Paris 1924: A segunda Olimpíada a gente nunca esquece. Nem o cinema

Por iG São Paulo

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A expansão dos Jogos segue em marcha, saltando de 29 para 44 países em competição, em seu retorno a Paris, inspirando o filme "Carruagens de Fogo". E também tivemos um Tarzan em competição

Retorno bem-sucedido à capital francesa
EFE
Retorno bem-sucedido à capital francesa



“Já é a segunda vez, mas a primeira foi tão doída que nem conta”: deve ter sido o que pensou o Barão Pierre de Coubertin, quando anunciou a decisão de que os Jogos novamente iriam para Paris. Mesmo depois do tremendo fiasco de 1900, a última edição com o Barão como presidente do COI foi em sua cidade-natal.

E, de fato, a segunda vez foi incomparavelmente melhor. Nunca os Jogos tinham se tornado mais internacionais de forma tão notável: de 29 países presentes quatro anos antes em Antuérpia, o número subiu para 44. Mais de 625 mil pessoas assistiram às provas e foram mais de mil jornalistas – entre mídia impressa e rádio – cobrindo o evento. Apesar disso tudo, a organização gastou tanto dinheiro em infra-estrutura que terminou tendo prejuízo: projetos como a construção do estádio de Colombes, para 45 mil pessoas, e do primeiro rascunho de Vila Olímpica da história (no caso, um conjunto de bangalôs de madeira) consumiram 10 milhões de francos. A arrecadação foi de pouco menos de 5,5 milhões de francos.

24 anos depois, a volta olímpica de Paris
EFE
24 anos depois, a volta olímpica de Paris

Os protocolos olímpicos também se consolidaram um pouquinho mais: a partir daquela cerimônia de encerramento, estabeleceu-se a tradição de içar as três bandeiras - do COI, do pais-sede daquela edição e do da edição seguinte. Foi também em Paris que o Comitê introduziu o uso de seu lema (em latim, porque na época ainda era cool): “Citius, Altius, Fortius”, ou “Mais Rápido, Mais Alto, Mais Forte”.

A Confederação Brasileira dos Desportos andava em crise financeira, e então sobrou para a Federação Paulista de Atletismo arrecadar fundos – segundo consta, por meio de subscrição pública (ou doação?) – para assegurar que a delegação viajasse à Europa. Foram 12 atletas, de remo, tiro e atletismo. Voltaram como foram: sem medalha nenhuma.

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01 - O melhor resultado do Brasil em Paris 1924 foi o quarto lugar dos irmãos remadores Edmundo e Carlos Castello Branco, na classe double sculls – que teve EUA, França e Suíça no pódio.

02 - Os Jogos de 1924 são mais conhecidos como “a Olimpíada do Carruagens de Fogo” (que, por sua vez, é mais conhecido pelo pianinho do Vangelis - o tan-ta-na-ta-nan-tan que virou trilha quase obrigatória de premiações esportivas). O filme, de 1981, ganhou quatro Oscars, inclusive o de melhor filme. Os atletas retratados são os britânicos Harold Abrahams, que venceu os 100m rasos, e Eric Liddell, ganhador dos 400m.

03 - Ainda na herança cinematográfica: Johnny Weissmuller ganhou três medalhas de ouro na natação e um bronze no pólo aquático e, na Olimpíada seguinte, ainda conquistaria mais dois títulos olímpicos. Terminada sua carreira como um dos melhores nadadores da história, ele derrotou 150 candidatos num teste para se tornar o Tarzan em Hollywood. Weissmuller fez 12 filmes entre 1932 e 48 e foi uma das maiores e mais bem-pagas estrelas de cinema de seu tempo.

Johnny Weissmuller (o mais alto da foto) ao lado do australiano Andrew Charlton na prova dos 400m livre
EFE
Johnny Weissmuller (o mais alto da foto) ao lado do australiano Andrew Charlton na prova dos 400m livre


04 - Medalha de bronze nos 100m livre, a norte-americana Gertrude Ederle a princípio seria um nome a ser esquecido. Sua fama mundial veio dois anos depois, quando se tornou a primeira mulher a cruzar o Canal da Mancha – e num tempo quase duas horas melhor do que o de qualquer homem.

05 - A então desconhecida seleção uruguaia de futebol viajou de navio na terceira classe e deu de cara com 18 seleções européias mais Egito, Estados Unidos e Turquia. Os sul-americanos surpreenderam o mundo com uma campanha perfeita e saíram com o ouro. Eles comemoraram dando uma volta na pista de atletismo ao redor do campo para saudar a torcida. E ali nascia a “volta olímpica”.

06 - Naquele ano de 1924, as regras do futebol passaram a permitir o gol marcado diretamente do escanteio. Em 2 de outubro, o recém-coroado campeão olímpico Uruguai enfrentou a Argentina e perdeu por 2 a 1, com um gol marcado desta forma pelo argentino Onzari. Para atazanar os rivais, os argentinos passaram a chamar aquele de “o gol olímpico”. E o termo sobreviveu até hoje.

07 - Uma espécie de prévia aos Jogos Olímpicos de Paris, a Semana Internacional de Esportes de Inverno foi realizada na cidade de Chamonix entre 25 de janeiro e 5 de fevereiro. Anos depois, o COI passou a considerar aquele evento como a primeira Olimpíada de Inverno da história.

08 - O francês Georges André era duro na queda. Já veterano dos Jogos de 1908 e 1912, ele serviu o Exército na Primeira Guerra Mundial, foi ferido gravemente, tentou fugir cinco vezes do hospital e, quando conseguiu, na sexta tentativa, voltou a se juntar aos aviadores. Ele então competiu – e ganhou um bronze no revezamento 4x400m – em Antuérpia e, em 1924, em sua cidade-natal, foi o escolhido para proferir o Juramento Olímpico. Depois de aposentado, quando a Segunda Guerra estourou, André quis voltar para o front. Já havia passado da idade para ser um piloto e, então, se alistou na infantaria. Em 4 de maio de 1943, ele foi morto perto da Tunísia, aos 53 anos.

09 - Foi a Olimpíada que revelou definitivamente a aptidão dos finlandeses para as corridas de longa distância. E o incansável Paavo Nurmi , que já tinha 3 ouros e uma prata de Antuérpia, foi a mostra mais clara: no dia 10 de julho, ele venceu os 1500m e, 55 minutos depois, voltou à pista para ganhar os 5000m. Dois dias depois ele conquistou o ouro nos 10000m cross-country e, no dia seguinte, os 3000m. Nurmi ainda queria defender seu titulo dos 10000m, mas os dirigentes finlandeses acharam que era demais inscrevê-lo em mais uma prova. Louco da vida, assim que chegou à Finlândia, Nurmi disputou uma prova de 10000m e bateu um recorde mundial que duraria 13 anos. Em 1928, ele completaria sua inacreditável marca de nove medalhas de ouro.

10 - Aquela foi a última vez que o tênis apareceu no programa olímpico até retornar em 1988. Os norte-americanos se aproveitaram e ganharam a medalha de ouro nas quatro provas.

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