Londres 1948: Sou pobre, mas sou feliz

Por iG São Paulo

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Menos de três anos apos o fim da Segunda Guerra Mundial, os Jogos Olímpicos tomaram fôlego para voltar à cena – e dentro da Europa. Faltava dinheiro, mas funcionou como um evento simbólico

Londres 1948: a cerimônia de abertura no retorno olímpico
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Londres 1948: a cerimônia de abertura no retorno olímpico


Havia cacos por todo lado, e era preciso recolhê-los. E, quando se trata dos cacos de um continente inteiro arrebentado pela Guerra, estamos falando de um trabalho para muito tempo e, principalmente, muito dinheiro. Menos de três anos apos o fim da Segunda Guerra Mundial, os Jogos Olímpicos tomaram fôlego para voltar à cena – e dentro da Europa.

Depois da Olimpíada de Berlim, o COI já havia se programado para que Tóquio abrigasse a competição em 1940. Por causa da Segunda Guerra Sino-Japonesa, iniciada em 1937, a cidade perdeu a condição de sede para Helsinque, na Finlândia. Em junho de 1939, definiu-se que 1944 seria a vez de Londres. Quando a Segunda Guerra estourou, meses depois, o COI suspendeu a competição até segunda ordem, e o mundo acabou passando 12 anos sem disputas olímpicas.

A segunda edição de uma Olimpíada na capital inglesa. Em 2012 ainda teria mais...
EFE
A segunda edição de uma Olimpíada na capital inglesa. Em 2012 ainda teria mais...

Retomar os Jogos dentro de uma Europa que apenas começava a se recompor e a receber os US$ 13 bilhões do Plano Marshall talvez não tenha sido a mais sensata das idéias, mas, simbolicamente, foi um bom modo de mostrar, que, acima de tudo aquilo, o evento estava de volta – ainda sem a participação de Alemanha, Japão e União Soviética.

O governo inglês chegou a cogitar a desistência, porque Londres vinha vivendo um arrocho verdadeiramente implacável. Tudo estava em falta: combustível, eletricidade, roupa, comida, papel. A Olimpíada, nas palavras do próprio COI, foi “espartana, mas de sucesso”. O racionamento de pão na Inglaterra acabou apenas um dia antes da cerimônia de abertura.

A chama olímpica do estádio de Wembley foi desligada à noite, para economizar combustível – mas, quando isso virou assunto, decidiram arcar com a conta e mantê-la acesa. Os atletas se hospedaram em escolas e quartéis e tiveram de se virar com uma dieta nada luxuosa (e comida inglesa, ainda por cima!). Mas o mundo não estava em tempos de criticar nada disso: os Jogos Olímpicos desembarcaram em Londres como heróis de guerra. Só por terem sobrevivido, foram saudados como vitoriosos.

No Brasil, onde os efeitos da guerra eram indiretos, montou-se uma delegação considerável, de 81 atletas. Foi o suficiente para, pela primeira vez depois de 28 anos, voltarmos ao pódio: a seleção de basquete masculino venceu sete partidas e perdeu apenas uma – a semifinal contra a França – e ficou com o bronze. A partir daquela vez, o Brasil nunca mais sairia de uma Olimpíada sem conquistar ao menos uma medalhinha.

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01 - Quase não havia aparelhos de televisão nas residências da Europa, mas ainda assim a Olimpíada de Londres foi a primeira a ser transmitida ao vivo

02 - Um dos primeiros problemas que o comitê organizador londrino encarou foi dos mais prosaicos: ninguém sabia onde estava a bandeira olímpica original, cujo último paradeiro era a cerimônia de encerramento de Berlim-1936. Em meio aos escombros pós-guerra da capital alemã, o exército britânico encontrou o estandarte todo esfalfado e ainda o livro de visitas assinado por todos os convidados de 1936.

A cerimônia de encerramento, com a bandeira resgatada!
EFE
A cerimônia de encerramento, com a bandeira resgatada!


03 - No meio da reconstrução, todo ingresso de dinheiro era válido: horas depois da cerimônia de encerramento, o comitê organizador começou um inédito saldão olímpico. Era um tal de bandeirinha olímpica por apenas 2 libras; bolas de basquete por 1,15 libras; veleiros de 150 por apenas 135 libras. O leilão foi um sucesso e uma ajuda bem-vinda para cobrir parte dos gastos.

04 - Somente dois campeões olímpicos de 1936 conseguiram revalidar seus títulos em Londres-1948: a esgrimista húngara Ilona Elek, campeã no florete, e o canoísta checoslovaco Jan Brzak.

05 - Londres-1948 viveu o primeiro capítulo de algo que se tornaria rotineiro nos Jogos: atletas que pedem asilo político. Medalha de ouro na ginástica por equipes, Marie Provaznikova se negou a retornar à Checoslováquia, alegando “falta de liberdade” no pais desde que este passara a fazer parte do bloco soviético.

O lutador turco Senel derrota por pontos o francês Falaux nas eliminatórias da luta greco-romana.
EFE
O lutador turco Senel derrota por pontos o francês Falaux nas eliminatórias da luta greco-romana.


06 - A delegação da Nova Zelândia foi a primeira a chegar e a que teve a viagem mais longa. Os kiwis agüentaram 32 dias dentro de um navio e precisaram se virar para se manter em forma enquanto isso: o pugilista Bobby Goslin arranjou sujeitos quaisquer, que não tinham nada com o boxe, para serem sparrings; o velocista Dutch Holland improvisou obstáculos e corria de um lado para o outro do deque do navio. Os neozelandeses voltaram sem medalhas, mas cheios de história para contar.

07 - Membro da equipe húngara campeã mundial do tiro com pistola em 1938, Karoly Takács servia como sargento no exército quando uma granada explodiu em sua mão direita – a que usava para atirar – e a destroçou completamente. Ele aprendeu sozinho a atirar com a mão esquerda e levou o termo “ambidestro” a um novo patamar: foi bicampeão olímpico da pistola rápida em 1948 e 1952.

08 - Aos 17 anos, Bob Mathias recebeu a sugestão de seu treinador: por que não tentar o decatlo? Três meses depois, ele se classificou para disputar a prova pelos Estados Unidos nos Jogos de Londres. De tão inexperiente, perdeu pontos no arremesso de peso, por exemplo, porque não sabia que era proibido sair da área de arremesso pela frente. Ainda assim, tornou-se o mais jovem vencedor de uma prova olímpica de atletismo. Perguntado sobre o que faria para comemorar, Mathias gracejou: “Vou começar a me barbear, acho”. Em 1952, já fazendo a barba a cada dois dias, ele se tornou o primeiro bicampeão do decatlo.

A equipe francesa de tiro com pistola, na distância de 50m. (esq à dir.): : Bonin, R. Stephen y J. Mazoyer.
EFE/NEW YORK TIMES PHOTOS
A equipe francesa de tiro com pistola, na distância de 50m. (esq à dir.): : Bonin, R. Stephen y J. Mazoyer.


09 - Depois de estrear nos Jogos em 1936, quando competiu no salto em altura, a holandesa Fanny Blankers-Koen viveu seu auge no período em que a Olimpíada esteve suspensa. Em Londres, aos 30 anos, atingiu o sucesso olímpico junto com o titulo de mãe do ano. Com dois filhos para cuidar em casa, ela venceu quatro ouros – nos 100m e 200m rasos, 80m com barreiras e revezamento 4 x 100m - e só não conseguiu mais porque havia um limite de provas em que se podia participar, e ela não pôde disputar os saltos em distancia e altura, dos quais era recordista mundial.

10 - Ninguém acreditou quando viu que as mãozonas da francesa Micheline Ostermeyer – ouro no arremesso de peso e no lançamento de disco – eram as mesmas que executavam um recital de Beethoven ao piano, na concentração da delegação francesa. Pianista profissional, sua carreira foi marcada pelo sucesso como atleta. Durante anos ela teve receio de tocar peças do húngaro Liszt, porque as achava “esportivas demais” – e Micheline sempre quis separar uma carreira da outra.

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