Melbourne 1956: No inverno, migração para o Sul

Por iG São Paulo

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Disputa política nos bastidores pela sede leva o COI a uma decisão conveniente: enviar os Jogos para a Austrália, território neutro e o primeiro no nosso hemisfério. Adhemar Ferreira da Silva chega ao bi

Australiano Ron Clarico entra no estádio olímpico com a tocha
EFE
Australiano Ron Clarico entra no estádio olímpico com a tocha


Os Estados Unidos puxando de um lado, a União Soviética, do outro; colônias reclamando de metrópoles, ocidentais exigindo mais respeito no Oriente. No meio da confusão, o COI resolveu mandar todo mundo para... a Austrália! Não havia lugar mais longe e neutro para sediar a primeira Olimpíada realizada no hemisfério sul - o que significou também a primeira que aconteceu quando era inverno na Europa.

Por causa da distância, o número de atletas caiu consideravelmente com relação a Helsinque-1952 – de 4925 para 3342. As diversas desistências políticas também não ajudaram: por causa da crise do Canal de Suez, Egito, Iraque e Líbano não mandaram delegação. Em protesto à ocupação soviética da Hungria, Holanda, Espanha e Suíça boicotaram os Jogos. Duas semanas antes de a competição começar, a China também pulou fora, inconformada com a participação de Taiwan, sob o nome “Formosa”.

As dificuldades para chegar à Oceania refletiram no tamanho da delegação brasileira, de apenas 48 atletas. Só não passamos completamente despercebidos graças a Adhemar Ferreira da Silva – que conquistou o bicampeonato do salto triplo (representado nas duas estrelas douradas sobre o símbolo do São Paulo Futebol Clube, onde ele treinava).

As Olimpíadas no hemisfério Sul
EFE
As Olimpíadas no hemisfério Sul

Houve rebuliço político e dúvidas do COI quanto à capacidade da organização local – diante do atraso das obras, o presidente Avery Brundage chegou a pensar em levar os Jogos para Roma, que já estava mais adiantada pensando em 1960. Mesmo assim, os australianos conseguiram que sua primeira Olimpíada fosse levada para os arquivos como “os Jogos da amizade”, tamanho era o clima de camaradagem.

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01 - Foi em Melbourne que, seguindo a sugestão de John Ian Wing, um jovem carpinteiro, decidiu-se mudar o desfile de encerramento: no lugar da marcha das delegações, separadas, entravam todos os atletas juntos, como símbolo da união dos povos. No mundo real, os povos estavam tudo menos unidos, mas ao menos nasceu uma tradição simpática.

02 - Depois de Melbourne já ter derrotado Buenos Aires (por apenas um voto!) para ser sede da Olimpíada, a Austrália se deu conta de que suas leis de quarentena para animais estrangeiros eram severas demais para viabilizar a competição de hipismo. A solução foi levar todos os eventos hípicos para Estocolmo, na Suécia, em junho – cinco meses antes dos Jogos.

03 - O húngaro Laszlo Papp foi o primeiro boxeador a conseguir três medalhas de ouro olímpicas, na categoria meio-leve: o tricampeonato de Melbourne chegou com uma vitória sobre o norte-americano José Torres, que se tornaria campeão do mundo como profissional. Papp não teve a chance de disputar o título mundial depois de profissionalizar-se, porque as autoridades húngaras cassaram sua licença.

04 - Quando estava em pré-temporada nas montanhas, a equipe húngara de pólo aquático pôde ouvir o estrondo dos tiros em Budapeste durante a Revolução Húngara. O time fugiu para a Checoslováquia e, de lá, partiu para Melbourne – onde se inteirou dos detalhes do conflito. Por sadismo do destino, Hungria x URSS foi uma das partidas da fase final e é conhecida até hoje como o jogo de pólo aquático mais violento da história, ou “jogo do sangue na água”. Com 4 x 0 a favor dos húngaros e uma ressonância de insultos de fazer Materazzi corar, o craque do time magiar, Ervin Zador, levou um murro no olho e desatou a sangrar. A torcida, que no geral já simpatizava com a causa húngara, entrou em cena, doida para despedaçar os soviéticos. A polícia precisou limpar a área e encerrar o jogo um minuto antes do fim. Após os Jogos, metade da delegação da Hungria – cerca de 50 atletas – pediu asilo político.

Emil Zátopek enfim foi superado em pista
EFE
Emil Zátopek enfim foi superado em pista

05 - Depois de ficar três vezes com a prata nas provas dos 5.000m e 10.000m nas duas Olimpíadas anteriores – sempre perdendo para Emil Zátopek -, o francês Alain Mimoun, cansado de ser freguês, mudou para a maratona e desta vez levou o ouro. Ele esperou na linha de chegada até que Zátopek chegasse, em sexto, com problemas de hérnia. Depois de cruzar a linha, o checoslovaco parabenizou Mimoun, que declarou: “Para mim, aquele gesto valeu mais do que a medalha.”

06 - Dois atletas foram os grandes nomes das competições de ginástica: o soviético Viktor Chukarin ganhou cinco medalhas, incluindo três de ouro, e chegou a um total de 11 em sua carreira. No feminino, a húngara Agnes Keleti, aos 35 anos, chegou a um total de dez medalhas, com quatro ouros e duas pratas em Melbourne.

07 - Ninguém ainda tinha pensado no apelido dream team, mas os Estados Unidos já tinham a equipe com melhor retrospecto da história: liderados por KC Jones e Bill Russell, os norte-americanos ganharam o basquete masculino na maior tranqüilidade, sem nenhuma vitória por vantagem menor do que 30 pontos. Na final, 89 x 55 contra a URSS.

08 - Em casa, Dawn Fraser apareceu para o mundo como uma das maiores estrelas da natação mundial. Graças em boa parte a ela, a Austrália venceu todos os eventos de nado livre dos Jogos de 1956. Entre as 4 medalhas de ouro e 4 de prata da carreira de Fraser está o tricampeonato dos 100m nado livre, consolidado em Tóquio-1964.

09 - Campeã dos 100m e 200m rasos e do revezamento 4 x 400m, Betty Cuthbert instantaneamente se tornou “Golden Girl” para a torcida australiana. Em Roma-1960 ela se lesionou, mas em Tóquio-1964 voltou para vencer os 400m rasos e se tornar o único atleta, homem ou mulher, a conquistar uma medalha de ouro nas três provas de velocidade do atletismo: 100m, 200m e 400m rasos.

10 - Além de um nome tremendamente cool, a velocista Shirley Strickland de la Hunty é dona de uma coleção de sete medalhas olímpicas no atletismo – número que só seria superado em 2000, com a jamaicana Merlene Ottey. Naquele mesmo ano, De la Hunty foi uma das atletas que carregaram a tocha olímpica.

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