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Feira tem caixões de papelão da empresa que fez móveis da Vila do Pan, urnas biodegradáveis e até cassino no lugar do defunto

Hector Jaramillo fez sucesso com o seu
Vicente Seda
Hector Jaramillo fez sucesso com o seu "Casket bar" na exposição funerária
Os centros de imprensa e de operações do Pan-Americano dividem o pavilhão do Expo Guadalajara, uma espécie de Riocentro mexicano, com uma exposição inusitada. A poucos metros do detector de metal na entrada das áreas reservadas aos Jogos, uma exposição funerária voltada para fornecedores atrai muitos curiosos. Pudera. Não são apenas caixões comuns que figuram nos estandes da "Expo México Funerário", que termina nesta terça-feira. Há até ataúdes sustentáveis, de papelão, produzidos pela E3, a empresa que fabricou os móveis do mesmo material para a vila do Pan .

Uma das organizadores do evento, Teresa Rodriguez contou que é a primeira feira deste porte no país e que a ideia não é atrair consumidores, pois os preços de fábrica são algo que os vendedores não fazem questão de divulgar. Entre caixões, urnas, líquidos para embalsamar, fornos crematórios e carros de luxo adaptados para carregar defuntos, ela fala com desenvoltura e mostra uma visão interessante sobre o tema.

“A morte me dá medo, claro, mas quando lembro dela valorizo mais a vida, poissei que vai acabar. Estou acostumada já, antes de entrar no mercado funerário játinha uma boa relação com a morte”, contou, mostrando a carroça antiga e o Hammer adaptado para as práticas funerárias. O setor de veículos é outro ponto forte da feira. “Não existem carros feitos de fábrica para isso, são todos adaptados. Essa carroça mostra como era antigamente, mas hoje é só para enfeitar”.

O encerramento do evento terá peça teatral com monólogo de atriz brasileira, Renata Loinaz, que representará o texto “Nos llego a hora (Chegou a nossa hora)”, doargentino Darío L. Camacho, com direção da mexicana Elvira Ruiz. As conferências do evento também são das mais curiosas: “Embalsamar, suas tendências, segurança e vantagens” é uma delas, além de “A boa morte: a tanatologia (parte da medicina legal que se ocupa da morte) como marketing funerário”.

Caixões de papelão suportam até 300kg e são adornados a gosto do cliente
Vicente Seda
Caixões de papelão suportam até 300kg e são adornados a gosto do cliente
Em um estande perto do cartaz que anunciava a peça, caixões de papelão chamavam atenção, adornados com imagens de Nossa Senhora de Guadalupe, patrona mexicana, e com capacidade para suportar até 300kg. O caixão com a imagem da santa sai por módicos 3.200 pesos mexicanos, mas o produto ainda está em teste. A dona da empresa, Monica Albaran, afirmou que colocou o artigo na exposição para sentir a reação do mercado. “Estamos colhendo ideias e recebemos muitas. É um produto sustentável, feito com material reciclável e biodegradável”, explicou.

Um pouco mais adiante, um presente fatal para quem ainda não passou dessa para uma melhor. O “Casket bar”, ou bar caixão, é exatamente o que diz o nome.Bebidas, Black Jack, poquer, roleta e até uma tela de 32 polegadas de alta resolução, integrada com sistema Blue Ray, ocupavam o espaço reservado anteriormente ao defunto. O clipe que passava na tela naquele momento não poderia ser mais apropriado: “Thriller”,de Michael Jackson, tirado do DVD "This is it".

“É uma maneira diferente de ver um caixão. É um produto único, custou cerca deUS$ 6.500 para fazer, mas acho que a raiz desse evento é trazer coisas fora dousual. Tive a ideia a partir de uma imagem de internet que vi”, disse o diretorda Jarquin Coffins, Hector Jaramillo, que está rifando o produto. São 100 rifasde 950 pesos mexicanos cada. Ele aponta as estranhíssimas opções. “Pode servir para uma casa de campo, ou mesmo a moradia de algum excêntrico. Eu colocaria no meu estúdio”, garantiu.

Já na saída do evento, uma empresa espanhola com nome bem apropriado, Limbo,apresenta outras soluções curiosas para quem quer ajudar o meio ambiente atédepois de virar pó. Pablo Belda, dono da companhia, mostrou diversos tipos deurnas funerárias biodegradáveis. Para jogar no mar, a urna é feita de sal. Para o rio, de areia da praia. E, se a intenção for enterrar, que seja com uma semente para fazer brotar uma nova vida.

Bem regada, a urna de terra comprimida se dissolverá em até 30 dias e dali surgirá uma nova árvore. As de areia e sal se dissolvem em 15 minutos. Há ainda um outro tipo, feito de cortiça dos bosques sustentáveis da Espanha, também usada para rolhas de vinho. Se há quem se preocupe com a natureza na hora de morrer, certamente não falta quem se preocupe com outro tipo de verde, o que vem em cédulas.