Londres 1908: O ano da virada

Por iG São Paulo

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Depois de dois eventos desastrosos na França e nos Estados Unidos, o Movimento Olímpico enfim celebrou o sucesso na capital inglesa, naquela que foi a quarta edição dos Jogos. Ou seria a quinta?

Maratonista em ação nas Olimpíadas de Londres 1908
EFE
Maratonista em ação nas Olimpíadas de Londres 1908


A quarta edição dos Jogos Olímpicos foi, na verdade, a quinta. Como comemoração dos 10 anos da primeira Olimpíada, Atenas voltou a abrigar um torneio em 1906 - com mais de 900 atletas, de 20 países. Foi algo maior e de mais sucesso do que as edições oficiais de 1900 e 1904, mas o COI, cartesiano até dizer chega, decidiu manter a lógica dos quatro anos e, para não criar confusão, não computa Atenas-1906 nos seus arquivos.

De qualquer forma, o próprio Comitê hoje admite que os chamados “Jogos Intercalados de 1906” foram fundamentais para que a Olimpíada da capital inglesa significasse um salto considerável de qualidade.

Os Jogos de 1908 nem sequer deveriam ser em Londres: Roma havia ganhado a eleição e já se preparava para abrigar o torneio quando a erupção do vulcão Vesúvio, em 1906, emperrou o projeto. As verbas originalmente destinadas aos Jogos migraram para a reconstrução de Nápoles, e em apenas dois anos os ingleses tiveram que armar o circo.

Nada como um pais rico e bem disposto para deixar um comitê organizador tranqüilo: com a bênção do rei Eduardo VII, o governo investiu 60 mil libras esterlinas na construção do estádio White City, para 68 mil pessoas. Os promotores do evento tiveram um orçamento de 15 mil libras e, entre doações e venda de ingressos, faturaram 21.377 libras.

Depois de duas edições desastrosas, o COI começava a encontrar seu caminho: reunir mais gente, num pais que dê importância para o evento. Aumentava-se o nível de disputa e ainda se ganhava dinheiro com isso.

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01 - No ciclismo, o francês Maurice Schilles chegou na frente de seus três competidores ingleses na prova do sprint, mas ninguém conseguiu o tempo mínimo de 1min45s estipulado pelo COI. Devido ao baixo nível técnico, a prova ficou sem vencedor.

Cartaz da primeira Olimpíada londrina
EFE
Cartaz da primeira Olimpíada londrina

02 - Os 400m rasos daquela Olimpíada despertaram o COI para a necessidade de contar com árbitros internacionais e neutros. Os americanos William Robbins e John Carpenter venceram, seguidos pelo britânico Wyndham Halswelle. Mas o juiz da prova, britânico, constatou que Carpenter havia bloqueado o caminho de Halswelle quando este o ultrapassava – algo que era válido pelas regras dos EUA, mas não na Grã-Bretanha. Uma nova largada foi decretada, e os norte-americanos se recusaram a participar. Halswellwe correu sozinho e venceu sem muita dificuldade.

03 - O sueco Mauritz Andersson aceitou que a final dos pesos médios na luta greco-romana fosse adiada em um dia, para permitir a recuperação de seu compatriota Frithiof Martensson, que tinha uma pequena lesão. Andersson acabou sem a medalha de ouro, mas virou queridinho dos entusiastas do espírito olímpico.

04 - A carreira da britânica Charlotte Dod já seria louvável se incluísse apenas o pentacampeonato do torneio de tênis de Wimbledon (até hoje é a campeã mais jovem de todos os tempos), ser uma das fundadoras da seleção britânica de hóquei na grama e campeã nacional de golfe. Mas ela e o irmão William também entraram para a história olímpica como os primeiros irmãos medalhistas: no arco-e-flecha, ele conquistou um ouro e ela, uma prata.

05 - Aos 60 anos, o atirador sueco Oscar Swahn se tornou o medalhista mais velho da história até então, quando conquistou dois ouros no “tiro ao cervo” (prova algo imoral para os padrões modernos e, por isso, divertidíssima: um alvo de madeira em formato de veado escorregava pela ladeira e levava chumbo de todo lado). Ele venceu a disputa individual e a por equipes - esta ao lado de seu filho, Alfred.

O uniforme de um dos atletas britânicos que competiu em 1908, preservado
Getty Images
O uniforme de um dos atletas britânicos que competiu em 1908, preservado

06 - A cada Olimpíada, a distância percorrida na maratona era ligeiramente alterada. Em Londres ela chegou ao numero definitivo: 42,195km. Os 195 metros – distância do Castelo de Windsor até o camarote do estádio White City - foram adicionados para que a família real tivesse vista privilegiada da chegada.

07 - O italiano Dorando Pietri, aliás, amaldiçoou os tais 195 metros a mais pelo resto da vida. Ele foi o primeiro a entrar no estádio, exausto, e cambaleou cinco vezes até ser ajudado por dois fiscais a cruzar a linha de chegada – em primeiro. Pelo auxílio recebido, Pietri foi desclassificado, e quem herdou a vitória foi o americano Johnny Hayes. Mas quem ficou com a fama foi o italiano: no dia seguinte, a Rainha Alexandra, comovida, entregou-lhe uma taça de ouro.

08 - Além da Boêmia, que antes de ser cerveja era o nome da região que inclui a atual República Checa, outra presença interessante em Londres-1908 foi a Australásia: era o nome sob o qual Austrália e Nova Zelândia competiram juntas.

09 - Foi a primeira Olimpíada em que as delegações desfilaram seguindo sua bandeira nacional na cerimônia de abertura. Rendeu confusão: o Grã-Ducado da Finlândia era parte do Império Russo, e a delegação finlandesa deveria desfilar atrás da bandeira russa. Não aceitaram e acabaram dando a volta como vieram ao mundo, sem bandeira nenhuma.

10 - A organização se esqueceu de pendurar a bandeira da Suécia no alto do estádio, o que levou a delegação do pais a boicotar a cerimônia. A bandeira dos EUA também foi esquecida (ou foi rixa colonial?), mas os americanos participaram do desfile. Só não aceitaram abaixar a bandeira diante do camarote real como símbolo de respeito. O porta-estandarte dos EUA, Martin Sheridan, americanamente explicou: “essa bandeira não se curva a nenhum rei terreno”. E desde então se tornou um hábito para os americanos não abaixarem a bandeira nessa situação.

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