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Confederações brasileiras que são olímpicas usam dinheiro de Lei para contratar treinadores de países que são potências esportivas

Orientações em espanhol, inglês e até um pouquinho de russo. O esporte brasileiro perdeu a vergonha de procurar treinadores estrangeiros para melhorar o rendimento em modalidades coletivas que já trouxeram medalha olímpica e até título mundial, como o basquete, ou naqueles que o Brasil está longe de ser potência. Na disputa dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara , que começam nesta sexta-feira no México, metade das modalidades trabalha com técnicos nascidos longe do país – 20 das 40 que recebem verba da Lei Agnelo/Piva por serem olímpicas.

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Em dezembro de 2010, no último levantamento feito pelo COB (Comitê Olímpico Brasileiro), 51 treinadores “gringos” trabalhavam nas modalidades olímpicas - essa conta inclui 16 profissionais de desportes na neve e desportes no gelo, das Olimpíadas de Inverno. Os números excluem aquelas que não recebem verba individual da Lei que destina parte do arrecadado em loterias para o esporte olímpico. Veja abaixo os treinadores pode modalidade olímpica:

Modalidade Número de técnicos
Esgrima 8
Atletismo 4
Tiro Esportivo 3
Handebol 2
Hóquei sobre grama 2
Lutas 2
Basquete 1
Boxe 1
Canoagem velocidade 1
Ginástica artística feminina 1
Ginástica rítmica 1
Hipismo adestramento 1
Hipismo CCE 1
Hipismo saltos 1
Levantamento de peso 1
Pólo aquático 1
Remo 1
Tênis 1
Tênis de mesa 1
Tiro com arco 1


“A tática que aprendemos com o Guennady foi fundamental para o progresso. Na Europa estão os melhores do mundo, por que não aprender com eles? Até os EUA, que é uma potência, importa da Europa”, disse Taís Rochel, esgrimista que participará do florete individual e por equipes no Pan.

A atleta brasileira refere-se a Miaknovich Guennady, o treinador russo que é contratado pelo Esporte Clube Pinheiros e vai acompanhar os atletas brasileiros ao México - a Rússia tem 26 medalhas de ouro na esgrima em Olimpíadas. Algumas de suas orientações ainda têm palavras em russo, que os atletas precisam decifrar muitas vezes com gesto. “Mas a técnica que você adquire supera essa barreira”, disse Rochel.

A língua ainda é algo que constrange o cubano Luís López, do levantamento de peso. Técnico que já rodou a América do Sul preparando halterofilistas, ele parou agora no Brasil, há dois meses, para trabalhar com os atletas da seleção brasileira. O objetivo é a longo prazo, as Olimpíadas do Rio, em 2016, mas o Pan será o primeiro teste da equipe sob orientação de López.

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“Para formar um grande profissional é preciso de oito a 12 anos de trabalho intenso. O Brasil tem atletas com potencial para isso, mas é preciso paciência e trabalhar garotos desde pequenos”, disse López ao iG . Cuba tem quatro medalhas em Olimpíadas no levantamento de peso.

Luís López, entre os halterofilistas Fernando Reis (esq.) e Wellison Silva
Divulgação
Luís López, entre os halterofilistas Fernando Reis (esq.) e Wellison Silva

Desde 2001, quando o COB passou a ter dinheiro federal para investir no esporte, houve o aumento de oito para as 22 confederações com treinadores de fora (contando as de Inverno). De 2004 até 2010 houve o aumento de 21 para os 52 técnicos que terminaram a temporada passada trabalhando com brasileiros.

Ricos e pobres

Técnico da seleção de basquete, Rubén Magnano estará no Pan de Guadalajara
Divulgação/CBB
Técnico da seleção de basquete, Rubén Magnano estará no Pan de Guadalajara
Em janeiro de 2010, o argentino Rubén Magnano assumiu a seleção brasileira de basquete masculino. Campeão olímpico em 2004 com a Argentina, ocupou o posto de outro estrangeiro, o espanhol Moncho Monsalve, e tinha um objetivo traçado: levar o Brasil de volta a uma Olimpíada depois de 16 anos. Ele conseguiu, ao ficar em segundo no Pré-Olímpico de agosto, dentro do seu país.

“O Magnano é super competente. Avalio que defensivamente o Brasil evoluiu com ele”, disse o ala/pivô Guilherme Giovannini, quando a delegação desembarcou em São Paulo após a classificação. No feminino, a CBB (Confederação Brasileira de Basquete) também testou um “gringo”, o espanhol Carlos Colinas, sem o mesmo sucesso. Hoje um brasileiro, Énio Vecchi, garantiu a presença da seleção feminina em Londres-2012, ao vencer o Pré-Olímpico de Neiva, na Colômbia .

O basquete recebeu em 2010 do COB, por meio da Lei Agnelo/Piva, R$ 1,73 milhão. Pelas regras de repasse, o dinheiro pode ser usado para construção ou aluguel de CT, contratação de comissão técnica, compra de equipamentos e viagens para participação de torneios. Gastar (bastante) dinheiro com treinadores estrangeiros, que teoricamente vão melhorar a qualidade de treinamentos, é incentivado pelo COB.

Esportes não olímpicos, mas que participam do Pan, têm mais dificuldade para investimento em mão de obra estrangeira. Caso do boliche , que recebe o repasse de um fundo que o COB tem para aquelas confederações não olímpicas. Em 2010 entrou no caixa pouco mais de R$ 100 mil.

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“Se você analisar que os profissionais de boliche nos EUA faturam até US$ 1 milhão (R$ 1,8 milhão), fica difícil contratar alguém para preparar a equipe”, disse Geraldo Couto, presidente da Confederação Brasileira de Boliche e quem vai chefiar a delegação em Guadalajara.

E já que a montanha não vem... Com o dinheiro investido, Marcelo Suartz pôde fazer um intercâmbio nos EUA e lá trabalhar com treinadores e jogadores da potência norte-americana. A previsão é que os brasileiros possam repetir o Pan de 2007, no Rio, e ficar com a prata. Atrás dos EUA...

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