feminina de vôlei de praia. 

"Podemos mudar a dupla como em qualquer outro esporte que o técnico pode escolher quem vai convocar e como montar seu time. Temos essa autonomia, mas vamos levar em conta as duplas antigas e seu desempenho", tranquiliza Marcão. 

Quem pode passar por essa situação é Maria Elisa. A atleta firmou parceria com Juliana, mas a medalhista de bronze em Londres foi desconvocada da seleção. Ela pode voltar, mas Maria Elisa também pode ter que jogar com outra parceira . No geral, não há muito o que temer. "Não vão mexer nas duplas, só se não tiver rendendo o esperado. Aqui treinamos um dia bloqueio, outro dia defesa... Mas, quando estamos juntos para jogar, continuo com meu parceiro", fala Ricardo, que atua com Pedro Cunha. 

Entretanto, o tempo para treinar "livremente" não foi esquecido. Os atletas da seleção seguirão disputando o Circuito Brasileiro com seus parceiros originais, e a convocação da CBV, segundo Marcos Miranda, vai respeitar e dar tempo de treinamento para eles antes das etapas.

Juliana e Maria Elisa estrearam dupla em janeiro e já podem atuar separadas
Divulgação/CBV
Juliana e Maria Elisa estrearam dupla em janeiro e já podem atuar separadas

As comissões técnicas e treinos das duplas fora da seleção também contam. "Eu tenho a minha comissão lá em João Pessoa e é a mesma equipe há 14 anos. Não dá para chegar aqui e fazer tudo diferente. Mas estou à vontade porque sei que teve uma conversa do pessoal daqui com a minha equipe. Tem que ter essa troca", avalia Ricardo. 

Ainda assim, toda a nova dinâmica pode causar estranheza ou desconforto. "A autonomia deles vai mudar, mas o esporte tem que evoluir. Não estou preocupado com o que os atletas estão achando. O sistema foi implantado e é assim que vai ser. Os atletas vão ter que se adaptar. E a CBV vai dar o melhor para eles, sem dúvida", afirma Marcão. 

Os jogadores vão receber também uma remuneração durante o período de treinos na seleção. E, para aliviar a concentração, a presença da família é permitida. Ricardo conta com a esposa e o filho menor em Saquarema. "Eles estão comigo e vão passar o Carnaval aqui também. E a concentração pode ser boa. Passa rápido e, quando começa a dar saudade, está na hora de voltar para casa", comenta. 

A expectativa é beneficiar a todos. "É uma novidade e estamos vivenciando aos poucos, mas todos só querem o melhor com essa seleção. E pode ajudar os dois lados. Quem é veterano vai passar experiência e fazer com que os novatos evoluam mais rápido. E quem é novo motiva os mais velhos", afirma Ricardo. 


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