Montreal 1976: Se ele for, eu não vou

Por iG São Paulo

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Era tempo de usar o boicote aos Jogos Olímpicos como forma de demonstrar discordância política, e 28 países africanos se afastaram da competição mais cara da história, com prejuízo de US$ 2 bilhões

A vista do estádio olímpico de Montreal na abertura
EFE
A vista do estádio olímpico de Montreal na abertura


Em Munique 1972, a Olimpíada descobriu da pior forma possível quanto um ato podia prejudicá-la. Quatro anos depois, não houve ato. Mas os Jogos começaram a experimentar outra forma de prejuízo: por ausência. Vinte e oito países africanos inauguraram uma era em que, até a última hora, nunca se sabia bem quem iria ou não participar. Era tempo de usar o boicote aos Jogos Olímpicos como forma de demonstrar discordância política.

A questão, naquele caso, não tinha a ver com comunismo ou capitalismo, mas com a África do Sul – que estava banida de competições internacionais desde 1964 por causa de sua política de apartheid. As 28 nações africanas se recusaram a disputar os Jogos de Montreal em repúdio à presença da Nova Zelândia, cuja equipe de rúgbi havia rompido o pacto e acabara de retornar de uma excursão à Africa do Sul, onde havia disputado uma série de partidas contra os donos da casa.

Os Jogos com boicote
EFE
Os Jogos com boicote

Se esse tivesse sido o maior problema, para a organização canadense, estaria bom demais. Aquela Olimpíada se tornou um paradigma sobre o que uma cidade NÃO deve fazer quando organiza o evento: gastos exagerados, falta de planejamento e liberação de verbas de última hora. Estima-se que o governo tenha perdido algo em torno de US$ 2 bilhões, o que faz daquela edição a mais cara dos Jogos Olímpicos até hoje. Os contribuintes canadenses só terminaram de pagar a dívida olímpica em dezembro de 2006 (e olha que eles não sonegam imposto!)

A essa altura, os brasileiros já nem se davam o trabalho de procurar o país na parte de cima do quadro de medalhas. Como vinha acontecendo a cada Olimpíada depois de 1956, não chegamos nem perto de um ouro. Foram só dois bronzes: de João Carlos de Oliveira – o “João do Pulo” – no salto triplo e dos velejadores Reinaldo Conrad e Peter Ficker, da classe flying dutchman.

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01 - O placar eletrônico demorou para registrar a nota da romena Nadia Comaneci nas barras assimétricas e, quando o fez, causou consternação no público canadense: “1.00”. E então o locutor anunciou: nota dez. Pela primeira vez na história, alguém alcançava a perfeição numa prova de ginástica. Nem o placar eletrônico estava pronto para aquele fenômeno de 14 anos. Durante os Jogos, Nadia ainda repetiria a nota perfeita outras sete vezes e conquistaria cinco medalhas, três delas de ouro.

02 - Teve herói também na ginástica masculina: o japonês Shun Fujimoto. Japão e URSS lutavam ponto a ponto pelo título por equipes quando ele deslocou o joelho durante sua apresentação no solo. Ansioso para contribuir com a equipe na briga pelo ouro, ele escondeu a gravidade da lesão - que se mostraria bastante séria: uma fratura – e partiu para o exercício das argolas. Com uma excelente atuação cuja nota só caiu para 9,7 porque ele (compreensivelmente) se desequilibrou um pouco ao aterrisar, Fujimoto foi fundamental para o título de seu país. Anos depois, perguntado se faria tudo de novo, Shun fez cara de assustado e murmurou o equivalente japonês a “nem a pau!”.

03 - Em casa, o Canadá levou somente cinco medalhas de prata e seis de bronze. Até hoje, é a única vez em que o país anfitrião não conquista sequer uma medalha de ouro. Outro marco foi o ouro do pugilista Clarence Hill, que fez de Bermudas o país menos populoso (53.500 habitantes) a se tornar campeão olímpico.

O volante brasileiro Batista disputa bola com Juanito, da Espanha, em vitória por 2 a 1
EFE
O volante brasileiro Batista disputa bola com Juanito, da Espanha, em vitória por 2 a 1


04 - Além do boicote africano, outro entrevero diplomático envolveu a ilha de Taiwan, que foi proibida de se inscrever como “República da China” porque o Canadá já havia reconhecido oficialmente a “República Popular da China”. Apesar de os canadenses tentarem convencê-los garantindo que poderiam usar seu hino e bandeira, os taiwaneses não qusieram saber e não foram a Montreal. A República Popular da China, curiosamente, também não enviou ninguém.

05 - A chama olímpica chegou ao Canadá via satélite, de Atenas para Ottawa. Os pulsos eletrônicos derivados do fogo foram captados por um fio de telefone, conectado por sua vez a um satélite Intelsat. Com toda a aparelhagem, ninguém se lembrou de algum método para evitar um problema mais trivial: numa tempestade, a pira olímpica se apagou e, para contornar a situação, utilizou-se um prosaico isqueirinho. Em seguida, o fogo foi apagado de novo e substituído por um backup da chama original, que sempre fica guardado para esses casos (dá para acreditar?).

06 - O estádio olímpico se tornou um conhecidíssimo elefante branco em Montreal e, do apelido de “Big O” (com “0” de olímpico), o povo criou “Big Owe” (“Grande Dívida”). De fato, o prejuízo canadense fez com que o interesse em abrigar a Olimpíada diminuísse vertiginosamente nos anos seguintes. A situação só foi revertida depois de Los Angeles-1984, que foi um tremendo sucesso financeiro.

A soviética Olga Korbut no exercício de solo
Getty Images
A soviética Olga Korbut no exercício de solo

07 - Era muito estranho: ninguém tinha a impressão de que o soviético Boris Onischenko acertava seus adversários, mas o sensor na ponta de sua espada sempre apitava. Descobriu-se que o sujeito tinha armado uma trapaça na esgrima, e com isso a equipe soviética de pentatlo moderno foi inteira desclassificada. De volta à Vila Olímpica, a equipe de vôlei da URSS ameaçou jogar o vigarista pela janela se o encontrasse. Boris nunca mais foi visto.

08 - Muita gente atingiu marcas históricas na Olimpíada canadense: o italiano Klaus Dibiasi levou o terceiro ouro seguido nos saltos ornamentais, enquanto seus compatriotas Raimondo e Piero D’Inzeo fizeram história no hipismo ao disputar a 8ª edição seguida dos Jogos (desde 1948) e conquistar, somados, 12 medalhas. O russo Viktor Saneyev também chegou ao tricampeonato no salto triplo – e em todos os títulos teve um brasileiro ao seu lado no pódio.

09 - Os Estados Unidos dominaram as competições de boxe com aquela que é considerada por muitos a melhor equipe olímpica que já foi montada até hoje. Cinco pugilistas levaram o ouro: Sugar Ray Leonard, Leon Spinks, Michael Spinks, Leo Randolph e Howard Davis Jr. Deles, apenas o último não se tornaria campeão mundial como profissional.

10 - Onde pela primeira vez o vencedor não foi nem norte-americano, nem de nenhum outro país anglófono, foi nas provas dos 400m e 800m rasos. O responsável pelo feito foi o cubano Alberto Juantorena, conhecido como El Caballo. Foi também a primeira vez que alguém ganhava essas duas provas na mesma Olimpíada.

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