Como tudo já estava dividido em dois mesmo; como a bomba atômica podia estourar a qualquer momento, os Jogos Olímpicos seguiram um sábio pensamento: relaxa e joga.
Em Roma-1960, o mundo já se acostumara a estar repartido em duas frentes, e a política não teve vez: só serviu para atiçar algumas rivalidades, mas tudo dentro da esfera esportiva. Tanto que a maior atração daquela Olimpíada foi a própria cidade eterna. Era como se, séculos depois de os romanos dominarem tudo o que havia de planeta até então, fosse agora a vez de o planeta tomar conta de Roma e aproveitar sua herança histórica.
A capital italiana já deveria ter recebido os Jogos em 1908, quando a erupção do Vesúvio de 1906 estragou os planos. Mas valeu a pena esperar por um momento com mais estrutura para aproveitar a cidade: as provas de ginástica foram realizadas dentro das Termas de Caracalla; as de luta, na Basílica de Maxêncio e a maratona terminou no Arco de Constantino. Os cerca de US$ 30 milhões investidos por Roma – o que, na época, era um valor absurdo – tiveram eco. Os competidores voltaram encantados, e desta vez o mundo os acompanhou: a Olimpíada romana teve transmissão ao vivo por mais de 100 canais de televisão, além de emissão por videotape em 18 países europeus mais Canadá, Estados Unidos e Japão.
Como Adhemar Ferreira da Silva, aos 32 anos, já não dominava mais o salto triplo, o Brasil teve que esquecer o hábito de voltar para casa com medalha de ouro. Dos 81 atletas que viajaram, tudo o que extraímos foram dois bronzes: de Manuel dos Santos Júnior nos 100m nado livre e da seleção masculina de basquete, comandada por Wlamir Marques, Algodão e Rosa Branca.
Fogo na pira! | 10 fatos que marcaram aqueles Jogos
01 - O pugilista ganês Clement “Ike” Quartey se tornou o primeiro negro africano a conquistar uma medalha: a prata na categoria meio-médio-ligeiro. Cinco dias depois, o etíope Abebe Bikila levou a África a outro patamar e se tornou um dos grandes ícones olímpicos: incluído na delegação de última hora graças à lesão de um colega, ele não recebeu um par de tênis que lhe coubesse confortavelmente e decidiu correr a maratona como estava acostumado a treinar: descalço. Ouviu muita tiração de sarro do pessoal de Adidas novinho, mas seguiu firme até vencer e virar história.
02 - Bem antes de ser um dos atletas mais famosos da história, quando ainda era um jovem de 18 anos e se chamava Cassius Marcellus Clay, o pugilista norte-americano que se tornaria mais célebre por seu nome islâmico Muhammad Ali conquistou uma medalha de ouro olímpica, na categoria meio-pesado. Segundo conta em sua biografia, o tricampeão mundial dos pesados teria jogado a medalha olímpica no rio Ohio, num acesso de raiva por ter sido proibido de entrar num restaurante “exclusivo para brancos”. Em 1996, já sofrendo de mal de Parkinson, Ali protagonizou a emocionante cena de acender a chama olímpica dos Jogos de Atlanta, durante os quais recebeu do COI uma réplica de sua medalha.
03 - O clima de antiguidade ganhou mais um elemento com o Hino Olímpico: a melodia que Spyros Samaras e Kostis Palamas compuseram para os Jogos de Atenas-1896 foi oficializada pelo COI como música-tema da Olimpíada, executada durante a cerimônia de abertura de todas as edições a partir de então.
04 - Vigésima (isso, 20ª!) filha de uma família pobre que teve 22 rebentos, a norte-americana Wilma Rudolph passou por poliomielite, febre escarlatina e duas pneumonias quando criança. Usou muleta até os 11 anos, antes de se tornar uma velocista de primeira, medalha de bronze aos 16 anos em Melbourne-1956. No auge da forma, ela foi o nome do atletismo nos Jogos de Roma, com medalhas de ouro nos 100m, 200m e 4x100m rasos. Depois de superar tanta coisa, sua batalha contra os problemas de saúde acabou tragicamente cedo: aos 54 anos, vítima de um tumor cerebral.
05 - Depois do maratonista português Francisco Lázaro, nos Jogos de 1912, a Olimpíada teve seu segundo caso de atleta que morreu durante a competição: o ciclista dinamarquês Knud Enemark, sob o efeito de um coquetel de anfetaminas, desmaiou, fraturou seu crânio na queda e horas depois teve sua morte anunciada, num hospital de Roma. O caso foi um dos grandes motivadores da criação de um comitê anti-doping dentro do COI.
06 - Com quatro medalhas de ouro seguidas na mesma prova, o iatista dinamarquês Paul Elvstrom, da classe Finn, registrou seu nome nos recordes olímpicos. Em Los Angeles-1984 e Seul-1988, ele voltaria a aparecer nos almanaques: junto de Trine Elvstrom, foi o primeiro conjunto de pai e filha a competir lado a lado nos Jogos.
07 - Já o canoísta sueco Gert Fredriksson e o esgrimista húngaro Aladar Gerevich foram mais longe: em Roma, levaram a sexta medalha de ouro consecutiva. Até hoje, Gerevich é o único a vencer a mesma prova em seis Jogos seguidos – o sabre por equipes.
08 - Ao terminar a primeira fase igualada com a Bulgária em todos os critérios de desempate, a seleção de futebol da Iugoslávia só ganhou a vaga na semifinal no sorteio. Eles aproveitaram a chance e, depois de três pratas consecutivas, conquistaram o ouro, ao derrotar a Dinamarca.
09 - Bill Roycroft, da equipe de hipismo australiana, fez uma impressionante passagem direta do leito do hospital para o topo do pódio: depois de se acidentar na prova de resistência - quando sofreu uma concussão e quebrou uma clavícula - Bill sabia que, se desistisse, seu país seria desclassificado. Ele levantou, participou do concurso de saltos e virou campeão olímpico.
10 - Dois futuros monarcas participaram das provas de iatismo: o príncipe Constantino da Grécia, que viria a ser o rei Constantino II, foi medalha de ouro na classe Dragon. Uma das reservas da equipe grega era a irmã de Constantino, Sofia da Grécia, futura esposa de Juan Carlos I e, com isso, Rainha da Espanha.