Adorado pelos mexicanos, brasileiro sofre resistência de alguns atletas por causa do caso do doping

Cesar Cielo foi o “cara” da primeira semana dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. Em um evento esvaziado, já que os EUA não levam seus principais esportistas na maioria das modalidades, o brasileiro bicampeão mundial, recordista nos 50 m livre e campeão olímpico nesta mesma prova era figurinha carimbada em outdoors e só não aparecia mais na imprensa mexicana do que os atletas do país-sede. Toda essa tietagem se repetiu entre alguns nadadores, com um porém: alguns deles ainda desconfiam da absolvição de Cielo, que encarou neste ano um exame antidoping positivo para furosemida , que mascara outras substâncias dopantes.

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A única que aceitou “dar a cara para bater” sobre o assunto foi a argentina Virgínia Bardach , que até disputa algumas provas no Brasil. Ela afirmou que Cielo foi absolvido – na verdade, ele foi advertido – porque é um esportista famoso e recordista. Outros nadadores preferiram não se envolver em polêmica, e o próprio Cielo disse não ter lido a entrevista e preferiu não comentar. Após o Mundial, em julho em Xangai, o francês Fabien Gilot ironizou dizendo que Cielo tinha um bom advogado. Depois, o brasileiro foi defendido pelo amigo, e também francês, Frederick Bousquet.

“Ele foi julgado e acabou”, disse o argentino Lucas Del Picollo, que disputou os 50 m contra o brasileiro. O terceiro colocado na prova, o cubano Hanser Garcia, seguiu na mesma linha. "É uma honra dividir raia com ele”, disse.

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Se há mal-estar, como escancarou Bardach, pelo menos entre os homens foi velada neste Pan-Americano. Cielo parece tranqüilo, apesar de sempre se referir ao caso como “o golpe que levou”. Sua defesa foi que houve contaminação na farmácia que produz um suplemento que toma antes de provas, a CAS (Corte Arbitral do Esporte) aceitou a tese e apenas o advertiu – outros três nadadores foram flagrados e apenas Vinicius Waked foi suspenso, por um ano, por ser reincidente. Com isso, Cielo pôde disputar o Mundial de Xangai, em julho.

“Isso (a suspeita de doping) fez eu ficar mais forte mentalmente. No Mundial de Xangai, ainda estava recente, e mesmo assim consegui dois ouros (50 m borboleta e 50 m livre) . O pessoal chegou a dizer que não fui bem, mas acho que igualar outro Mundial não é tão bom”, disse Cielo, irônico. Em Roma 2009, ele também ganhou dois ouros, mas nos 50 m livre e nos 100 m livre, prova que terminou apenas em quarto lugar em 2011.

Astro
A torcida mexicana normalmente já torce para o Brasil , simpatia que começou em 1970, ano que o país venceu a Copa do Mundo mexicana ficando quase todo o tempo concentrada em Guadalajara. Com Cielo esse carinho foi dobrado. Quando seu nome era anunciado pelo alto falante, o frisson começava. Nos 100 m livre, vencido pelo brasileiro na segunda-feira, a torcida gritou todo o tempo como se um mexicano nadasse.

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“É bom ver que o pessoal gosta do que faço. Não acho que sou estrela, ou principal estrela. Tenho bons resultados, mas outros nadadores e até atletas que estão aqui também têm”, disse Cielo. O companheiro Thiago Pereira, por exemplo, o mister Pans (até agora em Guadalajara foram seis medalhas, quatro de ouro, uma de prata e uma de bronze) , quase nem é reconhecido fora da piscina.

“Ele voa na piscina, impressionante”, disse o mexicano Oswaldo Terez, que estava acompanhando as provas de natação na noite de quinta-feira. A frase saiu momentos depois de Cielo ficar com quase um corpo na frente de Bruno Fratus, o segundo colocado nos 50 m livre, algo incrível para uma prova que dura pouco mais de vinte segundos.

A vitória nessa prova fez com que o Brasil conquistasse o quinto nos 50 m livre em Pans – desde que entrou na grade (em 1995, em Mar Del Plata), sempre um brasileiro venceu na distância (três vezes com Fernando Scherer e duas vezes com Cielo).

“Nem sabia disso. Bom, pelo menos está em casa”, brincou.

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