Roma 1960: Jogos et circensis

Por iG São Paulo

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Uma erupção do Vesúvio estragou os planos da cidade para fazer os Jogos em 1908. Quando enfim chegou sua vez, Roma realizou uma grande competição e agradou a todos, de americanos a soviéticos

Wilma Rudolph, dos EUA, comemora ouro nos 200m, com Hyman (e) Leone (d)
Getty Images
Wilma Rudolph, dos EUA, comemora ouro nos 200m, com Hyman (e) Leone (d)


Como tudo já estava dividido em dois mesmo; como a bomba atômica podia estourar a qualquer momento, os Jogos Olímpicos seguiram um sábio pensamento: relaxa e joga.

Em Roma 1960, o mundo já se acostumara a estar repartido em duas frentes, e a política não teve vez: só serviu para atiçar algumas rivalidades, mas tudo dentro da esfera esportiva. Tanto que a maior atração daquela Olimpíada foi a própria cidade eterna. Era como se, séculos depois de os romanos dominarem tudo o que havia de planeta até então, fosse agora a vez de o planeta tomar conta de Roma e aproveitar sua herança histórica.

A capital italiana já deveria ter recebido os Jogos em 1908, quando a erupção do Vesúvio de 1906 estragou os planos. Mas valeu a pena esperar por um momento com mais estrutura para aproveitar a cidade: as provas de ginástica foram realizadas dentro das Termas de Caracalla; as de luta, na Basílica de Maxêncio e a maratona terminou no Arco de Constantino. Os cerca de US$ 30 milhões investidos por Roma – o que, na época, era um valor absurdo – tiveram eco. Os competidores voltaram encantados, e desta vez o mundo os acompanhou: a Olimpíada romana teve transmissão ao vivo por mais de 100 canais de televisão, além de emissão por videotape em 18 países europeus mais Canadá, Estados Unidos e Japão.

Como Adhemar Ferreira da Silva, aos 32 anos, já não dominava mais o salto triplo, o Brasil teve que esquecer o hábito de voltar para casa com medalha de ouro. Dos 81 atletas que viajaram, tudo o que extraímos foram dois bronzes: de Manuel dos Santos Júnior nos 100m nado livre e da seleção masculina de basquete, comandada por Wlamir Marques, Algodão e Rosa Branca.

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Bikila corre pelas ruas de Roma. Descalço, claro
EFE
Bikila corre pelas ruas de Roma. Descalço, claro

01 - O pugilista ganês Clement “Ike” Quartey se tornou o primeiro negro africano a conquistar uma medalha: a prata na categoria meio-médio-ligeiro. Cinco dias depois, o etíope Abebe Bikila levou a África a outro patamar e se tornou um dos grandes ícones olímpicos: incluído na delegação de última hora graças à lesão de um colega, ele não recebeu um par de tênis que lhe coubesse confortavelmente e decidiu correr a maratona como estava acostumado a treinar: descalço. Ouviu muita tiração de sarro do pessoal de adidas novinho, mas seguiu firme até vencer e virar história.

02 - Bem antes de ser um dos atletas mais famosos da história, quando ainda era um jovem de 18 anos e se chamava Cassius Marcellus Clay, o pugilista norte-americano que se tornaria mais célebre por seu nome islâmico Muhammad Ali conquistou uma medalha de ouro olímpica, na categoria meio-pesado. Segundo conta em sua biografia, o tricampeão mundial dos pesados teria jogado a medalha olímpica no rio Ohio, num acesso de raiva por ter sido proibido de entrar num restaurante “exclusivo para brancos”. Em 1996, já sofrendo de mal de Parkinson, Ali protagonizou a emocionante cena de acender a chama olímpica dos Jogos de Atlanta, durante os quais recebeu do COI uma réplica de sua medalha.

03 - O clima de antiguidade ganhou mais um elemento com o Hino Olímpico: a melodia que Spyros Samaras e Kostis Palamas compuseram para os Jogos de Atenas-1896 foi oficializada pelo COI como música-tema da Olimpíada, executada durante a cerimônia de abertura de todas as edições a partir de então.

04 - Vigésima (isso, 20ª!) filha de uma família pobre que teve 22 rebentos, a norte-americana Wilma Rudolph passou por poliomielite, febre escarlatina e duas pneumonias quando criança. Usou muleta até os 11 anos, antes de se tornar uma velocista de primeira, medalha de bronze aos 16 anos em Melbourne-1956. No auge da forma, ela foi o nome do atletismo nos Jogos de Roma, com medalhas de ouro nos 100m, 200m e 4x100m rasos. Depois de superar tanta coisa, sua batalha contra os problemas de saúde acabou tragicamente cedo: aos 54 anos, vítima de um tumor cerebral.

O cartas da primeira Olimpíada italiana
EFE
O cartas da primeira Olimpíada italiana

05 - Depois do maratonista português Francisco Lázaro, nos Jogos de 1912, a Olimpíada teve seu segundo caso de atleta que morreu durante a competição: o ciclista dinamarquês Knud Enemark, sob o efeito de um coquetel de anfetaminas, desmaiou, fraturou seu crânio na queda e horas depois teve sua morte anunciada, num hospital de Roma. O caso foi um dos grandes motivadores da criação de um comitê anti-doping dentro do COI.

06 - Com quatro medalhas de ouro seguidas na mesma prova, o iatista dinamarquês Paul Elvstrom, da classe Finn, registrou seu nome nos recordes olímpicos. Em Los Angeles-1984 e Seul-1988, ele voltaria a aparecer nos almanaques: junto de Trine Elvstrom, foi o primeiro conjunto de pai e filha a competir lado a lado nos Jogos.

07 - Já o canoísta sueco Gert Fredriksson e o esgrimista húngaro Aladar Gerevich foram mais longe: em Roma, levaram a sexta medalha de ouro consecutiva. Até hoje, Gerevich é o único a vencer a mesma prova em seis Jogos seguidos – o sabre por equipes.

08 - Ao terminar a primeira fase igualada com a Bulgária em todos os critérios de desempate, a seleção de futebol da Iugoslávia só ganhou a vaga na semifinal no sorteio. Eles aproveitaram a chance e, depois de três pratas consecutivas, conquistaram o ouro, ao derrotar a Dinamarca.

09 - Bill Roycroft, da equipe de hipismo australiana, fez uma impressionante passagem direta do leito do hospital para o topo do pódio: depois de se acidentar na prova de resistência - quando sofreu uma concussão e quebrou uma clavícula - Bill sabia que, se desistisse, seu país seria desclassificado. Ele levantou, participou do concurso de saltos e virou campeão olímpico.

10 - Dois futuros monarcas participaram das provas de iatismo: o príncipe Constantino da Grécia, que viria a ser o rei Constantino II, foi medalha de ouro na classe Dragon. Uma das reservas da equipe grega era a irmã de Constantino, Sofia da Grécia, futura esposa de Juan Carlos I e, com isso, Rainha da Espanha.

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