Moscou 1980: Olimp pela metade

Por iG São Paulo

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Como resultado de boicote incentivado pelos Estados Unidos que envolveu dezenas de países, as Olimpíadas moscovitas foram as menores desde Melbourne 1956. E o Brasil se aproveitou disso

A famosa mascote Misha não viu a delegação norte-americana em Moscou
EFE
A famosa mascote Misha não viu a delegação norte-americana em Moscou


Em dezembro de 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão (cujo governo do Talibã, na época, foi financiado e armado até os dentes pelos Estados Unidos, que em 2001 invadiram o Afeganistão para derrubar o governo do Talibã, porque afinal ele estava armado até os dentes).

Enfim, a URSS invadiu o Afeganistão. Como represália, o presidente norte-americano Jimmy Carter anunciou um pacote de ações políticas, que incluía boicotar os Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou. Para os atletas dos EUA, não havia opção: quem tentasse ir à Olimpíada e fosse descoberto, teria o passaporte cancelado. Alguns outros países se alinharam declaradamente à posição norte-americana – como Alemanha, Canadá e Japão – e outros se manifestaram a favor, mas deram a seus atletas a opção de fazer o que preferissem – casos de França, Grécia e Reino Unido.

O cartaz dos Jogos soviéticos era vermelho, claro
EFE
O cartaz dos Jogos soviéticos era vermelho, claro

Como uma viagem até Moscou era coisa cara, e havia muitos comitês olímpicos em situação financeira complicada, não se sabe com precisão quantos foram os países que realmente boicotaram os Jogos. Historiadores das Olimpíadas situam o número entre 45 e 50. O fato é que o número de nações competindo, 80, foi o menor desde Melbourne 1956.

Mas, não dá para dizer que o evento moscovita foi um fracasso - nem comercial, nem técnico. Aliás, nada perto disso: em comparação com Montreal, houve mais recordes mundiais e mais ingressos vendidos. Segundo uma projeção feita na época pela agência de notícias Associated Press utilizando as melhores marcas de cada um dos países ausentes, mesmo sem o boicote o quadro de medalhas teria URSS e Alemanha Oriental no topo – obviamente, não com a mesma vantagem que tiveram.

A ausência de tanta gente facilitou um pouco a vida de países como o Brasil, que se classificou para mais modalidades do que nunca e enviou uma delegação recorde de 109 atletas. Com isso, alcançamos nosso melhor resultado também em número de medalhas: foram dois ouros vindos do iatismo - Alexandre Welter/Lars Sigurd Bjorkstrom na classe tornado e Marcos Pinto Rizzo Soares/Eduardo Henrique Penido na classe 470 -, além de dois bronzes, no revezamento 4x200m nado livre e de João Carlos de Oliveira, o “João do Pulo”, no salto triplo.

Não contar com algumas das grandes potências esportivas, inclusive a maior delas, não é bom para evento internacional nenhum. Mas, se o objetivo era fazer com que a Olimpíada de Moscou não entrasse para a história nem emocionasse o mundo, o boicote norte-americano deu errado. Para quem duvida disso, basta assistir à cerimônia de encerramento com o primeiro mascote olímpico que realmente ficou famoso, o ursinho Misha.

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01 - João do Pulo só ficou com o bronze no salto triplo depois de uma série de decisões controversas dos juízes da prova a favor dos soviéticos Jaak Uudmae e Viktor Saneyev. Das 12 tentativas do brasileiro e do australiano Ian Campbell, que também estava na briga, nove foram anuladas. Em um dos saltos queimados que chegaria a 17,40m – suficiente para o ouro -, João pediu para ver a marca de seu pé na linha branca. “Já limparam”, foi o que ouviu. E teve que sair com o 3º lugar, atrás dos donos da casa. Dois anos depois, o medalhista brasileiro precisou amputar sua perna direita, conseqüência de uma cidente automobilístico. João Carlos de Oliveira faleceu em 1999, aos 45 anos, vítima uma infecção generalizada decorrente de broncopneumonia e hepatite.

02 - Com tanto assunto diplomático, as bandeiras eram algo delicado. Muitos países que estavam mais próximos aos EUA do que à URSS, como França, Grã-Bretanha e Itália, decidiram participar dos Jogos, mas utilizando a bandeira dos cinco anéis e o hino olímpico como seus símbolos, tanto nas cerimônias de abertura e encerramento como no pódio. O governo da Nova Zelândia apoiou oficialmente o boicote, mas quatro atletas decidiram participar de forma independente, sob a bandeira do comitê olímpico do país. E, finalmente, no encerramento, os soviéticos não deram colher de chá: no lugar da bandeira dos EUA, próximos anfitriões, colocaram a da cidade de Los Angeles.

03 - Mais do que boicotar, os norte-americanos tentaram persuadir o COI a mudar a sede dos Jogos para Melbourne ou Atenas. Não tiveram sucesso e passaram para o plano B: contatar suas embaixadas em diversos países, para que organizassem algum grande evento esportivo no mesmo período, para concorrer com Moscou. A história toda foi desvendada por uma reportagem de 2004, do diário britânico Daily Telegraph (em inglês).

04 - Três dias antes da Olimpíada, na Universidade da Pensilvânia, 29 dos países que boicotaram a ida a Moscou inauguraram o Liberty Bell Classic, um grande evento de atletismo que ficou mais famoso como Jogos Olímpicos do Boicote. Em muitos casos, as marcas dos vencedores desse torneio foram melhores do que as dos campeões olímpicos.

A legendária ginasta romena Nadia Comaneci se exercita na barra fixa nos Jogos de Moscou
EFE
A legendária ginasta romena Nadia Comaneci se exercita na barra fixa nos Jogos de Moscou

05 - A participação do ginasta soviético Aleksandr Dityatin foi para quebrar todos os precedentes: ele ganhou medalha em todas as oito provas existentes (por equipes, individual geral e mais seis aparelhos) e se tornou o único atleta a atingir esse número numa mesma Olimpíada. Dityatin foi também o primeiro homem a repetir o que a romena Nadia Comaneci havia conseguido oito vezes em Montreal 1976: uma nota dez, no salto sobre o cavalo.

06 - Outro soviético fez miséria na ginástica: Nikolay Andrianov conquistou cinco medalhas e chegou a um total de 15 em sua carreira, que fazem dele o homem mais vitorioso da história olímpica. Também é dele o recorde de medalhas em provas individuais entre os homens: 12.

07 - Provavelmente o nome mais lendário do boxe amador em todos os tempos, o cubano Teófilo Stevenson chegou ao tricampeonato olímpico da categoria superpesado. Em todas as suas lutas olímpicas, a única que não terminou em nocaute foi a semifinal em Moscou contra o húngaro István Levai – que passou os três rounds dando voltas no ringue.

08 - Dois dos atletas mais famosos da delegação britânica, os meio-fundistas Sebastian Coe e Steve Ovett chegaram a Moscou como favoritos de suas provas: os 800m e 1500m rasos, respectivamente. Aliás, respectivamente nada, porque os dois acabaram trocando os papéis. Nos 1500m, em que estava invicto havia 45 corridas e dizia ter “90% de chances de ganhar”, Ovett terminou em 3º. E Coe, recordista mundial dos 800m, foi quem venceu aquela prova – mas perdeu os 800m para Ovett.

O gigante pivô soviético Vladimir Tkachenko vai para a cravada contra a Espanha
EFE
O gigante pivô soviético Vladimir Tkachenko vai para a cravada contra a Espanha

09 - Bronze em Munique 1972, o etíope Miruts Yifter, especialista nos 10.000m, não pôde viajar a Montreal 1976 devido ao boicote de seu país e, em Moscou, finalmente atingiu o sonho. Mas ele ficou famoso mesmo foi por ser o “gato” mais assumido da sua época: em 1980, dizia-se que sua idade estava em algum vago ponto entre os 33 e os 42 anos! Perguntado a respeito, ele se saía com um sensacional dito poético-camponês: “Os homens podem roubar meus frangos e podem roubar minhas ovelhas. Mas homem nenhum pode roubar a minha idade.”

10 - Não importava o barco, o soviético Valentyn Mankin sempre andava na frente: ele é o único iatista a se tornar campeão olímpico em três classes diferentes. Em 1968, no México, foi a classe Finn. Quatro anos depois, Munique 1972, venceu a Tempest – a mesma na qual foi prata em Montreal 1976. Ele finalmente encerrou uma carreira completa com outro ouro, em Moscou, na classe Star.

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