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Aos 20 anos, Jéssica da Dalt Cândido acredita que competição no Pan será resolvida nos detalhes

Aos 20 anos, Jéssica da Dalt Cândido é a caçula da equipe brasileira de caratê. Com 49 quilos e 1,50m, a aparente fragilidade é proporcional a sua simpatia e espontaneidade. Mas a suposta delicadeza contrasta imediatamente com a predileção que essa mineira de Pouso Alegre demonstra por torneios difíceis, como o que ela espera da competição no Pan. “Acho que todas as lutas serão extremamente duras. Mas tem que ser assim, porque todas as competidoras estão ali atrás de um sonho. E gosto é de campeonato assim, difícil”, diz Jéssica. Os Jogos Pan-Americanos serão disputados na cidade de Guadalajara, no México, de 14 a 30 de outubro.

Antes de atender a reportagem do iG, Jéssica se entretinha escolhendo as roupas que compraria para uma festa de casamento a que vai. Segundo ela, uma das raras chances que tem de comparecer a eventos sociais da família por causa da falta de tempo com treinos e competições. E é bom que aproveite porque, recém-chegada de dois torneios na Europa, Jéssica está de viagem marcada para o dia 18 de outubro para Cabo Frio, no Rio de Janeiro, onde fará a preparação final para os jogos de Guadalajara. O embarque para o México será no dia 21, e o torneio de caratê será realizado nos dias 27 e 28 de outubro.

Sobre a possibilidade de medalha, Jéssica não perde a sobriedade e prefere ser cautelosa, sem deixar de falar do seu sonho. “Estou treinando bastante, mas todas as competidoras sabem que será um torneio difícil. Todas estarão na disputa. Dá para tentar, e é o que mais quero. O que mais sonho é com o ouro, e as expectativas são boas, mas haverá atletas de alto nível”, analisa ela.

Jéssica não espera surpresas em relação às possíveis adversárias no Pan. Ela diz conhecer bem todas as suas rivais de outros torneios, como o Sul-Americano e o Pan-Americano da modalidade, e revela que o equilíbrio traz alternância de vitórias e derrotas entre as competidoras. “Uma hora ganha uma, outra hora ganha outra. E, no Pan, acho que vai ser assim: quem estiver no seu dia, vai ganhar”, aposta a atleta.

Começo e final precoces
A esportista revela que começou a praticar caratê ainda criança, aos seis anos. Seu irmão treinava numa academia e ela sempre acompanhava o pai quando ele ia buscar o rapaz ao final das aulas. Sempre enérgica, a menina vivia brincando pela academia e chamou a atenção do professor, João Batista Rodrigues. Ela conta que, ao final de uma das aulas, ele decidiu falar com o pai da garota e sugeriu que também a menina praticasse o caratê. “Nem sabia o que estava fazendo”, brinca a atleta. “Mas meu pai até me incentivou, por ser uma defesa pessoal”, acrescenta ela, que diz ter feito aulas de natação, balé, jazz e até de axé antes do início nos tatames. Jéssica também não desconfiava que a parceria com o professor perduraria por tanto tempo: já são 15 anos de trabalho juntos.

E trocar a piscina e a dança por uma arte marcial não intimidou a garota. “Não me assustou. Era algo diferente do que havia tentado até então. E também nunca imaginei ser campeã mineira, brasileira e disputar tudo que disputei”, revela Jéssica. Mas não demorou muito para que a menina começasse a demonstrar aptidão para o esporte. Aos sete anos, ela já estava na Bahia para disputar o campeonato brasileiro. Foi vice-campeã. Na edição seguinte do torneio, no Rio de Janeiro, o título não escapou.

Os anos passaram e a atleta foi pouco a pouco escrevendo sua história de vitórias. Foram seis títulos brasileiros (99/04/05/06/09/10), quatro conquistas sul-americanas (06/07/08/09), quatro Pan-Americanos de Caratê (06/07/08/09) e a medalha de prata nos Jogos Sul-Americanos de Medellín, em 2010.

Mas Jéssica faz uma revelação surpreendente que, ao mesmo tempo, diz muito sobre quanto o Brasil engatinha em termos de apoio ao esporte: ela pretende encerrar a carreira assim que terminar os estudos universitários. A mineira está no terceiro ano de fisioterapia na Universidade do Vale do Sapucaí, e o curso tem quatro anos e meio de duração. “Meu plano é juntar as duas coisas - a formação e o esporte - e trabalhar na área de fisioterapia esportiva. Gosto do caratê, mas isso não é emprego. Talvez se a gente tivesse mais apoio, se o caratê fosse um esporte olímpico. Mas, para a estabilidade da minha vida futura, tenho que estudar mesmo".

Apesar de ter planos curtos para o futuro no caratê, Jéssica resolveu participar do projeto idealizado por seu professor. Ela dá aulas de caratê para crianças de comunidades de baixa renda da região em que mora. Com o apoio da UniLab, que patrocina a atleta, o projeto busca formar futuros esportistas, como a pequena Maria Cecília, pupila de Jéssica que, aos 9 anos, já é tricampeã brasileira. Mas, mais do que isso, Jéssica acredita no potencial do esporte para o futuro das crianças. “Acho que o esporte de uma forma geral, e o caratê em particular, pode transmitir vários valores que andam esquecidos. Esse mundo anda de ponta-cabeça. Acho que é um bom começo para ir formando o futuro deles, longe das drogas."