iG ouve técnicos e outras figuras do mundo do tênis para tentar entender as oscilações do tenista número um do Brasil

Bellucci: há dois anos entre os 40 melhores
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Bellucci: há dois anos entre os 40 melhores
Thomaz Bellucci aparece no grupo dos 40 melhores do mundo há mais de dois anos. Tem três títulos no circuito ATP (Associação dos Tenistas Profissionais). Em termos de ranking, ele também atingiu a segunda melhor marca do país, quando foi o número 21 da lista no dia 26 de julho de 2010. Já embolsou mais de US$ 2 milhões em premiação. Não está nada mal. Mas é o bastante?

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“No tênis, não são só os brasileiros que acham que ele tem condição de entrar num top 20. O mundo inteiro acha isso. É muito mais surpreendente para as pessoas envolvidas no tênis o fato de ele ainda não ter entrado do que o fato de ele querer entrar”, afirma João Zwetsch, capitão da equipe brasileira da Copa Davis e ex-treinador do atleta.

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Sem vencer dois jogos consecutivos desde junho de 2011 e com apenas duas vitórias em cinco partidas neste início de temporada, o paulista de Tietê enfrenta críticas e a desconfiança do público. Com a comunidade do tênis reunida em São Paulo, sede do Brasil Open, o iG procurou entender qual é o atual status de Bellucci entre os especialistas e quais as expectativas factíveis em torno do jogador de 24 anos.

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Profissionalismo
Jogar em lugares como Monte Carlo, Tóquio, Indian Wells, Londres... Uma renda formidável. Quando se pensa no circuito profissional, para os atletas de elite, fica difícil desassociar a imagem de luxo, badalação e toda sorte de mimos para seus integrantes. Por trás dessa roupagem refinada, porém, está a série desgastante na estrada, com viagens constantes, e uma exigência física tamanha que desperta uma insatisfação crescente entre os tenistas. O tema de uma greve geral é cada vez mais discutido quando eles se reúnem nos grandes eventos.

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Do seu lado, Bellucci é daqueles que trabalha sério para tentar enfrentar a maratona, sem reclamar muito, compreendendo as demandas de sua profissão. Sua ética de trabalho é consenso entre os que o conhecem. “Não o tenho como um cara relaxado, como alguém que não gosta de fazer as coisas, de que gosta de festas. Essa dedicação ajuda a ter uma carreira longa, equilibrada”, diz Ricardo Acioly, técnico de João Souza, o Feijão.

“Se algum dia vocês tiverem a oportunidade de acompanhar um dia dele, vão ver que ele rala demais. Acorda às 6h30 da manhã, treina, faz tudo e acaba o dia às 19h30. Ando agora muito envolvido com os jogadores mais jovens e fico muito feliz de ter trabalhado dois anos com ele e poder citá-lo como exemplo para meus atletas ", completa Zwetsch.

Talvez falte ao tenista, porém, algo além do que faz em quadra para que a percepção de sua imagem seja mais valorizada. “Se ele tivesse uma aproximação um pouco distinta, talvez o público, mesmo que não o amasse como número um do mundo, talvez o amasse por outras qualidades que ele poderia usar como charme, um pouco de carisma, que é uma coisa que, infelizmente, ele não tem”, afirma o colunista do iG Paulo Cleto. “Mas acho que ele faz a parte dele, que é entrar na quadra. Ele é um cara bem na dele, correto, trabalhador".

Sua dedicação aos treinos tem impacto direto, claro, no que ele apresenta em quadra em termos técnicos, área em que Bellucci também não ficaria devendo, com golpes pesados do fundo da quadra e ótimo saque. Cleto acredita que o brasileiro tem os recursos suficientes para se colocar entre os melhores do mundo. “E o Thomaz sabe que tem potencial para isso”, diz Zwetsch.

Bellucci lamenta: cena corriqueira na carreira do jovem talento brasileiro
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Bellucci lamenta: cena corriqueira na carreira do jovem talento brasileiro


A barreira
A realização desse potencial é o ponto intrigante em torno do tenista, que hoje ocupa a posição 38 no ranking da ATP. “Acho que todo o tenista tem o nível, o ranking que merece. O ranking é extremamente justo nesse aspecto”, afirma Dácio Campos, comentarista do “SporTV”.

Embora se mantenha na faixa dos 40 melhores de modo consistente, Bellucci ainda é um tenista de difícil leitura no circuito, devido a oscilações drásticas em seu jogo que podem acontecer de uma semana para a outra. “Ele tem suas barreiras”, diz Zwetsch.

No ano passado, depois de viver a melhor semana de sua vida ao derrubar dois top 10 em série – o escocês Andy Murray e o tcheco Thomas Berdych – e de levar o poderoso Novak Djokovic ao limite nas semifinais do Masters 1.000 de Madri, ele caiu logo em sua estreia poucos dias depois em Roma, diante do italiano Paolo Lorenzi, o 148º do ranking, que divide sua carreira com os estudos em Siena e tem um retrospecto de apenas seis vitórias em 28 partidas no circuito.

“Quando ele conseguir elevar a capacidade de se manter em um grau de intensidade mais alto, vai passar a obter resultados ainda melhores porque o tênis dele é de primeira linha”, avalia Campos. “A capacidade dele de se manter ligado não tem o mesmo nível da técnica que possui. Não é que ele não queira, mas isso é algo que tem de trabalhar.”

Quebra-cabeça
Bellucci em ação pelo Brasil na Davis
AP
Bellucci em ação pelo Brasil na Davis
Mas o que fazer a respeito? Como o brasileiro, que já está há seis anos no circuito, pode reagir diante desse quadro em meio a uma rotina que não lhe proporciona muito tempo livre? Dácio Campos considera que essa é a hora de o técnico entrar em ação. “O treinador tem a obrigação de fazer que algo dentro dele desperte essa necessidade de estar intenso por mais tempo dentro do jogo”, opinou.

Bellucci iniciou há pouco mais de dois meses o trabalho com o argentino Daniel Orsnacic, substituindo Larri Passos, mentor de Kuerten em seus anos dourados. “Com essa mudança de treinador parece que ele agora está mais calmo”, afirma Jorge Lacerda, presidente da CBT (Confederação Brasileira de Tênis).

Zwetsch endossa a contratação. “É um cara que tem um perfil muito adequado para trabalhar com o Thomaz: muito calmo, mas ao mesmo tempo sabe manter uma certa rigidez na rotina de trabalho, cobrar as coisas que são necessárias".

Orsanic tem, nesse sentido, um belo trabalho pela frente. “Essas coisas vão aos poucos formando um quebra-cabeça”, pondera o capitão brasileiro da Copa Davis. “Thomaz precisa definir claramente, de uma vez por todas, a conduta que vai ter. Como ele vai enfrentar as dificuldades que sabe que tem, independentemente de um resultado vir ou não na hora que espera, para poder ultrapassá-las".

Ponto de vista
A avaliação em torno do que seria uma carreira de sucesso, ou não, para Bellucci também é apontada como um problema que está fora do alcance do tenista. “É irreal querer que um cara ganhe o tempo inteiro no tênis”. São poucos caras que conseguem. É uma cobrança que não tem sentido. Quantos têm uma performance tão equilibrada? O Thomaz deve jogar uns 28 torneios por ano. Se ganhar um, está bom”, diz Ricardo Acioly.

Larri Passos e Bellucci: parceria começou em dezembro de 2010
AE
Larri Passos e Bellucci: parceria começou em dezembro de 2010

“Existe uma falta de cultura de esporte no Brasil. O brasileiro em geral não aproveita o espetáculo, só quer saber de ganhar. Ele infelizmente não tem essa cultura para reconhecer valores onde poderia, que seriam bem mais amplos do que ser ou não ser o melhor do mundo”, analisa Paulo Cleto.

Outro fator para contextualizar seria a distância que o Brasil tem para os principais centros da modalidade, devido a pouco intercâmbio dos tenistas em torneios de base. “Para o tenista brasileiro, temos de dar um pouco a mais de tempo para o amadurecimento dele. Bellucci está se encontrando, está a caminho e tem esse direito”, afirma Lacerda. “Thomaz está com um relógio bom. Ele se meteu entre os 100 com uma idade, não precoce, mas boa. A carreira tem de ser avaliada pelos anos, o que o ranking vai dizer isso”, diz Acioly. "Normalmente o tenista começa a jogar o melhor que pode entre os 25 e 28 anos. Quando os caras já entendem o suficiente o circuito, com uma boa base física, a técnica estabelecida e a tática na cabeça. É aí que consegue extrair o máximo dele."

Num país com apenas dois tenistas colocados entre os 100 melhores do mundo, o que resta, então, é se apegar a um otimismo em torno do desenvolvimento de Bellucci. "Não tenho dúvidas de que em algum momento ele vai ultrapassar essas barreiras e encontrar um equilíbrio. É uma questão de tempo", diz Zwestch. "Ele ainda não chegou nos melhores anos dele. É minha opinião e minha esperança”, afirma Acioly.

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