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Tênis

01/11 - 22:00

Blindado por técnico e com dicas de Guga, Bellucci quer treinar com Federer

"Ainda está tão longe que não pensamos nisso e nem montamos o calendário", diz ele, que, agora, tirará 15 dias de férias antes de começar a pré-temporada

Gazeta Esportiva

SÃO PAULO - Semifinalista de um torneio da ATP em quadras duras pela primeira vez na carreira há uma semana, em Estocolmo, Thomaz Bellucci poderia ter permanecido na Europa e disputado torneios maiores como o 500 da Basileia e o Masters 1000 de Paris. Entretanto, não pensou duas vezes quando viu a possibilidade de encontrar o afago da família, dos amigos e da torcida e, com "saudade de casa", retornou a São Paulo para encerrar o ano no Challenger de São Paulo (Copa Petrobras de tênis), torneio que conquistou neste domingo em final contra Nicolas Lapentti.

De volta provisoriamente aos challengers, Bellucci explicou, ao lado de seu vigilante treinador, João Zwetsch, que essa opção já havia sido tomada com bastante antecedência. "Voltaria mesmo se tivesse sido campeão na Suécia", garante.

Em função de uma derrota em um jogo em que ele controlava contra o belga Oliver Rochus em Estocolmo, a final inédita no piso rápido não veio. Ainda assim, o paulista subiu no ranking de entradas: desde a última segunda-feira, tornou-se o 43º colocado, ultrapassou Flavio Saretta (número 44 em 2003) e já é o oitavo melhor brasileiro na história da lista masculina. Nesta segunda-feira, já deve aparecer no 38º lugar.

Curiosamente, Saretta atingiu a melhor fase da carreira treinado por Zwetsch. Com a experiência de quem rondou o top 200 da ATP quando jogador, ele aproveita para 'blindar' Bellucci quando assuntos como o vacilo diante de Rochus vêm à tona. O técnico interrompeu a entrevista em alguns momentos para responder no lugar de seu mais novo pupilo. "Não sei nem se ele conseguiria comentar esse tema. É muito difícil", justificaria, depois, o gaúcho de 41 anos.

Em grandes competições, o primeiro momento de destaque de Bellucci foi em Roland Garros 2008, no qual estreou justamente contra Rafael Nadal. Desde aquele momento, quando apesar da derrota por 7/5, 6/3 e 6/1 foi o segundo tenista que mais tirou games do espanhol durante a campanha, o brasileiro chegou a oscilar, mas deixou o nível challenger de forma definitiva no último mês de junho e ganhou mais respeito dos adversários.

Nesse contexto, já treinou com o Rei do Saibro em mais de uma oportunidade e espera a vez de fazê-lo com Federer, que notoriamente tem dificuldades para enfrentar o arquirrival Nadal e por isso costuma selecionar canhotos como companheiros de treinamentos.

Enquanto não entra na lista do número um do planeta, o também canhoto Bellucci utiliza conselhos de Gustavo Kuerten, a quem conheceu em confrontos da Copa Davis, da família e de Zwetsch para se consolidar no circuito profissional.

Encerrando uma temporada e prestes a começar outra - o que deve acontecer a partir de 5 de janeiro no ATP 250 de Brisbane -, o calmo atleta nascido em Tietê evita fazer planos para 2010. "Ainda está tão longe que não pensamos nisso e nem montamos o calendário", diz ele, que, agora, tirará 15 dias de férias antes de começar a pré-temporada.

GE.NET - No início do ano, você estabeleceu como meta fechar o ano no top 50 do ranking. Agora que está no grupo, tem a sensação de dever cumprido?
Thomaz Bellucci - O mais importante é que estou evoluindo meu jogo, e isso foi consequência do meu trabalho. É por isso que chegamos ao objetivo.

GE.NET - De qualquer forma, o balanço do ano como um todo já é positivo?
Bellucci - É, com certeza. Teve períodos em que alguns jogos escaparam ali no meio do ano, mas o balanço foi muito bom, ganhei alguns jogos bons, consegui melhorar, isso foi o mais importante.






























































Os melhores brasileiros da história
Jogador
Ranking Ano
Gustavo Kuerten 1 4/dez/2000
Thomaz Koch 24 20/dez/1974
Fernando Meligeni 25 11/out/1999
Luiz Mattar 29 1/mai/1989
Marcos Hocevar 30 20/jun/1983
Jaime Oncins 34 3/mai/1993
Carlos Kirmayr 36 10/ago/1981
Thomaz Bellucci 43 26/out/2009
Flávio Saretta 44 15/set/2003
Cássio Motta 48 8/dez/1986


GE.NET - Após a campanha em Estocolmo na semana passada, você se tornou o número 43 do mundo e ultrapassou Flavio Saretta (44 em 2003) no ranking brasileiro de todos os tempos, do qual agora você é o oitavo. Como é ver seu nome perto dos de Carlos Kirmayr, Jaime Oncins e Fernando Meligeni, entre outros?
Bellucci - Acho bom, importante. Para mim, já estar entre os melhores do Brasil é uma coisa marcante, é um dado legal.

GE.NET - Com 21 anos você já é o oitavo melhor tenista da história brasileira, mas em um país desenvolvido no esporte como a Argentina poderia estar em uma situação 'normal'. A pressão é maior por ser brasileiro?
Bellucci - Com certeza. Na Argentina, são vários os jogadores que já estiveram bem no ranking, então às vezes é só mais um, e aqui sou o oitavo. Então sempre tem um pouco de expectativa maior com relação à torcida, mas levo na boa. Tento encarar isso mais como uma motivação que como pressão, que é normal - estou em um país onde escassos jogadores conseguiram fazer grandes campanhas.

GE.NET - O Brasil nunca teve uma boa política de desenvolvimento do tênis e seus pais tiveram uma grande participação financeira no início de sua carreira. Como você lidou com a falta de patrocinadores?
Bellucci - Este é um problema que sempre existe no Brasil: a falta de apoio e de patrocínio. Acho que isso faz até você crescer um pouco mais, pois enfrentar todas essas dificuldades levam a aprender muitas coisas. Meus pais me deram muita força no começo, até há pouco tempo eles tinham de ficar me ajudando. São coisas pelas quais todos os tenistas passam quando estão em nível future ou challenger, a não ser que já nasçam fenômenos, que desde pequeno joguem os torneios maiores e consigam patrocínio para bancar as viagens. São obstáculos que você vai encontrar em todos os lugares, não só no tênis.

GE.NET - Em 2 de outubro, o Rio de Janeiro recebeu o direito de organizar os Jogos Olímpicos de 2016 e já anunciou planos de construir um centro de treinamento para o tênis na Barra da Tijuca com 20 quadras. As Olimpíadas podem melhorar esse cenário?
Bellucci - Tomara. Estou torcendo para eles conseguirem montar uma estrutura legal, darem uma ajuda de algum jeito, montarem esse centro em que possamos treinar juntos. Faltam sete anos ainda para os Jogos, que serão importantes para que possamos formar atletas.

GE.NET - Depois de fazer sua primeira grande campanha em quadras rápidas, por que você evitou ficar na Europa para continuar jogando em nível ATP e preferiu voltar aos challengers?
Bellucci - Já tínhamos planejado voltar a São Paulo ["saudades da mamãe", adiciona o técnico João Zwetsch]. É... já estava com saudades de casa [risos]. Como (a Copa Petrobras) foi em São Paulo, e já estávamos voltando para encerrar a temporada, pensamos: 'Vamos jogar o torneio perto de casa'. Aqui é menos cansativo, não precisa viajar, posso dormir em casa. São aspectos melhores.

GE.NET - Essa decisão veio, portanto, de antemão. No entanto, talvez você não esperasse ir tão bem na Suécia?
Bellucci - Não é isso. A gente já tinha planejado vir para cá. Antes... um tempo atrás tínhamos feito o calendário para encerrar a temporada aqui. Mesmo que eu fizesse o melhor resultado possível em Estocolmo, viríamos para cá igualmente. Tentar disputar os outros torneios nem passou pela cabeça. A gente já veio com essa meta.

[O técnico João Zwetsch complementa: a gente também quer fazer uma pré-temporada com calma, um pouquinho mais longa, pois vamos começar o ano cedo. Então isso pesou bastante na escolha do calendário.]

GE.NET - Então essa opção teve relação também com o calendário muito longo da ATP, que ultimamente foi alvo de duras reclamações de Rafael Nadal e Andy Roddick?
Bellucci - É, se a gente jogasse todos os torneios agora de fim de ano a gente ia acabar quase no meio de novembro (o Masters 1000 de Paris começa em 8 de novembro). Então, como vamos começar a pré-temporada um pouco antes, optamos por encerrar o ano aqui.

[imagem=8612#alinhamento=dir#legenda=A quadra rápida do torneio sueco não assustou Bellucci, que chegou a uma inédita semifinal#credito=421]

GE.NET - Desde que você começou a jogar ATPs, vem tendo alguns problemas para fechar partidas. Houve uma evolução nesse sentido, mas na semana passada você sacou em 5/3 no primeiro set contra Olivier Rochus e tomou a virada. Por que é tão difícil fechar um jogo?

[João Zwetsch se antecipa a Thomaz Bellucci e pergunta: Tu assistiu ao jogo do Roger Federer no Masters Series contra... Tsonga?]

GE.NET- Ah, sim... [silêncio de quatro segundos]
Zwetsch - Que que tu achou daquilo?

GE.NET:
Achei que isso pode acontecer com todo mundo, até com um supercampeão
Zwetsch - São coisas circunstanciais do jogo.

GE.NET-
Tudo bem. O Bellucci vem conseguindo fechar melhor as partidas.
Zwetsch - Vem.

GE.NET-
Com o Rochus, houve esse problema [Zwetsch concorda: "Houve"], mas antes acontecia com mais frequência.
Zwetsch - O jogo de tênis é muito dinâmico, em um minuto que o cara sai da concentração ideal, as coisas escapam muito rapidamente. Uma coisa que ele melhorou muito neste ano foi isto: foco, concentração dentro do jogo. É minha opinião, desculpe eu estar me metendo, mas essas coisas às vezes é até difícil de responder.
Bellucci - É..., falar de mim...

GE.NET-
Não é uma crítica...
Zwetsch - Não, não é crítica, mas eu...
Bellucci - Às vezes ficar falando...

[O técnico interrompe mais uma vez]
Zwetsch - São coisas que acontecem até com caras como Roger Federer, um cara que é sem comentários. Ele (Bellucci) está em um processo de evolução, de se firmar. Neste ano se afirmou dentro do circuito. É natural que esses jogos escapem. Contra Rochus, o primeiro set escapou, mas contra o [argentino Leonardo] Mayer, por exemplo, aconteceu o contrário: ele estava um break abaixo no primeiro set e buscou [ganhou por 7/5, nas oitavas de final de Estocolmo]. Não dá para definir que é uma situação que acontece o tempo inteiro com um: acontece com todo mundo. O cara tem que ter atenção e se prevenir realmente no lado do foco e ter um nível de concentração cada vez mais alto para que esse tipo de situação cada vez menos possa ter espaço.

GE.NET - Durante a carreira, você já teve alguns problemas físicos para disputar partidas de cinco sets e em Roland Garros passado empatava com o argentino Martín Vassallo-Argüello por 4/6, 7/6 (7-4) e 5/5 quando desistiu com cãibras. Já houve evoluções nesse sentido?
Bellucci - Já tenho priorizado a parte física faz muito tempo: há uns dois, três anos. Isso acontece com qualquer jogador. Em Roland Garros estava um calor bem grande, e o Vassallo gosta de ficar bastante nos pontos, jogar pontos largos, então senti um pouco mais do que estou acostumado. Isso foi também uma lição para ver o que preciso melhorar. Já estou conseguindo disputar partidas mais longas, e essa é uma parte em que estou evoluindo.

[imagem=8609#alinhamento=esq#legenda=Na Davis, Bellucci conheceu Guga e também Marcelo Melo, Ricardo Mello, André Sá e Saretta#credito=9]

GE.NET - Após o confronto com Nadal na abertura de Roland Garros de 2008, você já ganhou um ATP, em Gstaad, foi vice na Costa do Sauípe e agora semifinalista em Estocolmo. Já está se sentindo mais respeitado no circuito profissional?
Bellucci - Ali contra Nadal eu estava começando ainda, saindo dos challengers para começar a jogar os torneios maiores. Então às vezes você respeita demais alguns caras por não os conhecer, por não saber muito bem como eles jogam, e acha que são super jogadores. Com o tempo, você vai jogando o circuito e vendo que tem a possibilidade de ganhar. Às vezes vence algum jogo inesperado e ganha um pouco mais de confiança. Isso faz parte. Eu era um cara que não tinha experiência e agora já tenho mais bagagem. Após conhecer os outros tenistas, eles começam a te respeitar um pouco mais. É uma evolução que faz parte do circuito.

GE.NET - Depois de perder para Nadal, você já treinou outras vezes com ele. Como foram essas esperiências?
Bellucci - Treinei umas duas ou três vezes com ele, sempre no meio dos torneios, na Austrália e em Wimbledon, não me lembro direito. Foi legal, ele me chamou para treinar, ia jogar com um canhoto e, como sou canhoto, ele me pediu para pegar um pouco a mão, porque são poucos os canhotos no circuito [no top 30 do ranking, apenas Nadal e Fernando Verdasco empunham a raquete com a mão esquerda].

GE.NET - Roger Federer tem uma histórica dificuldade para enfrentar Nadal - são 13 derrotas em 20 partidas realizadas - muito porque este é canhoto. O suíço poderia treinar também com você?
Bellucci - O Federer nunca me chamou para treinar, mas quem sabe eu consiga bater uma bolinha com ele algum dia. Ele tem uma certa dificuldade para enfrentar Nadal e vejo que ele treina com muitos canhotos para melhorar isso, mas nunca tive a oportunidade.

GE.NET - Falando em grandes tenistas, é difícil não surgir o assunto Gustavo Kuerten em suas entrevistas. Você já disse que Guga nunca foi seu maior ídolo no tênis. Como é seu relacionamento com ele?
Bellucci - Meu relacionamento com o Guga começou nas Copas Davis - em duas ou três vezes jogamos juntos, quando ele estava na equipe [só em 2007, Kuerten e Bellucci frequentaram o time como titulares ao mesmo tempo, na derrota na repescagem para a Áustria]. É um cara legal, na Davis é importante a presença dele, que tem uma grande experiência, uma energia boa que faz muito bem para o grupo. Para falar a verdade, não tenho muito contato com ele, como ele é de Florianópolis e eu de São Paulo, mas sempre que a gente se vê ele me dá uns toques, fala algumas coisinhas.

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