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Tênis

24/10 - 11:48

Morto há duas décadas, tênis feminino é vergonha do esporte brasileiro
Melhor tenista do Brasil ocupa a posição de número 321 no ranking da WTA, a associação feminina da modalidade

Fábio Sormani

SÃO PAULO - É consenso: o tênis masculino brasileiro agoniza. Bem, mas se ele está moribundo, o que dizer do feminino? Ah, esse já morreu, coitadinho, há um bom tempo. Há duas décadas; ou mais. Depende do entendimento de cada um. O fato é que o tênis feminino brasileiro já não existe.

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Vivian: uma espécie rara
Nossa melhor tenista ocupa a posição de número 321 no ranking da WTA, a associação feminina da modalidade; a última vez que uma representante brasileira esteve entre as cem melhores do mundo foi há quase 20 anos; desde 1993 não temos uma representante num torneio individual de Grand Slam; após a Federation Cup mudar suas regras e seu nome para Fed Cup e ser disputada no mesmo formato da Copa Davis, nunca o Brasil participou do grupo de elite.

É bem verdade que ele nunca foi top. Viveu seus anos de glória com a inesquecível e incomparável Maria Esther Bueno. Depois dela, nossa melhor tenista foi a gaúcha Niege Dias, que ocupou o 31º. lugar no ranking da WTA no longínquo ano de 1988. E praticamente mais nada. Para um país que se diz apto para praticar qualquer modalidade esportiva, algo de errado acontece.

Quando olhamos para os EUA, é de dar uma inveja... As moças norte-americanas, estas sim, foram talhadas para jogar tênis. A história delas começa com Elisabeth Moore e Hazel Hotchkiss Wightman, no início dos anos 1900. Depois vieram Helen Wills Moody, Pauline Betz, Louise Brough, Maureen Connolly, Althea Gibson, Billie Jean King, Chris Evert, Tracy Austin, Lindsay Davenport e as irmãs Williams, Venus e Serena. Todas vencedoras de torneios do Grand Slam e que um dia ocuparam o primeiro lugar no ranking. É a grande força do tênis em todos os tempos.

Mas há outras escolas que merecem destaque também, como a francesa, que teve Suzanne Lenglen, Mary Pierce, Amélie Mauresmo e Alize Cornet, estas duas últimas em atividade. A antiga Tchecoslováquia veio com Martina Navratilova, Hana Mandlikova e Martina Hingis; hoje, unidas fossem República Tcheca e Eslováquia, teríamos Daniela Hantuchova, Dominica Cibulkova, Nicole Vaidsova e Katarina Srebotinik. As inglesas brilharam com Dorothea Douglass Lambert Chambers e Virginia Wade.

Atualmente, a escola russa é que chama a atenção, não apenas pela beleza de suas jogadoras, mas também pela qualidade. Das últimas quatro edições da Fed Cup, venceu três. Entre as dez primeiras do ranking, cinco nasceram na Rússia. Maria Sharapova, atual número seis do mundo, já foi a número um em 2005, enquanto que Dinara Safina (2), Elena Dementieva (5), Svetlana Kuznetsova (7) e Vera Zvonareva (9) tentam o mesmo.

Dá para falar também da Sérvia, que brilha com Jelena Jankovic, atual numero um do mundo, e Ana Ivanovic, ex.

AP
Elena Dementieva, a número 5 do mundo: beleza e talento a serviço da Rússia

E nós? Problema de DNA? Falta às nossas meninas essa carga genética?

“De jeito nenhum”, garante o blogueiro do iG Paulo Cleto, também comentarista da ESPN Brasil. “Quem produziu Maria Esther Bueno tem o tênis no DNA”.

Mas Maria Esther não seria a exceção que confirma a regra?

“Que nada, o brasileiro tem jeito para qualquer esporte”, responde Dácio Campos, ex-jogador e comentarista do SporTV, na linha do “brasileiro nasceu com o DNA do esporte”.

Qual o problema, então?

Problemas, eu diria; no plural, pois daria para escrever alguns tomos. Se fosse apenas um, certamente a solução já teria sido encontrada, por mais inábeis que nossos dirigentes, nesse tempo todo, tenham sido.

Mas vamos colocar mais gente para falar sobre o assunto.

A opinião dos especialistas
Ex-tenista e ex-integrante da equipe brasileira da Copa Davis durante 15 anos, Carlos Alberto Kirmayr tem uma tese no mínimo interessante sobre a crise do tênis feminino brasileiro. Diz ele: “Quando uma menina nasce, ganha uma boneca. Ela só tem contato com uma bola se tiver um irmão em casa”.

Trigésimo segundo colocado no ranking da ATP em 1981, Kirmayr pode falar com autoridade sobre o assunto. Isso porque ele tem se dedicado ao tênis feminino há mais de 15 anos. Foi treinador da argentina Gabriela Sabatini e das espanholas Arantxa Sanchez e Conchita Martinez, três das maiores tenistas do mundo no final da década de 1990. Aqui no Brasil, treinou Vanessa Menga e Joana Cortez.
 
A teoria de Kirmayr pode explicar a baixa procura do tênis pelas nossas meninas. Segundo a Confederação Brasileira de Tênis (CBT), há apenas sete jogadoras federadas com idade até dez anos, número que chega a 140 se contarmos até os 12 anos. Para um país, segundo o IBGE, com quase 185 milhões de habitantes, sendo que 25 milhões são mulheres com até 15 anos, o número é inexpressivo.

“Precisamos massificar o tênis feminino”, indica Paulo Cleto.

Este, de fato, é um grande problema, fruto, seguramente, da baixa exposição da modalidade na mídia. Dácio Campos concorda e adiciona: “A tevê no Brasil massificou o masculino; esqueceu-se do feminino. Isso não aguça as meninas a irem jogar tênis”.

O que Dácio fala é a mais pura verdade. SporTV e ESPN Brasil, duas das três emissoras esportivas a cabo do país, voltam-se basicamente para os torneios da ATP. O feminino está nas mãos do Bandsports, que assim mesmo só transmite ao vivo as semifinais e finais das competições da WTA.

Como massificar, então, se o esporte não tem uma exposição adequada na tevê? É complicado, concorda?

Além disso, para piorar, não apareceu mais uma Maria Esther. Faltam, pois, ídolos em quem nossas meninas venham a se inspirar. Como vimos, depois de dela, Niege foi quem teve o melhor desempenho.

Mas duas outras tenistas brasileiras merecem ser citadas neste período: Patrícia Medrado, que chegou à 45ª. posição em 1982, e Andréia Vieira, a Dadá, que foi a 76ª. melhor tenista do mundo em 1989, última vez, como eu escrevi bem lá em cima, que o Brasil apareceu entre as cem melhores do mundo.

E só. Muito pouco para quem quer estar entre os melhores; pra quem diz ser apto para praticar qualquer esporte.

Volto a perguntar: como atrair praticantes com um cenário desses? Como fazer nossas meninas tomarem gosto pelo esporte se a tevê dá as costas para o tênis feminino e ídolos não existem mais?

Dadá Vieira concorda quanto ao problema da massificação. Professora da modalidade no Tênis Clube de São Paulo, onde dá aula para alunos de todas as idades e sexo, ela afirma que existem apenas duas meninas querendo se iniciar na modalidade.

“Fizemos um torneio recentemente aqui no Tênis Clube para crianças com 12 anos e 40 meninos se inscreveram, enquanto que apareceram apenas oito meninas”, contou Dadá.

É de doer.

E a falta de ídolos acaba por frear o crescimento da modalidade, concorda Paulo Cleto. “É claro que eles [ídolos] fazem falta, pois o atleta sempre tem que ter uma fonte de inspiração; e isso no tênis feminino brasileiro não existe”, lamenta.

Jorge Lacerda da Rosa, presidente da CBT, no entanto, discorda que a falta de um ídolo impeça o crescimento da modalidade. “O fato de termos um ídolo no tênis brasileiro nem sempre se traduziu em continuidade ou em gerações fortes”, disse Lacerda. Poderia, mas não mencionou Guga, um atleta fora de série e que não foi aproveitado para esparramar definitivamente o tênis no país.

“Acredito que mais do que um ídolo o tênis brasileiro precisa ter uma base forte, uma transição adequada e mais formas de atrair adeptos para o esporte”, acredita Lacerda. “Estamos trabalhando para isso, mas estes são projetos a médio ou longo prazo, só assim poderemos dizer que temos uma boa base”.

Referindo-se exatamente a esta falta de base do tênis feminino brasileiro, Dadá decreta: “Os que aqui se sobressaem são gênios”.

A CBT acabou de assinar um contrato de 12 meses com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. O valor total do negócio é de R$ 3,8 milhões, divididos em uma dúzia de parcelas mensais.  Quanto deste montante será investido com as nossas meninas?

O presidente Lacerda não disse como dividirá o bolo, mas informou que a parcela dos marmanjos é maior. “Isso por conta da freqüência de torneios masculinos no país”, disse ele. “Mas em todas as categorias a nossa intenção é equilibrar. Já é assim no Brasileirão, na Copa Davis e Fed Cup, nos Futures, CNIPs e outros torneios da parceria CBT/Correios”.

Falta de contato com a bola, pouca procura pela modalidade, ausência de ídolos e estrutura precária. Até agora listamos quatro problemas que podem explicar por que o tênis feminino brasileiro morreu.

Mas tem mais...

Paulo Cleto chama a atenção para o seguinte: “O tênis é um esporte individual, ao extremo, enquanto nossas meninas preferem atividades mais agregadoras. O tênis profissional é extremamente competitivo, desgastante emocionalmente. Tem as viagens e, além disso, elas têm que abrir mão de todas as coisas que meninas parecem priorizar. Quando elas têm que enfrentar a estrada para se profissionalizar, simplesmente desmoronam emocionalmente, pois ficam carentes da família e dos amigos; ficam saudosas”.

Esse estorvo alia-se a outro: a falta de ambição das nossas jogadoras. Dadá Vieira recorda-se de seu tempo como profissional e faz uma comparação com as tenistas argentinas. “Fiquei impressionada com a determinação delas”, conta Dadá, que gastou dois anos de seu período de jogadora treinando em Buenos Aires.

“Aqui a vida é muito boa”, continua Dadá. “Na Argentina o atleta é mais sério. No Brasil tem praia, Carnaval, todas essas coisas que tiram o foco do atleta, que lá não tem”. E mesmo que tivesse, garante a brasileira, as argentinas não se deixariam perder por essas tentações.

Kirmayr alerta também para a falta de pretensão. Segundo ele, nossas meninas param cedo demais, não dão tempo ao tempo. “A média de idade entre as cem melhores tenistas do mundo está entre 25, 26 anos”, lembra Kirmayr.

Dadá é um exemplo do que Kirmayr falou: deixou o tênis com 24 anos. “Não agüentava mais”, disse ela.

Parou de fato cedo. Serena Williams, que acabou de deixar o posto de número um do ranking da WTA para a sérvia Jelena Jankovic, é a tenista com maior número de títulos em Grand Slam na atualidade e está com 27 anos, mesma idade de Elena Dementieva. A norte-americana acabou de vencer o US Open, o último Grand Slam do ano, enquanto que a russa foi medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim.
 
Neste ponto as russas são citadas como exemplo. “A vida é dura por lá”, diz Dadá, tentando explicar por que as russas estão na berlinda do tênis mundial.

O exemplo dos russos
Olhem só o que diz Cleto: “Na Rússia, as mulheres estavam passando fome e tinham apenas duas alternativas: se prostituirem ou virarem esportistas. Boa parte optou pela segunda alternativa, por isso há tantas russas hoje se sobressaindo no esporte de uma maneira geral e principalmente no tênis”.

Verdade; os russos passaram por maus bocados após a extinção da União Soviética no final de 1991. O PIB do país caiu dramaticamente e sua economia reduziu-se à metade na década em questão. Com a crise, os índices de pobreza aumentaram de maneira gulosa.

Determinadas, muitas meninas encontraram no tênis a chance de driblar a crise. Conseguiram e hoje têm uma vida quase nababesca, pois as melhores do ranking já ultrapassaram a casa dos US$ 10 milhões em prêmios oficiais, sem contar os contratos de publicidade e os cachês que recebem para participar de torneios.

Falta de contato com a bola, pouca procura pela modalidade, ausência de ídolos, estrutura precária e falta de ambição das nossas moças. Já são cinco os problemas levantados.

E tem mais...

Cadê os professores?
“Faltam bons instrutores aqui no Brasil”, denuncia Dadá. “Por isso, uma grande jogadora pode não ser bem lapidada se cair nas mãos de um cara que não entende. Além disso, aqui não há a cultura de [um instrutor] passar um jogador para outro professor quando não tem condições de se dedicar ao trabalho. Isso na Argentina é comum”.

Mas aí vem outro obstáculo em relação aos treinadores, mas este, segundo Kirmayr, tem a ver com o caráter feminino: “Elas não conseguem dividir um técnico com outra jogadora. As mulheres são muito ciumentas. Se fizessem isso, diminuiriam as despesas de início de carreira”.

Também na linha de que faltam bons treinadores por aqui, Dácio Campos diz que a CBT tem que mandar nossas meninas para o exterior. “Elas têm passar um tempo por lá”, diz. “Aumentar o intercâmbio. Além disso, a confederação tem que trazer para o Brasil gente de vanguarda para trocar informação com nossos treinadores e jogadoras”.
 
A boa notícia para Dácio e para nossas meninas é que a CBT vai fazer exatamente o que o comentarista do SporTV pede. “O patrocínio dos Correios prevê a preparação dos tenistas brasileiros em todas as suas categorias em eventos nacionais e internacionais”, promete Lacerda.

O discurso, no entanto, tem que ir para a prática. Isso porque Vivian Segnini, nossa melhor tenista no ranking da WTA, revelou, em entrevista ao iG, ter pedido socorro financeiro à CBT e nunca ter recebido nem uma resposta sequer. “Meu técnico também falou com umas pessoas da confederação, mas também não conseguiu nada”, disse Vivian.

Falta de contato com a bola, pouca procura pela modalidade, ausência de ídolos, estrutura precária, falta de ambição das nossas moças, ausência de bons treinadores e intercâmbio inexistente. Já são sete os problemas levantados.

E tem mais... Mas juro que este é o último que eu consegui listar. Deve haver outros, pode ser, ainda mais porque não tenho um faro tão apurado quanto o do Inspetor Maigret.

Preconceito e medo
O problema derradeiro, todavia, é dos mais delicados. E quem fala sobre ele é Kirmayr: “Tem muitos pais que tiram suas filhas do esporte porque acham que o treinador quer comer elas. É óbvio que eles têm que se preocupar, mas há que se confiar. Mas também não estou falando de todos”.

Paulo Cleto deixou sua opinião nas entrelinhas; não quis colocar a mão neste vespeiro, mas deu a entender que o que fala Kirmayr é o que se passa de fato. “Acho que os pais têm medo de verem suas filhas caírem no esporte, principalmente o individual, por várias razões. Algumas delas reais”.

Lacerda, no entanto, diz desconhecer o problema. E acrescenta: “Não acredito que o tênis seja o local mais perigoso para estas situações”.

Em viagem pelo mundo desde os 15 anos, Vivian, hoje com 19, disse nunca ter ouvido falar sobre cerco de treinadores sobre jogadoras. “Já vi técnicos se casarem com jogadoras, mas assédio, nunca”. Referia-se ela, por exemplo, ao consórcio entre a suíça Patty Schnyder e Rainer Hoffmann e da chinesa Na Li e Jiang Shan.

Falta de contato com a bola, pouca procura pela modalidade, ausência de ídolos, estrutura precária, falta de ambição das nossas moças, ausência de bons treinadores, intercâmbio inexistente e temor dos pais em relação ao assédio que suas filhas podem sofrer. Foram oito os problemas levantados.

Como disse acima, deve haver outros. Mas com certeza estes são os principais; e diagnosticados por gente do ramo. Corrigir este rumo e pavimentar a estrada para um futuro melhor cabe a quem transpira o tênis feminino diariamente.

Todos têm que dar sua cota de contribuição, arregaçar as mangas; inclusive a mídia, ampliando seu tímido espaço na cobertura dos torneios e acompanhando nossas meninas. E, indiretamente, ajudando-as a conseguir patrocínios que dariam o suporte para elas se desenvolverem.

É isso o que foi proposto com esse texto. Que a gente olhe com carinho para o tênis feminino brasileiro, obtuso hoje em dia, e tente encontrar solução para seus problemas. Que, como vimos, não são poucos.

Ressuscitá-lo será possível?

Esperamos que sim.


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