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Tênis

24/10 - 11:33

Vivian Segnini casou com o tênis e quer estar entre as cem melhores

Tenista brasileira tem 19 anos e nunca namorou. É tudo parte do esforço para chegar à elite do esporte

Fábio Sormani

SÃO PAULO - Vivian Segnini é nossa melhor tenista no ranking da WTA, a associação feminina da modalidade. Ocupa o modesto 321º lugar. Começou 2008, no entanto, no longínquo 450º posto. Progrediu muito nestes dez meses.

Quem a conhece não estranha passo dado tão grande. Fruto, seguramente, da determinação desta robusta menina de 1m64 de altura nascida em São Carlos, interior paulista.

Foi emancipada aos 15 anos pelos pais e viaja o mundo, desde então, sozinha, tentando, a cada qualifying deixado para trás e a cada etapa suplantada de um torneio disputado, dar um passo a mais em direção à sua meta estipulada desde que pegou uma raquete de tênis pela primeira vez, aos oito anos, que é estar entre as melhores.

Hoje, estar entre as melhores é um dia aparecer entre as cem melhores no ranking da WTA, o que a faria entrar para a história como a primeira brasileira depois de Dadá Vieira a conseguir tal feito. Pouco, talvez, para quem não sabe das dificuldades de se embrenhar neste complicado e difícil mundo do tênis feminino; muito para quem conhece-o a fundo.

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Viviam: sem ajuda da CBT, ela trabalha sozinho para alcançar o Top 100

Vivian conversou com o iG na última segunda-feira, dois dias antes de embarcar para Istambul, na Turquia, onde a partir de domingo, pela primeira vez com o técnico ao lado, disputa o qualifying de um challenger dotado de US$ 25 mil. É a cabeça de chave número dois.

Ah, sim, ela tem 19 anos e nunca namorou; não quer trair sua grande paixão, o tênis.
    
Por que o tênis feminino brasileiro se encontra nesta situação?
Fiquei número um do Brasil há três semanas. Não acho que ele está em decadência como muitas pessoas falam. Estou crescendo como tenista. Este ano consegui bons resultados. Fui campeã em um future na Colômbia, cheguei a duas finais na Turquia também em future. Nos challengers, cheguei às quartas-de-final também na Colômbia, no México e semi em Campos do Jordão. Comecei a jogar challenger este ano. Estou tendo bons resultados. Não acho certo dizer isso. Estou crescendo. Quem fala não sabe das dificuldades que eu e outras tenistas [brasileiras] encontramos. Viajo desde os 15 anos sozinha, sem pai, nem mãe e nem treinador.

Como você começou a jogar?
Tinha oito anos. Acompanhava meu pai, que jogava. Ficava batendo paredão. Fui junto com ele e nunca mais saí da quadra.

Não teve uma jogadora em quem você se inspirou?
Gostava da Steffi Graf.

E aqui no Brasil?
Faz 20 anos que a gente não tem uma jogadora que não está entre as 100 melhores. Então, não tive ninguém em quem me inspirar.

Pois é, é disso que eu falo; olha a situação em que se encontra o nosso tênis feminino.
Isso é verdade. Faz 20 anos que a gente não tem uma jogadora em quem se inspirar. Na época do Guga muita gente começou a jogar tênis, mas não foi para frente. Isso é como uma bola de neve: não há estrutura, por isso, não tem jogador e o resultado é que não tem muita gente jogando.

Nossa estrutura é muito ruim?
Os jogadores aqui no Brasil não têm uma estrutura forte por trás. Na Europa é tudo perto, fica mais fácil. As jogadoras não precisam gastar tanto. Além disso, lá é mais fácil arrumar patrocinador. Aqui é difícil.

Você não tem um patrocinador?
Tenho, desde os 16 anos. É a OPTO. Eles me ajudam a pagar parte das passagens. Como eu melhorei no ranking, eles viram que eu preciso que o meu técnico esteja comigo. Por isso, pela primeira vez, meu treinador, o Elson Longo, estará comigo. Se não fosse a OPTO eu já teria parado.

A CBT já te ajudou?
Nunca. Em agosto passado eu mandei uma carta, através do [Carlos Alberto] Kirmayr pedindo uma ajuda. Não recebi resposta até hoje. Meu treinador falou também com uma pessoa da CBT e também não conseguiu nada.  Parece que eles vão ajudar a partir do ano que vem.

Como são as viagens?
Sempre viajei sozinha. Fiquei várias vezes três meses fora de casa. A gente tem que ter disciplina. Treinar, saber lidar com as derrotas, encontrar algum lugar para bater bola e arrumar uma parceira.

Você só fica em hotel?
Casa de família também. Às vezes eles [organização dos torneios] oferecem [casa de família], mas outras vezes não. Aí a gente tem que ser cara de pau e sair procurando.

E o problema da grana, pesa muito?
Os sócios do São Carlos Clube me ajudam muito. Eles fazem rifa para me ajudar. Da última vez rifaram uma raquete. São Carlos é uma cidade pequena [segundo o último senso do IBGE, do ano passado, a população é de 212.956 habitantes] e todos me ajudam. O meu treinador também me ajuda financeiramente.

E seus pais?
Meu pai é dentista. Minha família não tem condições de me ajudar.

E hospedagem e alimentação?
Isso é com as rifas.

O tênis é um esporte caro?
Muito caro, porque você tem que viajar. Aqui na América do Sul tem poucos torneios. A gente tem que ir toda hora para a Europa.

Qual é o seu projeto para este final de temporada?
Quero terminar o ano entre as 250 melhores do mundo. Aí eu tenho condições de jogar o qualifying do Australian Open. Estou embarcando para vários torneios no exterior. Vou disputar, na seqüência, torneios na Turquia, Índia, Austrália, Emirados Árabes e volto para a Índia.

De uma maneira geral, qual seu objetivo?
Pretendo chegar entre as 100 melhores do mundo. Não estipulei tempo para isso. Pode ser daqui um ano, dois, não sei. Sei que é difícil. Como melhorei meu ranking, tenho que jogar os challengers e eles são de um nível mais alto do que os future. Se eu conseguir melhorar os meus resultados nos challengers, eu chego entre as 100 melhores.

Muitas viagens, então.
Sim, muitas.

Como você lida com a saudade?
A pior coisa para mim é ficar só treinando aqui no Brasil. Então, quando aparece a oportunidade de viajar e jogar, estou fazendo o que eu mais gosto. Isso me faz esquecer tudo, deixo de sentir saudades. A vontade de jogar é maior do que a saudade.

Você tem namorado?
Não, nunca tive. Dá muita dor de cabeça. Eu viajo muito.

Nunca namorou?
Quer dizer, firme, nunca, mas já tive alguns casinhos.

E os estudos?
Parei no primeiro colegial.

Não vai continuar?
Agora não. Aliás, nem sei o que eu quero fazer. Ou melhor, sei: é jogar tênis.


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Casada com o tênis
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