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“Sofri muito mais que o Bellucci”, diz Saretta

Em longa entrevista ao iG, o ex-número um brasileiro fala sobre a pressão de ser comparado a Guga e os percalços de um atleta

Giancarlo Giampietro, especial para o iG |

Flávio Saretta, 31, faz um giro pelas imediações do Ginásio do Ibirapuera, onde tem passado dias inteiros nesta semana de Brasil Open. Ele é reconhecido ocasionalmente por torcedores, mas, na hora de entrar na arena, toma uma direção oposta à da quadra. Sobe alguns lances de escada rumo às cabines de TV, em sua estreia como comentarista.

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A última partida deste paulista de americana pelo circuito ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) aconteceu há quase três anos, em março de 2009, com uma derrota nas quartas de final do Challenger de Santiago, diante do compatriota Franco Ferreiro. Lutando para recuperar a melhor forma depois de uma fratura no cotovelo, cansado de dores, mas, muito mais, da rotina que a profissão exigia, decidiu encerrar sua carreira aos 29 anos, sem olhar para trás.

Em São Paulo, sem uniforme, com um semblante bem relaxado antes de iniciar uma jornada cheia, ele se sentou com a reportagem do iG na arquibancada do ginásio antes de iniciar mais uma jornada de transmissões, enquanto o espanhol Albert Ramos e o russo Igor Andreev se enfrentavam. “Num momento destes aqui, quando a quadra está mais cheia como na semana, dá vontade de jogar”, afirma, antes de sorrir e completar: “Mas em cinco minutos passa”.

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Em uma longa conversa, Saretta, que foi o número 44 do ranking no auge, fala sobre o desgaste que a rotina do circuito impõe aos tenistas e os motivos de uma aposentadoria precoce. “Podem achar babaquice, mas é o esporte mais difícil do mundo”, afirma.

Sobre Thomaz Bellucci, atual, melhor tenista do país, ele dá um conselho. “Ele tem um talento incrível, já está num ranking muito bom, e pouca gente acreditava que ele poderia chegar rapidamente como chegou. Ele tem de curtir isso”, afirma. “Quando apareci, eu era o novo Guga. A pressão foi gigantesca.”
Gazeta Press
Saretta se compara à Bellucci perante à torcida brasileira


Confira a entrevista:
iG: Vendo as partidas aqui de perto, você sente saudade dos tempos de jogador?
Flávio Saretta: Sinto falta vendo a quadra cheia. A quadra está linda, de saibro, coberta. Dá para sentir que está uma delícia, vendo todos jogando bem. Quando você está vendo um torneio e está todo mundo jogando bem, é porque as condições estão boas. Então aí dá vontade, sim. Vendo ontem o jogo do Ricardo (Mello) e do Bellucci, tinha vontade de ir para a quadra. Mas o que brinco é o seguinte: dá vontade por cinco minutos (risos). Dá vontade, e passa.

iG: São os momentos com grandes jogos que fazem falta?
Flávio Saretta: É, desses momentos em que você está com a galera. Eu me lembro da Copa Davis. Também de uma vez em que fizemos uma exibição aqui: eu e o Guga na final, e o Ibirapuera lotado. Estando junto, participando desses momentos aqui, dá mais saudade ainda. Mas nada por que eu vá sofrer, que fique pensando: "Ai, meu Deus, por que não estou jogando? O que acontece?", nada disso. É só uma sensação boa que tenho.

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iG:É o que fica de sua carreira, no fim?
Flávio Saretta: O que guardo são os momentos bons da carreira, que durou bastante tempo. Procuro lembrar os momentos legais que tive e deletar outros momentos que não foram tão legais. Esses momentos nem tão legais valem mais para o amadurecimento. Aí é deletar o lado negativo e assimilar o positivo. Hoje em dia é algo que consigo fazer.

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O ex-tenista palmeirense visitou o CT do Palmeiras em 2007 e encontrou Edmundo
iG: É algo que você tira do esporte para levar para a vida?
Flávio Saretta: Como estou muito mais distante, então consigo ver o quanto o tênis é legal para um cara como ser humano. Conhecer o mundo inteiro, falar outras línguas. Não via os tenistas há muito tempo. Quando cheguei aqui, vi o quanto era amigo dos caras, de todos os jogadores. Ficaram felizes em me ver, fiquei feliz em ver todo mundo. Esses pequenos valores você não percebe quando está jogando.

iG: A rotina do circuito, nesse sentido, acaba sendo muito sufocante?
Flávio Saretta: Exatamente, a rotina não permite você apreciar isso, pelo fato de ter muita pressão, de estar toda hora competindo, buscando seu limite. Então os caras que agora eu vi como amigo, na época eram só colegas, com quem eu jogava contra. Agora consigo perceber o quanto era gratificante participar desse mundo.

iG: Em termos de pressão, hoje é o Thomaz Bellucci que está lidando com isso, como número um do Brasil. Ele disse recentemente que parece que, no Brasil, seria ainda pior, que aqui só valorizariam devidamente quem fosse o número um ou dois do mundo.
Flávio Saretta: É, ele tem de viver com isso, não tem jeito. Todo mundo que for jogar vai sentir isso, e não é novidade. Isso ele tem de saber faz tempo. Se for jogar tênis, se for bom, não vai agradar a todo mundo, não importa o que acontecer. Ele já está num ranking muito bom, já esteve melhor, e pouca gente acreditava que ele poderia chegar rapidamente como chegou. Mas ele tem de curtir isso. É um cara muito introspectivo. Acho que o brasileiro está acostumado a ver o Guga jogar, o Meligeni e até eu, que éramos mais extravagantes, vibrávamos chamando a galera. Ele é o oposto disso, e a galera tem de se acostumar com a personalidade dele. Ele joga muito bem, tem um talento incrível. Com um ranking desses, ele ainda pode melhorar. Você vê que ele ainda tem de melhorar um monte de coisa. Ficar preocupado se estão valorizando, ou não, é besteira.

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iG: Quando você entrou para valer no circuito, acabou pegando o final da carreira do Fernando Meligeni e um Guga que já começava a lidar com problemas físicos. Como foi começar a sua carreira nesse contexto?
Flávio Saretta: Quando apareci, eu era o novo Guga, cara. Apareci desse jeito. Tinha 21 anos e ganhei do Guga quando ele era número um do mundo lá no Sauípe, em 2001. Acho que sofri muito mais que o Bellucci. Tinha de ser o novo Guga, e o físico era parecido, o estilo também. Aí olhavam e falavam: 'Caramba, esse moleque vai ser o novo Guga, vai chegar lá em cima'. E eu ganhei do Guga, aí a pressão foi gigantesca para cima de mim. A diferença hoje é que nossos jogadores estão todos ali na faixa de 80, 90, 100, 120. Aí apareceu o Bellucci com um ranking muito bom. Mas acho, sinceramente, que, se eu fosse o Bellucci, estaria feliz da vida, porque ele é o cara do Brasil. Quando eu estava lutando, tinha o Meligeni brigando comigo no ranking. O Guga sempre como o número um. Aí, quando o Fino parou, passei a ser o número um. Mas hoje ele não tem uma briga direta de ranking.

iG: E, para muitos dos torcedores mais novos, já há um certo distanciamento para a época do Guga, não?
Flávio Saretta: Comigo acontece isso, cara. Um moleque de 11 anos não me viu jogar. Só o pai dele que vai falar: 'Aquele ali é o Saretta, ele jogou, e tal'. Adoram falar: 'Ganhou do Guga'. Aí o moleque vai lá e pede o autógrafo. Mas se eu passar na frente da molecadinha que vem assistir aqui com raquete, ninguém vai saber quem sou. O Guga todo mundo sabe porque a exposição dele foi enorme e mais do que merecida. Infelizmente, no Brasil é assim. E acho que o Bellucci nem precisa se preocupar com os dias de hoje. Você pensa mais nisso quando para de jogar, porque o brasileiro esquece muito rápido, em qualquer esporte. Pode ter um campeão olímpico agora aqui, sentado no meio de todo mundo, e ninguém sabem quem é.

AgNews
Saretta é casado com Suzana Alves, a "Tiazinha"

iG: O Paulo Cleto, colunista do iG, costuma escrever bastante sobre isso, sobre uma falta de cultura esportiva no Brasil, de muitas vezes não se valorizar quem pelo menos fez o máximo que pôde.
Flávio Saretta: Sem dúvida. Tem de ter a valorização do atleta, do profissional, do esforço. Pouca gente sabe a dificuldade que temos nesse esporte. Sem brincadeira, pode ser babaquice, alguém pode me xingar por dizer isso, mas o tênis é o esporte mais difícil do mundo, cara. Juro: já parei para pensar em outros esportes. Mas o tênis é individual, a cada dia você está jogando num tipo de piso, se você acorda com a pá virada, não vai jogar tênis de jeito nenhum. Você tem de estar sempre com a cabeça tranqüila para jogar bem. Você ganha uma grana, mas gasta muito também com viagens, para levar o treinador, sem patrocínio. É muito fácil ver a premiação e pensar que esse cara tem muito dinheiro. Não é assim. São 300 mil viagens para a Europa por ano com a equipe toda. Não passa na TV, então é difícil vender patrocínio. Só passam os maiores torneios. Enfim, é um esporte mano a mano, sem favorito.

iG: Qual é exatamente o ponto mais desgastante na vida do tenista?
Flávio Saretta: Não é dentro da quadra, aquilo faz parte da nossa vida toda. Mas o que cansa é a rotina do esporte. Você nunca está em casa, está sempre longe da família e amigos. Em média, são dez anos de carreira, e é algo muito intenso. Para um sul-americano, é mais difícil. Estamos longe do centro do mundo. É muito menos difícil para um espanhol nesse caso, para um europeu. Ele pode pegar um trem e voltar. Se a gente vai para a Europa, tem de ficar lá dois meses, porque é muito caro jogar um torneio e voltar. Aí é muito mais aeroporto, hotel, gasto, muito mais cansativo. É até por isso que a carreira dos europeus dura mais. É difícil você ver um sul-americano jogando simples, no pau, por muito tempo. A Argentina é mais longe ainda. Também foi o caso do (chileno Fernando) González. Se ele fosse europeu, duvido que iria parar.

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iG: Esse momento de recuperação de uma lesão seria, então, um dos momentos mais complicados para o tenista?
Flávio Saretta: É, passei por isso. Fraturei o cotovelo, logo depois do Pan-Americano (de 2007, no Rio de Janeiro, que ele venceu), sacando em um torneio logo na sequência. . A gente não tem essa facilidade de sair, ter de operar e voltar para o circuito tão rápido. Quando tentei voltar jogar, não conseguia convite para jogar em lugar nenhum. Aí você perde o patrocínio, e eu já tinha 28 anos, o que, para o esporte, já não era mais moleque. É difícil alguém acreditar em você ainda. Está voltando de uma lesão, e aí bota uns seis meses para ganhar confiança de novo, e é muito caro. Além da dor de uma lesão, não conseguiria ter um tempo de readaptação ao circuito.

iG: Seguir uma carreira sem técnico, sem um estafe, seria muito complicado?
Flávio Saretta: Você teria de ser um jogador muito diferenciado para conseguir viajar sozinho assim, porque é muito difícil se preocupar em jogar, ligar para o hotel, fazer reserva de voo, mandar a raquete encordoar durante o jogo. É importante ter o suporte, ajudando você a se organizar. Tem muito detalhe. Muita coisa que ninguém sabe. Chegar entre os 100 do mundo é uma grande vitória já.

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Saretta foi campeão pan-americano no Rio, em 2007
iG: Agora voltando a esse jogo com o Guga de 2001, que foi em pleno 11 de setembro. Foi um dia, um jogo muito estranho para você?
Flávio Saretta: Foi muito, bem no dia em que derrubaram as torres. Nem filmaram meu jogo, baita pé frio (risos). Bem no dia em que ia ganhar do número um do mundo. Só minha família para ver mesmo. Mas eu não tinha a mínima noção da dimensão daquele acontecimento, desse desastre nos Estados Unidos. Tinha 20 anos, estava começando a jogar. Mas acho que isso aconteceu meio que para todo mundo que estava naquele torneio. Não tinha caído a ficha. Foi uma situação muito louca. A gente acordou, e, chegando ao clube, na sala dos jogadores os americanos estavam chorando. Lembro que a Monica Seles estava lá. Todo mundo desesperado. E eu estava querendo jogar, não estava muito preocupado com o que estava acontecendo. Primeiro torneio em casa, contra o Guga, era isso o que queria fazer. Mas hoje é claro que a gente sabe a grandeza do que aconteceu, como o mundo mudou depois do atentado. Mas, como te falei, dentro do circuito você tem de jogar, é difícil. Se eu ficar pensando, preocupado com a torre, enfim, era algo que não estava ao nosso alcance.

iG: O que você acha agora dessa movimentação, envolvendo alguns dos principais nomes do circuito, a favor de um calendário mais enxuto?
Flávio Saretta: Cara, essa é uma discussão que, desde que entrei no profissional, já existe. De ter reuniões em torneio. Na Austrália sempre tem uma reunião, que é obrigatória de ir, se não dá multa. Cada um tem sua opinião, é difícil chegar a um consenso. A realidade de um cara que seja o 60, 70 do mundo é bem diferente de um top 10. Ele vai precisar viajar e jogar muito mais para garantir o ranking. Talvez o mais fácil fosse fazer o Aberto da Austrália começar um pouco mais tarde. Mas acho que eles brigam por dinheiro. Talvez queiram uma premiação maior, e acho que seria justo.

iG: O que você acha que poderia ser alterado no circuito?
Flávio Saretta: Uma ideia que tenho seria liberar o treinador na quadra, como na Copa Davis. Seria muito lega, que ele pudesse falar. Você gasta uma grana em treinador, investe nisso – tem gente que paga US$ 10 mil por semana – e, na hora da competição, o cara tem de ficar quieto.

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iG: Em termos de ambiente, você acha que o circuito poderia ser mais descontraído, talvez?
Flávio Saretta:Cara, se a galera soubesse torcer, acho que poderia acontecer. Mas, se você falar que tá liberado, aí vira uma loucura. Ia ter gente invadindo quadra, a coisa fica estranha. E outra: não é todo país que tem essa energia toda de torcedor. É difícil mudar uma coisa assim, até porque o tênis existe silêncio. Se virar uma Copa Davis o tempo todo, é difícil.

iG: Hoje qual é a sua rotina? Você estava com um trabalho no Palmeiras, que acabou. Continua ligado ao tênis de algum modo?
Flávio Saretta: Brinco que sou o único aposentado e desempregado ao mesmo tempo (risos). Acabou o projeto do Palmeiras. A gente entrou lá em 2009 e acabou em dezembro agora. Acredito que foi por briga política lá dentro, e não vou entrar nesse mérito. Mas Palmeiras é Palmeiras. A gente nunca sabe o que acontece lá dentro. Enfim, acabou o projeto. Estava muito legal, tava lotado de criança, eles estavam se divertindo. Não tinha mais horário para entrar para treinar. Paciência. Agora estou procurando um outro clube legal para trabalhar, que valorize mais o tênis do que o Palmeiras. Ou uma academia. Aí é poder passar o que acredito, tentar encurtar um pouco de uma criança que sonhe ser um profissional. Gosto desse contato com as crianças. Toda quinta-feira eu dou aula em um projeto social, para a molecada da Favela do Piolho, na Espraiada (antiga avenida Água Espraiada, hoje denominada Jornalista Roberto Marinho, na Zona Sul de São Paulo). É muito massa. Tenho feito muitas clínicas em empresas pelo Brasil inteiro, jogando também algumas exibições com o Meligeni.

iG: E essa experiência como comentarista?
Flávio Saretta: Agora surgiu essa oportunidade da Fox Sports, que está sendo bem legal. Estou podendo ver todos os jogos, comentando, e é como se eu estivesse jogando também. Para pensar o que o jogador está sentindo. Estive ali dentro um tempão, e isso é legal de poder passar para a galera tudo o que o jogador pode pensar.
 

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