Los Angeles 1984: O que é isso, companheiros?

Por iG São Paulo

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Depois de Moscou, as Olimpíadas vão para os EUA. Aí foi a vez de os soviéticos boicotarem o evento, que caiu em nível técnico: as 14 nações que se recusaram haviam ganhado 58% dos ouro de 1976

A cerimônia de abertura de Los Angeles teve esquadrilha da fumaça
Getty Images
A cerimônia de abertura de Los Angeles teve esquadrilha da fumaça


A União Soviética, capitã do time do lado esquerdo, organiza uma Olimpíada e os Estados Unidos, que mandam no lado direito, fazem de tudo para que nenhum de seus comparsas participe. Quatro anos depois, quem recebe os Jogos são os norte-americanos, e adivinhe o que acontece? Desta vez, claro, quem boicotaria seriam os soviéticos, que arrastaram consigo o resto do bloco comunista.

O amigo mais sagaz há de se perguntar: mas, se o COI e o resto do planeta sabiam da picuinha entre os dois lados, por que diabos organizar duas Olimpíadas consecutivas, uma em cada uma das potências? A resposta está na desastrada e deficitária organização de Montreal para os Jogos de 1976. Depois do prejuízo de cerca de US$ 2 bilhões com o qual a cidade canadense teve que arcar, ninguém mais quis ouvir falar de receber a competição. Para 1980 e 1984, respectivamente, Moscou e Los Angeles foram candidatas únicas.

A segunda Olimpíada para Los Angeles
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A segunda Olimpíada para Los Angeles

Essa coisa de as cidades se estapearem (e fazerem lobby, e comprarem votos?) para conseguir sediar a Olimpíada só recrudesceu justamente depois de Los Angeles-1984, que teve um êxito financeiro sem precedentes.

Os norte-americanos utilizaram ao máximo as instalações que já existiam e, principalmente, não quiseram saber de dinheiro público: grandes empresas como McDonald’s e Coca-Cola foram os que tiveram que colocar a mão no bolso. As cotas publicitárias pagaram a conta e geraram um lucro de mais de US$ 200 milhões, o maior da história. Aquela Olimpíada deu cara ao formato adotado pelo COI até hoje – de se garantir cobrando (e muito) dos patrocinadores privados – e serviu de presságio para se saber qual modelo sobreviveria no planeta, se o capitalista ou o socialista.

Diferentemente do que acontecera em Moscou, o boicote aos Jogos de Los Angeles não chamou a atenção por diminuir o número de países participantes – que foram 140, um recorde –, mas sim por influir bastante no nível técnico de muitas provas. Para que se tenha uma idéia, as 14 nações que se recusaram a ir aos EUA haviam conquistado 58% das medalhas de ouro em disputa em Montreal-1976.

Quanto mais o pessoal boicotava, mais o Brasil aproveitava para aumentar seu retrospecto olímpico e chegar mais perto da imagem de potência olímpica com a qual sonhamos até hoje. Em Los Angeles, foram oito medalhas, coroadas com o ouro de Joaquim Cruz nos 800m rasos. O futebol ficou com a medalha de prata, assim como o vôlei masculino, que incluía Renan, Bernard, William e Bernardinho. O judoca meio-pesado Douglas Vieira, o nadador Ricardo Prado nos 400m medley e o barco da classe Soling (com Daniel Adler, Ronaldo Senfft, Torben Grael) também subiram no segundo degrau do pódio. O judô ainda trouxe dois bronzes, de Luís Onmura e Walter Carmona.

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01 - Depois de muito bate-boca, FIFA e COI chegaram a um acordo, e foi permitida a participação de jogadores profissionais no futebol, desde que nunca tivessem disputado uma Copa do Mundo. Com isso, o Brasil, comandado por Jair Picerni, fez do Internacional de Porto Alegre sua base e finalmente estreou no quadro de medalhas. Contando com Dunga, Mauro Galvão, Gilmar Rinaldi e algumas peculiaridades saudosas como Pinga e Gilmar Popoca, chegamos à final, mas fomos derrotados pela França por 2 x 0.

02 - A maior história dos Jogos, para o público norte-americano, foi a luta de Carl Lewis para repetir o feito de Jesse Owens em Berlim-1936 e conquistar quatro medalhas de ouro no atletismo. Lewis conseguiu o objetivo, vencendo exatamente as mesmas provas que o mito: 100m e 200m rasos, revezamento 4x100m e salto em distância.

Gabrielle Andersen-Scheiss, e uma imagem histórica para o esporte
EFE
Gabrielle Andersen-Scheiss, e uma imagem histórica para o esporte

03 - A idéia de que as mulheres não agüentavam correr longas distâncias demorou a se desfazer: apenas desde 1972 o COI havia incluído os 1500m – até então, eram apenas até 800m. Em Los Angeles, tudo mudou: teve, pela primeira vez, maratona feminina. A norte-americana Joan Benoit foi a vencedora, mas a responsável pela imagem inesquecível foi a suíça Gabrielle Andersen-Scheiss: exausta, com a perna direita quase imóvel e o braço esquerdo pendurado do corpo como se não fosse seu, ela levou 5 minutos e 44 segundos se arrastando para dar a última volta na pista do estádio. Cruzou a linha de chegada 20 minutos depois da vencedora e virou presença certa em todo clipe dos Jogos que quer emocionar o telespectador.

04 - No basquete, os profissionais da NBA só seriam permitidos a partir de Barcelona-1992, mas o time dos EUA que se tornou campeão com facilidade - derrotando os adversários por uma média de 32 pontos de vantagem – já tinha em seu elenco três jogadores que integrariam o dream team: Patrick Ewing, Chris Mullin e um certo garoto da Universidade da Carolina do Norte de nome Michael Jordan. Ele foi o cestinha da equipe na campanha, com média de 17 pontos por partida.

05 - Filho de pai alcoólatra e mãe prostituta, Edwin Moses já era um imenso vencedor por ter conseguido uma bolsa de estudos – por suas notas, não pelo atletismo – no Morehouse College. Em 1976, na primeira competição internacional de sua carreira, ele conquistou o ouro nos 400m com barreiras em Montreal. A partir daí, tornou-se imbatível: entre 1977 e 87, Moses venceu 122 corridas consecutivas, incluindo o ouro em Los Angeles, onde ele foi o escolhido para proferir o juramento dos atletas na cerimônia de abertura.

Jordan (ao fundo) estreou nas Olimpíadas. Oito anos depois, participaria do Dream Team
EFE
Jordan (ao fundo) estreou nas Olimpíadas. Oito anos depois, participaria do Dream Team

06 - Em Moscou-1980, os britânicos Sebastian Coe e Steve Ovett protagonizaram uma briga interessante nos 800m e 1500m - nas quais cada um levou um ouro. Quatro anos depois, ambos tiveram que lidar com problemas de saúde: Ovett sofria de um quadro sério de bronquite e, após chegar em 8º quando tentava defender o título dos 800m, desmaiou e passou duas noites no hospital. Já Coe teve sucesso em sua luta contra um nódulo linfático que baixava tremendamente sua resistência: superou-se nos 1500m e passou a ser o único bicampeão dessa prova na história.

07 - Com 2,01m de altura e uma envergadura de 2,11m com os braços abertos, o “Albatroz” Michael Gross, da Alemanha Ocidental, foi a principal atração das piscinas de Los Angeles, com duas medalhas de ouro (200m livre e 100m borboleta) e duas de prata (4x200m livre e 200m borboleta). Mas o dado mais curioso veio nos 400m livre com outro alemão: Thomas Fahrner venceu a “final B” – que define do 9º ao 16º lugar – com um tempo melhor do que o conseguido pelo medalha de ouro George DiCarlo na verdadeira final.

08 - Quando sofreu um acidente de moto e ficou paraplégica, a neozelandesa Neroil Fairhall jamais poderia pensar que um dia se dedicaria profissionalmente ao esporte e menos ainda que disputaria uma Olimpíada. Até que ela decidiu praticar arco-e-flecha e, numa época em que os Jogos Paraolímpicos ainda não existiam, se tornou o primeiro atleta deficiente físico a participar de uma Olimpíada. Atirando de sua cadeira de rodas, Neroli terminou em 35º.

O australiano Peter Hadfield compete no salto com vara
Tony Duff/ALLSPORT
O australiano Peter Hadfield compete no salto com vara


09 - Um dos mais premiados compositores de trilhas sonoras do cinema, John Williams foi o autor do Olympic Fanfare & Theme, o tema oficial daquela edição dos Jogos, que recebeu o Grammy de melhor composição instrumental.

10 - O McDonald’s criou a promoção “Quando os EUA ganham, você ganha”: uma raspadinha em que o consumidor tirava o nome de uma prova e ganhava prêmios se os norte-americanos tivessem conquistado medalha naquele evento: ouro valia um Big Mac; prata, uma batata frita e bronze, uma Coca-Cola. Com o boicote soviético, a lanchonete acabou gastando muito mais dinheiro do que esperava, já que os EUA conquistaram absurdas 174 medalhas. O episódio ficou tão famoso que foi parodiado num episódio dos Simpsons (em que o palhaço Krusty abre uma lanchonete e perde US$ 44 milhões de dólares por causa do boicote).

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