Seul 1988: Na jaula do tigre

Por iG São Paulo

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Organizar a Olimpíada foi para a Coréia do Sul a grande chance para se exibir como uma nova nação na turma dos ricos. Sucesso dos Jogos só teve uma mancha: o doping do velocista Ben Johnson

Ben Johnson venceu os 100m rasos no dia 24 de setembro de 1988. Não valeu
Simon Bruty/Getty Images
Ben Johnson venceu os 100m rasos no dia 24 de setembro de 1988. Não valeu


O Muro estava de pé, mas já cambaleante. Começávamos a entrar na era em que o mundo deixava de se dividir entre capitalistas e comunistas: a partir de então, era país rico ou país pobre. Mais nada.

As ditaduras, durante tanto tempo incentivadas e financiadas pelas duas superpotências em nome da “manutenção da ordem”, começavam a sair de moda. Mais do que acabar com a seqüência de grandes boicotes, a Olimpíada de Seul - a segunda disputada na Ásia, depois de Tóquio 1964 – serviu para ajudar a Coréia do Sul a voltar à democracia: o medo de que as crises no regime linha-dura de Chun Doo Hwan prejudicassem a organização dos Jogos e a imagem do país diante do mundo acelerou o processo de deposição do mandatário e o agendamento de eleições diretas, em dezembro de 1987.

Era a segunda Olimpíada asiática
EFE
Era a segunda Olimpíada asiática

Organizar a Olimpíada foi, para a Coréia do Sul, mais ou menos o mesmo que a China espera de Pequim 2008: sua grande oportunidade para se exibir para o resto do mundo como uma nova nação na turma dos ricos, industrializados, prósperos e, principalmente, abertos ao comércio. Naquele tempo, os “Tigres Asiáticos” eram o que a China é hoje - o país do futuro (fora o Brasil, claro, que é dono desse título mais ou menos desde o Dia do Fico).

Para não perder o hábito, houve mais um boicote: a Coréia do Norte, que oficialmente ainda estava em guerra com os anfitriões, se recusou a disputar – apesar de um convite do COI para que participasse ativamente da organização. Cuba, Etiópia e Nicarágua, que adoravam um bom boicote, acompanharam os norte-coreanos na decisão.

Mas os Jogos sul-coreanos não decepcionaram. Foram mais de 8 mil atletas de 159 países, 52 dos quais saíram de Seul com medalha – um recorde. Os mais de 27 mil voluntários asseguraram que a última Olimpíada da Guerra Fria só desse motivos para que o planeta falasse de esporte.

Quem estagnou um pouco em sua trilha de país do futuro foi o Brasil: com os dois blocos disputando uma Olimpíada outra vez, nossa produção foi ligeiramente inferior à de Los Angeles 1984: um ouro para o judoca Aurélio Miguel, duas pratas – para Joaquim Cruz nos 800m e a segunda seguida para o futebol – e três bronzes: Robson Caetano (200m rasos), Nelson Falcão e Torben Grael (classe Star) e Clínio de Freitas e Lars Grael (classe tornado).

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01 - A única verrdadeira mancha na Olimpíada de Seul –e que, como toda boa mancha, foi o episódio mais famoso do evento – foi o escândalo de doping do velocista canadense Ben Johnson. Três dias depois de derrotar o ídolo dos EUA Carl Lewis nos 100m rasos e pulverizar o recorde mundial, Johnson foi eliminado na prova, porque seu exame de urina continha vestígios do esteróide estanozolol. No futuro, Johnson admitiu sua culpa e perdeu também a medalha de ouro e o recorde mundial que conquistara no Mundial de Atletismo de 1987. No total, 11 atletas testaram positivo durante aquela Olimpíada.

Bebeto e Romário, eles mesmo, comemoram gol na final, mas deu prata
EFE
Bebeto e Romário, eles mesmo, comemoram gol na final, mas deu prata


02 - Agora com Carlos Alberto Silva como treinador, a seleção brasileira de futebol montou uma equipe mais recheada de nomes que ainda fariam muito sucesso. O time medalha de prata tinha, por exemplo, cinco jogadores que venceriam a Copa do Mundo de 1994 – Taffarel, Jorginho, Mazinho, Bebeto e Romário, que foi o artilheiro do torneio com sete gols. O Brasil perdeu a decisão para a URSS por 2 x 1 e adiou o sonho do único grande título que falta ao nosso futebol.

03 - Tornar-se o único atleta a vencer duas vezes seguidas tanto a prova de plataforma como a de trampolim nos saltos ornamentais já seria o suficiente para o norte-americano Greg Louganis fazer sua fama, mas as circunstâncias de sua façanha reverberaram seu nome de uma maneira que a modalidade, normalmente discreta, nem poderia imaginar. Na fase de classificação, Louganis acertou com a cabeça no trampolim e teve que superar o trauma para conquistar o ouro. No início da década de 90, o norte-americano – que já causara polêmica ao posar nu para a revista Playgirl – assumiu que era homossexual, que havia sido vítima de estupro e também que era portador do vírus HIV. Greg confirmou que já era HIV-positivo na época da Olimpíada de Seul, o que levou a especulações sobre como o sangue daquele seu ferimento poderia ter posto outros atletas em perigo – algo que foi negado por especialistas, que garantiram que, na água, o vírus não infectaria ninguém.

Joaquim Cruz, de volta ao pódio
Tony Duff/ALLSPORT
Joaquim Cruz, de volta ao pódio

04 - No tênis, conquistar o Grand Slam – ou seja, os quatro maiores torneios do mundo no mesmo ano – já é coisa para pouquíssimos. Mas o que a alemã Steffi Graf conseguiu aos 19 anos em 1988, por enquanto, é feito único e exclusivo dela: o “Golden Slam”. Na mesma temporada, além do Aberto da Austrália, de Roland Garros, Wimbledon e Aberto dos EUA, ela ainda faturou a medalha de ouro olímpica, ao derrotar a argentina Gabriela Sabatini.

05 - Em Los Angeles 1984, Florence Griffith ficou mais famosa pelas unhas compridas e psicodelicamente pintadas do que por sua prata nos 200m rasos. Quatro anos depois, já devidamente casada e agora Florence Griffith-Joyner – ou simplesmente “Flo-Jo” –, ela era a recordista mundial dos 100m rasos (com 10,49s, marca que permanece até hoje). Muito acima de suas competidoras, ela venceu os 100m e os 200m rasos, em que estabeleceu duas vezes o recorde mundial, que também continua sendo seu até hoje. Dez anos depois, aos 38, Flo-Jo teve uma morte assustadoramente brusca: sufocou-se enquanto dormia, num ataque epilético ocasionado por um angioma cerebral congênito. Desde então, há muitos boatos sobre o quanto a velocista evoluiu rapidamente naquele ano de 1988 e como o problema poderia ter sido algo relacionado ao consumo de esteróides. No entanto, nada nunca foi provado.

06 - Ainda não foi exatamente uma repetição da façanha de Mark Spitz em Munique-1972, mas foi quase: o norte-americano Matt Biondi também saiu de Seul com sete medalhas, mas não foram todas de ouro. Ele venceu os 50m e 100m nado livre, além dos revezamentos 4x100 e 4x200m livre e 4x100m medley. As outras duas medalhas foram um bronze nos 200m livre e uma prata nos 100m borboleta – prova em que ele chegou 0.01s atrás de Anthony Nesty, do Suriname. Nesty, aliás, conquistou a primeira medalha da história de seu país e foi o primeiro atleta negro a se sagrar campeão olímpico de uma prova de natação.

A levantadora Fernanda Venturini sinaliza
Bruce Hazelton/Getty Images
A levantadora Fernanda Venturini sinaliza

07 - Por muito pouco o soviético (mas que logo passaria a competir pela Ucrânia) Sergey Bubka não ficou com a insólita fama de maior de todos os tempos em sua modalidade – o salto com vara -, mas que nunca foi campeão olímpico. Em Seul-1988, ele esperou seus competidores aumentarem a altura do sarrafo um a um, até que resolveu entrar na briga, para ganhar, com 5,90m. Bubka esteve a um salto errado de ser eliminado, mas conseguiu superar a marca e foi campeão. Quatro anos depois, em Barcelona, ele fez o mesmo, mas desta vez se deu mal: errou as três tentativas e ficou de fora do pódio. Único nome do atletismo a conseguir seis títulos mundiais, Bubka mudou completamente os parâmetros da prova e, ao longo da carreira, quebrou o recorde do mundo 35 vezes. Até hoje, ninguém nunca saltou seus 6,14m.

08 - Enquanto Florence Griffith acrescentou o Joyner em seu sobrenome, sua cunhada, Jackie Joyner, ficou famosa para o mundo depois de casar-se com seu treinador, Bob Kersee. Prata no heptatlo em los Angeles-1984, nos Jogos sul-coreanos Jackie Joyner-Kersee era tão superior a suas competidoras reais que seu técnico e marido inventou uma rival fictícia: Wilhelmina World Record. Funcionou: a norte-americana levou o ouro e bateu o recorde mundial em 76 pontos. Na Olimpíada seguinte, em Barcelona, Jackie voltou a vencer o heptatlo, além de ter conseguido um bronze no salto em distância. Sua história olímpica acabou em Atlanta-1996, com outro bronze no salto em distância.

09 - Se estar entre os melhores do mundo em uma coisa é difícil, que tal conquistar duas medalhas no mesmo ano, em Olimpíadas diferentes? A alemã Christa Luding-Rothenburger fez isso em 1988: levou um ouro e uma prata nas provas de 1000m e 500m da patinação dos Jogos de Inverno de Calgary e, alguns meses depois, foi a Seul como ciclista e saiu com a prata no sprint de 1000m.

10 - Daquelas que deixam os entusiastas do espírito olímpico extasiados: na classe Finn do iatismo, Lawrence Lemieux, que era claramente canadense, estava em segundo lugar, rumando para conseguir uma medalha de prata, quando abandonou a regata para socorrer um adversário, que havia se lesionado. Lemieux terminou em 21º, mas em seguida foi saudado pelo COI e recebeu um prêmio especial por sua coragem e seu altruísmo.

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