Paris 1900: Olim... quê?

Por iG São Paulo

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A segunda edição dos Jogos não foi nem lá uma competição séria. Ao menos não em sua organização. O Barão de Coubertin admitiria: “É um milagre que o Movimento Olímpico tenha sobrevivido àquilo"

Dada a largada para a segunda edição dos Jogos Olímpicos
EFE
Dada a largada para a segunda edição dos Jogos Olímpicos


A verdade é que chamar de “segunda edição dos Jogos Olímpicos” o amontoado de torneios, bate-bolas e churrascadas que pipocaram aqui e ali em Paris durante cinco meses do ano de 1900 é uma tremenda forçação de barra e atende sobretudo a propósitos históricos e estatísticos, como tanta coisa nesta vida.

A intenção original do Barão Pierre de Coubertin quando criou o COI em 1894 era de realizar a edição inaugural dos Jogos coincidindo com a Exposição Mundial de 1900, em Paris. Parecia uma boa idéia para atrair atenção mídiática, mas o que o pai do espírito olímpico esqueceu de levar em conta foi o desinteresse que o esporte ainda gerava como negócio.

Depois de uma estréia de sucesso em Atenas-1896, em 1898 o COI foi obrigado a abdicar dos direitos de organizar aquela Olimpíada e os cedeu à direção da Exposição Mundial, cujo homem forte, Alfred Picard, achava o esporte “uma atividade inútil e absurda”.

A opinião se refletiu na maneira como os Jogos (não) foram organizados: pela primeira e única vez, não houve cerimônias de abertura e encerramento, e as instalações para a maioria das provas eram improvisadas. Enquanto a cidade se embasbacava com a Exposição -- que apresentava ao mundo novidades tão comoventes como o filme falado, a escada rolante ou as sopas enlatadas Campbell --, em nenhum lugar havia qualquer referência a “Jogos Olímpicos”: os cartazes falavam em “Concursos Internacionais de Exercícios Físicos e do Esporte”. Muita gente morreu sem sequer desconfiar que era campeã olímpica.

Os jogos foram realizados junto ao campo de Marte, por falta de instalações mais apropriadas
EFE
Os jogos foram realizados junto ao campo de Marte, por falta de instalações mais apropriadas


Mas houve lado bom; porque sempre há. O evento começou a interessar de verdade aos homens do mundo, afinal, foi a partir de Paris-1900 que dois elementos fundamentais passaram a fazer parte dos Jogos: as mulheres e o futebol (a cerveja já existia fazia tempo). Parece pouca coisa, e é mesmo. O Barão admitiria futuramente: “É um milagre que o Movimento Olímpico tenha sobrevivido àquilo.”

Fogo na pira! | 10 fatos que marcaram aqueles Jogos

01 - O americano Alvin Kraenzlein é o único a ter ganho quatro medalhas de ouro individuais no atletismo numa mesma Olimpíada. A do salto em distância, porém, lhe rendeu um olho roxo. Alvin e o conterrâneo Myer Prinstein haviam concordado em respeitar o dia de descanso e não competir nos domingos. Mas Kraenzlein foi à pista, bateu a marca do colega por 1cm e levou para casa a medalha dourada (além de um sopapo na cara).

02 - A primeira presença feminina na história dos Jogos foi no torneio de croquet, que, segundo os alfarrábios, teve público pagante de uma única e elegante pessoa: um senhor britânico. (se você não assistiu a “Alice no Pais das Maravilhas” e, portanto, não está familiarizado com o croquet – favor não confundir com “crochê” -, clique aqui).

03 - Já a primeira campeã olímpica da história foi a britânica Charlotte Cooper, que já era tricampeã de Wimbledon quando conquistou o torneio de tênis feminino. Ela foi outra que morreu sem saber que aquilo que tinha vencido era uma Olimpíada.

04 - A maratona foi uma comédia de erros: o 5o colocado garante que ninguém o ultrapassou; outro sujeito diz ter sido atropelado por uma bicicleta quando chegava nos lideres, dois franceses. Para piorar, no futuro se descobriu que o vencedor, Michel Theato, não era francês nem nunca foi, mas sim de Luxemburgo.

05 - No remo, uma artimanha de última hora da dupla holandesa fez de um anônimo o medalhista mais jovem da história – com idade estimada entre 7 e 11 anos. Para ter o barco mais leve, os holandeses puseram como timoneiro um garoto que andava à toa por ali. A equipe ganhou o ouro, mas o menino desapareceu logo depois da foto de premiação. Até hoje, ninguém sabe quem era o sortudo.

06 - O torneio de futebol foi na verdade um pequeno festival amistoso envolvendo tres clubes: o Upton Park, da Grã-Bretanha; o Club Française, da França, e o Université de Bruxelles, da Bélgica. Na época não houve distribuição de medalhas, mas o COI hoje considera os ingleses como primeiros campeões olímpicos.

07 - Acredita-se também que o primeiro atleta negro a participar dos Jogos – e a conquistar medalha – tenha sido o franco-haitiano Constantin Henríquez de Zubiera. Depois de ajudar a sua equipe a ficar com a prata no cabo-de-guerra, ele fez parte da equipe francesa que levou o ouro no rúgbi.

08 - Pois é isso aí: cabo-de-guerra. Foi nessa modalidade que o jornalista dinamarquês Edgar Aaybe, enviado especialíssimo para cobrir os Jogos, precisou completar a equipe na última hora e acabou campeão olímpico. E não, não houve disputa de queimada, bilboquê, nem bola de gude.

09 - Vítima de paralisia infantil, o americano Ray Ewry começou a se exercitar aos 10 anos e acabou se tornando um ás dos saltos . Só que na época ainda se saltava parado, sem tomar impulso. Ewry foi bicampeão dos saltos triplo, em distância e em altura em 1900 e 1904. Quando o triplo saiu do programa em 1908, ele ganhou as outras duas.

10 - Os irmãos Lawrence e Reggie Doherty chegaram às semifinais de simples no tênis, mas Lawrence - tetracampeão de Wimbledon - se negou a jogar contra o irmão mais novo e menos talentoso. O garotão agradeceu, foi à decisão e saiu vencedor.

Acompanhe diariamente no iG uma série especial sobre a história das Olimpíadas com textos leves, bem-humorados, mas que registram os 10 principais fatos de cada edição.

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