Los Angeles 1932: Não se deprima!

Por iG São Paulo

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A combinação da Grande Depressão com a sede na Costa Oeste dos EUA esvaziou um pouco os Jogos. Mas o nível técnico foi bom, com recordes. Os brasileiros? Precisaram vender café para chegar lá

O mundo estava de cama: sem vontade de fazer nada; frasco de remédios sobre o criado-mudo. Definitivamente mergulhado em sua Grande Depressão, desencadeada pelo crash de Wall Street três anos antes.

A segunda edição realizada na América
EFE
A segunda edição realizada na América

Dentro desse cenário, querer que todo o planeta se movimentasse em torno de uma competição esportiva custosa como os Jogos já seria pedir bastante. Para complicar, não apenas o evento saiu da Europa como ainda foi parar na costa oeste dos Estados Unidos. Ou seja, as nações européias, maiores fornecedoras de competidores para a Olimpíada, precisariam atravessar o Oceano Atlântico e ainda cruzar todo o território norte-americano para chegar à Califórnia. Resultado: o numero de competidores caiu pela metade com relação a Amsterdã 1928.

No entanto, nem assim a Olimpíada de Los Angeles pode ser considerada um fracasso. O nível técnico foi bom – e atestado disso são os 18 recordes mundiais estabelecidos – e a presença do público também. Cem mil pessoas lotaram o estádio olímpico (hoje chamado Memorial Coliseum) para a cerimônia de abertura. No lugar daquele festival de eventos diluídos em meses de competição, as atrações foram todas condensadas em 16 dias. O formato se mostrou o mais propício: desde aquela edição, a duração dos Jogos Olímpicos sempre variou entre 15 e 18 dias.

O Brasil, cuja tendência depressiva sempre foi notória e preocupante, sobretudo quando o assunto envolve economia, pouco tinha para oferecer ao mundo diante da crise. Para financiar a viagem da delegação, o Governo Federal precisou dar um jeito de torná-la financeiramente produtiva: a bordo do navio Itaquecê, da Marinha Mercante, os atletas precisaram trabalhar transportando 55 mil sacas de café e vendendo o produto em todos os portos do caminho até Los Angeles.

Aconteceu que a venda foi pior do que o esperado, e os chefes da delegação precisaram dar preferência àqueles atletas com mais chances. Para piorar, no porto de San Pedro, descobriu-se que havia uma taxa de um dólar para cada passageiro desembarcado. Nossa mirrada caixa-forte tinha exatos 32 dólares – e foram, portanto, só 32 atletas os que puderam descer na data certa. Outros 35 ainda se viraram por conta própria e completaram a equipe que competiu nos esportes aquáticos, no atletismo, no remo e no tiro. E que, compreensivamente, não faturou medalha nenhuma.

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01 - Entre os pontos positivos daqueles Jogos esteve também a construção da primeira verdadeira Vila Olímpica da história, onde todos os homens se hospedaram (as mulheres, como lhes convém, foram para um hotel de luxo). A cerimônia de entrega das medalhas passou a ser logo depois de cada evento – e não mais com todos juntos, no último dia. As provas de atletismo adotaram o cronômetro automático, com centésimos de segundo, e o photo-finish.

Ilustração da atleta Lillian Copeland, na prova de arremesso de disco
Getty Images
Ilustração da atleta Lillian Copeland, na prova de arremesso de disco

02 - A patriotada do “sou brasileiro e não desisto nunca” é publicidade recente, mas já tinha exemplos de sucesso há tempos: Adalberto Cardoso percorreu os cerca de 600km entre San Francisco – onde o navio brasileiro estava aportado – e Los Angeles a pé e de carona. Demorou um dia e chegou, já para lá de aquecido, dez minutos antes de sua prova, os 10.000m. A galera ficou sabendo da história e, ao cruzar a linha de chegada (em último), o brasileiro foi ovacionado.

03 - A nadadora brasileira Maria Emma H. Lenk tornou-se a primeira mulher latino-americana a participar dos Jogos Olímpicos: nos 100m livre, 100m costas e 200m peito, sem conseguir êxito em nenhum deles.

04 - Com apenas 14 anos, o nadador japonês Kusuo Kitamura foi ouro nos 1500m nado livre e é até hoje o homem mais jovem a se tornar campeão olímpico numa prova individual.

05 - O espírito de fair play ganhou novo exemplo com a esgrimista britânica Judy Guinness, que na final do florete avisou duas vezes aos (desatentos) juízes que sua adversária, a austríaca Ellen Preis, a havia atingido. Guinness acabou perdendo o combate e foi medalha de prata.

06 - Sob a alegação de que o esporte não era popular nos Estados Unidos, o futebol foi retirado do programa olímpico pela primeira e única vez depois de 1896. Há quem diga que o verdadeiro motivo é que a Fifa não queria competição para a Copa do Mundo, inaugurada dois anos antes.

07 - Se você acha que tem um grande amigo, pense melhor depois de ouvir a história do norte-americano Van Osdel e do canadense McNaughton. Camaradas de universidade, os dois disputavam a final do salto em altura. Após vários saltos, com a barra a 1,97m, Van Osdel chegou até McNaughton e lhe deu algumas dicas técnicas sobre o que estava fazendo errado e como poderia ultrapassar a barreira. O canadense ouviu, pôs em pratica e completou o salto. Van Osdel não conseguiu repetir e ficou com a prata. Em 1933, a medalha de ouro de McNaughton foi roubada de seu carro. O amigão Van Osdel, que era dentista, não deixou barato: usou a sua medalha de prata para fazer um molde, recheou-o com ouro e presenteou o amigo com uma réplica.

A superatleta Mildred Babe Didrikson
EFE
A superatleta Mildred Babe Didrikson


08 - A fama da norte-americana Mildred Ella "Babe" Didrikson era de atleta mais completa do mundo . O regulamento dos Jogos de 1932 só permitia que as mulheres se inscrevessem em três eventos e, então, ela só pôde ficar com dois ouros (80m com barreiras e lançamento de dardo) e uma prata (salto em altura). Do contrário, estima-se que ela teria vencido ao menos mais três provas. Logo depois da Olimpíada, “Babe” passou a se dedicar ao golfe e se tornou a maior jogadora do esporte em todos os tempos.

09 - Em sua cidade-natal, Sapporo, o japonês Chuhei Nambu tentava driblar o frio do inverno e se virava para achar algum lugar para treinar: acabou banido das grandes lojas de departamento da cidade, depois de uma das vezes em que assustou os clientes, quando correu em disparada pelo corredor das porcelanas chinesas e saltitou 15m, desde os eletrodomésticos até os móveis de cozinha. O papelão valeu a pena: graças aos métodos peculiares, Nambu conquistou uma medalha de ouro e uma de bronze em Los Angeles e se tornou recordista mundial do salto em distância e do salto triplo.

10 - Campeão da prova hípica de saltos montando o cavalo Uranus, o japonês Takeichi Nishi, mais famoso como “Barão Nishi”, se tornou um alto oficial do exército japonês e morreu em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial, quando defendia a ilha de Iwo Jima. Sua participação no episódio faz dele um dos personagens centrais de Cartas de Iwo Jima, filme de Clint Eastwood que concorreu a quatro Oscars em 2006.

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