Maratonista avisa que vai em busca do ouro em Guadalajara e tem orgulho dos tempos em que corria atrás de caminhões de lixo

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Solonei Rocha da Silva foi de gari à seleção em apenas dois anos
A primeira corrida de Solonei Rocha , percorrendo 3.300m de chuteiras, lhe rendeu dores que o fizeram deixar o atletismo de lado por dois anos. Não levava o esporte a sério, trabalhava em um curtume, e gostava mesmo de uma boa pelada de futebol. O apreço pela corrida se tornou mais forte apenas em outubro de 2009, há exatos dois anos, quando foi morar em Bragança Paulista e passou a treinar com um dos principais técnicos do país. Tempo suficiente para que o então catador de lixo, que já corria atrás dos caminhões de coleta, chegasse à seleção brasileira de atletismo, modalidade na qual o Brasil começa, neste domingo, a busca por medalhas no Pan de Guadalajara . E Solonei quer o ouro.

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Nascido e criado em Penápolis, no interior de São Paulo, ele foi levado para a primeira disputa no atletismo por um amigo com quem trabalha secando couro. Venceu a corrida entre os funcionários da sua empresa, nas ruas da cidade, mas as dores musculares, agravadas pelo calçado pouco apropriado, o impediram de trabalhar no dia seguinte.

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“A minha estreia foi meio dolorosa porque eu não tinha feito nenhum treino específico. Dor normal, não tinha preparação adequada. Logo de cara eu corri de chuteira society, então ajudou a piorar mais ainda a situação. Corri num domingo de manhã e entrava 6h no dia seguinte, e não conseguia trabalhar. Resolvi não me arriscar mais. Aí fiquei dois anos longe das corridas”, conta o agora maratonista com gás de sobra para suportar 42km de percurso nos 1.500m de altitude de Guadalajara , após dois meses de preparação.

Trocado que empolgou
Após os 24 meses sem correr, uma prova de 10km foi anunciada em Penápolis, e Solonei não resistiu. Desta vez, de calçados mais apropriados, ficou em terceiro, terminando o percurso na casa dos 40 minutos e recebendo o incentivo que o levou a querer seguir em frente: R$ 100.

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“Aí despertou a minha curiosidade de conhecer o atletismo. Comecei a correr no interior de São Paulo, em Araçatuba, Bauru, e comecei a ganhar a maioria das corridas de rua. Despertei o interesse de algumas pessoas e fui correndo. Teve uma corrida de rua em Araçatuba que fiquei em quarto colocado, e os três primeiros eram profissionais. Então comecei a fazer umas comparações do meu tempo em alguns sites, e eu não estava muito longe da elite. Foi quando comecei a perceber que tinha vocação”, lembra.

Corrida atrás de caminhões de lixo

Solonei então deixou o curtume e foi trabalhar em uma oficina de caminhões. Lá, soube de um concurso público em Penápolis para gari. Seis meses depois, chamado para trabalhar, conseguiu unir a função aos treinos. Narra a história com humor de quem sempre sorriu para as adversidades esperando que a vida lhe devolvesse a gentileza.

“Mesmo no trabalho eu continuava correndo, quando dava para treinar eu treinava, mas trabalhava correndo atrás dos caminhões de lixo, então já era um treino”, brinca, sem segurar o riso. “Depois peguei um professor de ginástica artística, que era professor de educação física e começou a me orientar. Ele já tinha praticado corrida de rua. Então me passava uma noção mais aprofundada do que tinha de fazer.”

Mudança de cidade e técnico de ponta

O primeiro teste diante de um profissional, contudo, bateu na trave. Com uma virose, Solonei não rendeu e, logo, não agradou. “Pedi umas férias antecipadas para treinar para a São Silvestre, fui bem nos treinos, mas na maratona não consegui fazer muita coisa. Depois de um tempo surgiu a chance de fazer um teste em Bragança Paulista e não passei, estava com uma virose. Um ano depois eu voltei para outro teste e pedi afastamento. Já tinha cinco empresários me ajudando com R$ 100 cada.”

Desta vez, o teste foi com Clodoaldo Lopes do Carmo, treinador do principal meio-fundista do país, Kleberson Davide . A carreira decolou. Hoje segundo no ranking brasileiro, atrás apenas de Marílson dos Santos , ele chegou à posição em abril deste ano, após terminar a maratona de Pádova, na Itália, em 2h11min32, tempo que acha difícil repetir em Guadalajara . No Pan , em função da altitude, está mais preocupado com a colocação do que com a velocidade.

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“Na Itália era nível do mar, condições climáticas muito boas. Aqui tem o fator da altitude e mesmo com dois meses de preparação, para quem já vive aqui é muito melhor. Se fosse no nível do mar, com a preparação que fiz, daria para pensar em superar o tempo que fiz em abril”, analisa.

Indagado sobre sonhos, Solonei não se atreve a desejar mais nada. Aguarda, humilde, as surpresas que o futuro lhe reserva. “Só de estar integrando uma seleção brasileira é um fato que para muitas pessoas pode parecer comum, mas é uma grande vitória. Tenho muito orgulho de ter sido gari, mas se pensar que há pouco tempo eu estava catando lixo e hoje estou no Pan representando o meu país com chance de medalha, não é pouca coisa. O meu sonho principal é estar em uma Olimpíada, claro, é o sonho de todo atleta. Mas já me considero vitorioso”, afirma. O Brasil também.

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