Tamanho do texto

Equipes brasileira e americana de tiro esportivo e tiro com arco consideram absurda a relação do esporte com violência

Entre as dezenas de modalidades no programa dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, duas em especial lutam contra o preconceito de quem tem pouca intimidade com o assunto. Pelos menos esta é a opinião dos chefes de equipe e dos atletas que defendem o Brasil nos esportes que incluem o uso de armas: o tiro esportivo, que até esta quinta-feira rendeu cinco medalhas para o país, e o tiro com arco.

Leia também: Para competir no tiro, é preciso disciplina, concentração e dinheiro no bolso

Luiz Fernando Graça conquista o bronze na fossa olímpica dublê
Getty Images
Luiz Fernando Graça conquista o bronze na fossa olímpica dublê
Não é de se estranhar. Disparos com munição real assustam, ainda mais quando partem de uma espingarda calibre 12. O barulho é ensurdecedor. Mas basta um olhar mais cuidadoso para perceber que os instrumentos de competição pouco têm a ver com as ferramentas do crime.

Chefe de equipe do Brasil e ex-atleta do tiro com pistola, Ricardo Brenck admite que existe o preconceito e afirma que o motivo é a ignorância. “O nosso instrumento de trabalho é parecido com o de atos de violência. Mas, se for observar, usamos calibre 12 e 22, além do chumbinho, que não tem restrições. Esses calibres dificilmente seriam usados no crime, especialmente o 22”, disse, mostrando à reportagem do iG o treino de tiros de carabina, que praticamente não fazem barulho. “Não serviriam nem para assustar”, brinca.

Leia também: Medalhista brasileiro teve a ajuda do pai pelo telefone

Outro constrangimento é na hora de desembaraçar as armas de competição nas alfândegas mundo afora. “Demoramos quatro horas para conseguir retirar as armas aqui no México, mesmo com o Pan. A munição foi comprada aqui, mas isso por causa do peso que as companhias aéreas não aliviam”, conta. “É comum ouvirmos brincadeira como: ‘Nossa, você é atirador! Então se apontar, acerta no olho!’. Quando é que um esportista apontaria uma arma para alguém? Isso não existe”.

Brasileiro com vaga garantida nas Olimpíadas de Londres , em 2012, Filipe Fuzaro fez referência ao assassinato de crianças em uma escola em Realengo, no Rio, e também culpou a mídia pelo preconceito. “A forma de divulgar a notícia muitas vezes é errada. Dizem que um atirador matou crianças, mas o cara nunca foi atirador, é um assassino. A gente lida com essas coisas como brincadeira quando é brincadeira.”

Leia também: Tiro ganha a medalha brasileira de número 250 em Pans

Em um país onde a lei para o armamento de cidadãos, pela própria cultura nacional, é bem mais permissiva do que no Brasil, o chefe da equipe de tiro americana, Robert William, também considerou absurdo relacionar as armas de competição à violência.

“Seria como comparar um canhão com um estilingue. Então tem de associar o beisebol à violência também, o indivíduo pode rachar a cabeça de outro com o taco. Não é assim. Notou algum desentendimento aqui (na área de competição)? Isso é esporte. A maioria dos nosso atiradores são estudantes dedicados. O nível de educação é alto. Para ser muito bom, é preciso ter um excelente controle mental”, destaca.

Conheça os integrantes brasileiros do tiro esportivo em Guadalajara

Segundo William, boa parte dos membros da equipe gosta de caçar, mas a introdução no esporte acontece através dos próprios pais. “Normalmente começam quando o pai os leva a um clube de tiro, para ensinar defesa pessoal, e acabam gostando e se dedicando”.

No tiro com arco também há preconceito por ser considerado um esporte que pode ter acidentes. Rubens Terra Neto, chefe da delegação brasileira da modalidade em Guadalajara, contou ao iG que eles têm acesso facilitado somente em clubes militares. “Temos que dividir o campo sempre com o futebol no clube, então você imagina como é difícil. Muitos lugares não abrem a porta imaginando que possa acontecer um acidente, por causa da flecha. Os militares não, eles ajudam e temos treinado bastante em clubes militares”, disse Neto.

Acompanhe o quadro de medalhas do Pan 2011

Neto contou que há muito tempo não ocorre um acidente no Brasil. Os tiros são dados do lado contrário da arquibancada – no estádio exclusivo do esporte no México há um paredão atrás. Acidentes acontecem, segundo ele, de duas maneiras: ou o arco quebra antes do tiro, causando alguma lesão no atleta, ou o competidor vai retirar a flecha do alvo e acaba se espetando.

“É raro. O esporte é seguro, mas sofremos com esse preconceito”, completou.