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Sydney 2000: Nada que reluz é ouro

Veja as principais passagens dos Jogos Olímpicos disputados na Austrália

iG São Paulo

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Não adiantou nada a campanha dos cidadãos de boa-fé lembrando que não houve ano 0 da era cristã e que, portanto, o século e o milênio só começariam em 2001. A humanidade deu uma demonstração notável de rebeldia coletiva e decidiu que era o novo milênio sim, senhor. Portanto, por decreto quase-unânime, aqueles foram os Jogos do Novo Milênio e não se falou mais nisso.

A verdade é que, se o milênio já tivesse mesmo começado, agradeceria a forma como Sydney lhe deu as boas vindas: foi a Olimpíada mais organizada e próspera da história, com participação de 199 dos 200 membros do COI, além de quatro atletas do Timor Leste - que oficialmente ainda nem tinha bandeira e hino.
Incrivelmente, até a Coréia do Norte e a Coréia do Sul embarcaram no espírito olímpico e desfilaram sob uma mesma bandeira na cerimônia de abertura. A única ausência foi do Afeganistão, proibido de participar, numa retaliação ao regime do Taleban (mas isso já está sendo resolvido há quase sete anos, felizmente).

Depois da melhor Olimpíada de nossa história, em Atlanta-1996, e alavancados por uma enxurrada de medalhas nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg-1999 (que ninguém lembrou de avisar que eram contra adversários fracos), a performance na Austrália trouxe uma sensação incômoda e historicamente familiar ao Brasil. Uma frustração por perceber que nossa hora de estourar sempre parece, cada vez mais claramente, que está chegando. Mas ela nunca chega.

Adriana Behar e Shelda, campeãs mundiais de vôlei de praia. Robert Scheidt, campeão olímpico e tetra mundial da classe Laser. Gustavo Kuerten, bicampeão de Roland Garros, se aproximava da condição número um do mundo. O futebol, com Vanderlei (ou era Wanderley?) Luxemburgo, voava com Ronaldinho e Alex. Rodrigo Pessoa e o cavalo Baloubet du Rouet vinham de um inédito tricampeonato na Copa do Mundo de hipismo. Pelas credenciais, o total de 12 medalhas foi até compatível. O frustrante, imensamente frustrante, foi ainda assim ver o País lá embaixo no quadro de medalhas (que, no fim das contas, é quem entra para a história), atrás das Bahamas, de Moçambique, da Estônia. Com toda essa pompa e esses favoritos, não conseguimos nenhuma medalha de ouro. Nada.

Perdemos as seis finais que disputamos, que resultaram em seis pratas: Scheidt; Behar/Shelda; Zé Marco/ Ricardo (vôlei de praia); os judocas Tiago Camilo (leve) e Carlos Honorato (médio) e o revezamento 4 x 100m rasos. Os seis bronzes vieram de Adriana Samuel e Sandra Pires (vôlei de praia); Torben Grael e Marcelo Ferreira (classe Star); do revezamento 4 x 100m nado livre masculino; do salto por equipes no hipismo e do basquete e do vôlei femininos.
Foi bom, claro. Mas foi horrível.

Fogo na pira! | 10 fatos que marcaram aqueles Jogos

01 - Difícil escolher o episódio mais notório na série de frustrações brasileiras. Um dos títulos mais certos, o de Robert Scheidt na classe Laser, foi barrado por uma tática que, aos nossos olhos sedentos de ouro, pareceu coisa de Dick Vigarista: o britânico Ben Ainslie se dedicou a última regata toda unicamente a bloquear o caminho de Scheidt. Deu certo e, com a má colocação de ambos, o ouro foi de Ainslie. O brasileiro recorreu, e só após quatro horas o resultado foi confirmado. A prática do britânico irrita, mas é recorrente no iatismo. O próprio brasileiro já fez o mesmo.

02 - Muita gente interpretou como uma lição de moral irônica e divina, ensinando que o caminho do ouro para um Brasil iletrado e banguela não estava num cavalo francês de milhões de dólares com nome de vinho tinto. O fato é que, na volta final da prova dos saltos, o cavalo tricampeão da Copa do Mundo Baloubet du Rouet disse “tô fora”. Quase passou por cima do obstáculo três vezes para deixar claro que não ia ser ele, francês e rico, que ia nos tirar de nosso miserê olímpico. Rodrigo Pessoa, favoritíssimo ao ouro, se conformou em passar os quatro anos seguintes vendo o verbo “refugar” se tornar popular no País, e o nome de seu cavalo substituir o de Ronaldo Fenômeno como sinônimo de “amarelão”.

03 - Àquela altura, a dupla Adriana Behar e Shelda já era considerada a melhor da história do vôlei de praia, com três títulos seguidos do circuito mundial e rumando firme para o quarto. Tudo correu como esperado até a final contra as australianas Cook e Pottharst – adversárias que as brasileiras haviam derrotado 14 vezes em 17 encontros. Behar e Shelda saíram na frente em ambos os sets, mas acabaram derrotadas: 12-11 e 12-10.

04 - O título no Pré-Olímpico encheu a equipe de Vanderlei Luxemburgo de confiança, tanto que nem o lobby de Romário mudou a intenção de não chamar nenhum jogador acima de 23 anos. De forma duvidosa, chegamos às quartas, mas lá tudo ruiu, inclusive a carreira na Seleção de Luxemburgo – que passava por investigações nada edificantes na Justiça. Contra Camarões, tivemos um homem a mais desde os 30 do 2º tempo e, no último minuto, empatamos com Ronaldinho, de falta (que saiu batendo no peito e garantindo: “eu sou f...”). Outro camaronês foi expulso, mas ainda assim perdemos a cabeça (sobretudo Lúcio, que a acertou na testa de Roger) e outra vez fomos eliminados por um gol de um time africano na morte súbita.

05 - Provavelmente o maior nome individual daqueles Jogos, a norte-americana Marion Jones ganhou de tudo: 100m, 200m, ambos revezamentos e bronze no salto em distância. E, recentemente, perdeu mais do que tudo: após admitir que consumia substâncias dopantes desde antes da Olimpíada e que estava envolvida até o pescoço com o laboratório Balco, ela perdeu todas as suas medalhas e, em janeiro de 2008, foi condenada a seis meses de prisão por ter mentido à Justiça durante as investigações. Isso tudo aconteceu (e não foi descoberto pelos exames) naquela que foi a primeira Olimpíada com presença da Wada (Agência Mundial Anti-Doping) e a primeira com exames de sangue.

06 - Nenhum palco teve mais emoção do que a piscina olímpica de Sydney: foram 15 recordes mundiais batidos e uns tantos heróis. Ian Thorpe, de 17 anos, venceu os 400m livre e os revezamentos 4x100m e 4x200m livre, mas foi surpreendido nos 200m por Pieter van den Hoogenband. O holandês bateu duas vezes o recorde mundial – na semi e na final – e venceu o ouro, que repetiria nos 100m livre. Outro nome da Holanda, Inge de Bruijn, foi ainda mais longe: ela ganhou os 50m e 100m livre e os 100m borboleta, todos com novos recordes mundiais.

07 - Houve também quem ficasse famoso não pela velocidade, mas pela vagarosidade: um dos atletas de países pequenos e pobres convidados para os Jogos, Eric Moussambani, da Guiné Equatorial, deveria disputar uma bateria dos 100m livre com outros dois competidores de seu nível, mas ambos queimaram a largada. O rapaz, que havia começado a nadar fazia apenas 8 meses e nunca havia visto uma piscina de 50, mergulhou sozinho e, mesmo sem o menor traquejo para a natação, mandou ver e completou o trecho em 1min52s72 – mais do que o dobro do recorde mundial estabelecido por Pieter van den Hoogenband. Moussambani ganhou status de herói olímpico, conseguiu condições de treinar e abaixou seu tempo em mais de 1min. Devido a um problema com seu visto, porém, não pôde ir a Atenas-2004.

08 - O Dream Team acordou do sonho: na semifinal, se a Lituânia tivesse acertado uma bola de três no último segundo, teria acabado com a invencibilidade olímpica dos profissionais norte-americanos da NBA. Os EUA ganharam e, na final contra a França (aquela em que Vince Carter deu uma das enterradas mais humilhantes da história), retomaram o controle e saíram campeões. Mas já era um presságio do que estava por vir nos anos seguintes.

09 - Não é que a seleção de vôlei feminina fosse claramente favorita, mas o modo como as garotas caíram foi de doer: outra vez na semi, de novo diante das mesmas cubanas que haviam protagonizado uma guerra em Atlanta-1996 – quando as provocações terminaram em bafafá, cubanas dando safanão, exame de corpo de delito e daí para baixo. Antes mesmo de o tie-break acabar, algumas de nossas garotas já tinham lágrimas nos olhos. Cuba não era mesmo um adversário qualquer: elas chegaram à final, bateram as russas e alcançaram o inédito tricampeonato olímpico.

10 - Uma das poucas situações que pode gerar animosidade num país boa-praça como a Austrália é a situação da população aborígine – historicamente deixada de lado e vítima de preconceito. Qualquer chance de que isso acontecesse foi dissipada logo na cerimônia de abertura: a velocista Cathy Freeman, de origem aborígine, foi a escolhida para a acender a chama olímpica. Dez dias depois, sua vitória foi uma das mais celebradas pelo público australiano em toda a Olimpíada.

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