Treinando no exterior, custeados por caridade, 12 atletas do Haiti em Guadalajara superam tragédia de 2010 em sua terra natal

Terça-feira, 12 de janeiro de 2010, 16h53min10s, horário de Porto Príncipe, Haiti. Momento exato de uma tragédia que deixaria centenas de milhares de mortos , transformaria uma capital em um amontoado de escombros e marcaria a memória de um país. Sexta-feira, 14 de outubro de 2011, data da abertura oficial dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. Em meio à beleza de uma cerimônia impecável, uma delegação pouco assediada pelos parcos resultados entra no estádio Omnilife. São 12 os guerreiros haitianos que representarão uma nação abalada contra potências esportivas das Américas.

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Vicente Seda/iG
Tenista Olivier Sajous vive nos EUA e venceu em sua estreia no Pan-Americano
Fritz Fong Gerald é o chefe de missão deste grupo. Estava em sua academia em Pétionville no momento em que o Haiti balançou. No bairro nobre e pouco afetado pelo tremor em Porto Príncipe , demorou alguns minutos para se dar conta da dimensão da catástrofe. Ao tentar narrar o momento, ele para. Gagueja. Desiste. Desculpa-se. Em seguida, reconhece: atualmente, o Haiti só consegue competir em eventos como o Pan de Guadalajara graças à ajuda de outros países. Não há, em sua terra natal, como treinar em alto nível.

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Os atletas do judô se preparam na Espanha, os do levantamento de peso na República Dominicana, os do atletismo e do tênis nos Estados Unidos. Graças a uniformes doados, instalações esportivas emprestadas e à caridade pecuniária de outras nações, o esporte de Porto Príncipe sobrevive, ainda que espalhado pelo planeta.

“Por causa desses países que nos ajudaram, pudemos participar dos CAC Games (Jogos da América Central e Caribe, na sigla em inglês) com 17 atletas em Porto Rico. Quase todos os nossos locais de treino e competição foram destruídos. Obviamente não era a prioridade recuperá-los. Temos um novo governo, a transição foi difícil e provavelmente eles têm coisas mais importantes a fazer. Mas creio que o novo ministro do esporte estará aqui em alguns dias. É um ótimo sinal para o esporte no Haiti”, analisa.

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O chefe de missão lembra também do drama de alguns dos atletas, como Moise Joseph, que correrá os 800 m rasos. Histórias de fazer escorrer lágrimas são mais do que comuns nesta delegação. “Acho que todos os haitianos perderam algum amigo ou membro da família. Foram mais de 300 mil mortos. Praticamente todos os atletas perderam alguém. No atletismo , o Moise Joseph não conseguia contatar ninguém da sua família por quase dois meses, estava desesperado. Quando finalmente conseguiu voltar ao Haiti, encontrou seu pai na rua.”

Fritz Fong Gerald é o chefe de missão do Haiti no Pan
Vicente Seda/iG
Fritz Fong Gerald é o chefe de missão do Haiti no Pan
Um desses 12 guerreiros também aceita conversar com o iG . Depois de estrear no Pan com vitória sobre o venezuelano Roman Recarte, por 2 sets a 1, o tenista Olivier Sajous, de 24 anos, sente fome, mas afirma que ela pode esperar. Deixa o jantar para depois em razão de declarações que acredita poder fazer conterrâneos acreditarem que um futuro melhor é possível.

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Ele deixou o Haiti rumo à Miami por problemas anteriores ao terremoto. Em 2005, sua irmã caçula e sua mãe foram sequestradas nas ruas mal iluminadas de Porto Príncipe. Desde então, vive na América do Norte. O tema machuca: “Não quero falar a respeito. O que não te mata, te faz mais forte. É tudo o que posso dizer sobre isso”, conclui.

“A minha família teve sorte. Perdi um primo no terremoto, mas não era muito próximo. Na verdade, aquilo tudo me atingiu mesmo uma semana depois. É o meu jeito. As minhas emoções chegam depois. Estava jogando um torneio e de repente não queria mais. Abandonei uma partida. Não sou assim. Foi muito duro. Tirei uns dias de folga, não queria nem pensar em tênis. Foi difícil não apenas achar o meu pai, que estava em Porto Príncipe, mas pensar em todas aquelas pessoas que tiveram de passar por aquela tragédia”, lembra, contando que seu pai, apesar de também ter ido morar nos Estados Unidos, voltava com freqüência ao Haiti para visitar parentes.

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Nem mesmo o otimismo de Olivier, que sonha com as Olimpíadas de Londres , é capaz de cicatrizar uma ferida tão profunda. “Sinto-me longe de casa, de vez em quando dá vontade de voltar, aproveitar as raízes. É bem difícil ficar jogando apenas fora do seu país, treinando fora do seu país, morando fora do seu país. Cresci lá.”

E por que Olivier continua a entrar em quadra? Ele responde. “É o amor pelo jogo, o apoio dos meus pais. Aqui em Guadalajara estou indo partida a partida, o meu objetivo é claro que é vencer, chegar às Olimpíadas, mas, mesmo que não consiga, espero poder inspirar outras crianças no meu país. Tudo é possível, siga os seus sonhos.”

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