Helsinque 1952: A era do gelo

Por iG São Paulo

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O clima gelado da Finlândia foi o palco propício para os primeiros Jogos disputados sob a divisão política que marcaria décadas: era tempo de Guerra Fria. Adhemar Ferreira da Silva conquista o ouro

Competição de natação nas Olimpíadas finlandesas. E o frio?
EFE
Competição de natação nas Olimpíadas finlandesas. E o frio?


Com o fim da Segunda Guerra e o estabelecimento de uma nova ordem mundial, a Humanidade perdeu suas matizes. No fundo, ninguém mais escolhia ser monarquista, neo-gótico, roqueiro ou corintiano. As opções eram só duas: ou você era do lado de lá, ou do lado de cá. Estado ou mercado; foice-e-martelo ou cartão-de-crédito-e-televisão. O clima gelado da Finlândia foi o palco propício para os primeiros Jogos Olímpicos disputados sob a divisão política que marcaria as décadas seguintes: era tempo de Guerra Fria.

A Finlândia acolhe as Olimpíadas
EFE
A Finlândia acolhe as Olimpíadas

Nesse cenário em que qualquer decisão tinha significado político – e, se não tivesse, passava a ter -, o COI prudentemente adotou o modelo que sobrevive até hoje para eleger as cidades-sede: as candidatas se enfrentam em votações seguidas dentro da entidade, até que haja maioria a favor de uma delas. Helsinque, que deveria ter recebido os Jogos de 1940 cancelados devido à Guerra, derrotou Amsterdã, Atenas, Estocolmo, Lausanne e cinco cidades dos Estados Unidos.

Antes de se tornar estampa de casacos retro-moderninhos, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) era a nação que liderava com mão (e Cortina) de ferro o bloco socialista. Em 1952, o pais participou pela primeira vez dos Jogos Olímpicos, que seriam uma de suas grandes vitrines para o mundo.

Desde o começo os soviéticos mostraram a que vinham, em todos os aspectos: foram alojados numa Vila Olímpica separada, por temor de problemas diplomáticos, e terminaram com o segundo lugar no quadro de medalhas - atrás, presumivelmente, dos Estados Unidos. Não era por acaso que, durante quase 40 anos, também no esporte os dois países passariam a ser conhecidos simplesmente como “as potências”.

Para os brasileiros, Helsinque ficou marcada como o palco para a segunda medalha de ouro de nossa história: 32 anos depois do atirador Guilherme Paraense, Adhemar Ferreira da Silva quebrou seu próprio recorde mundial do salto triplo quatro vezes seguidas e conquistou o primeiro de seus dois títulos olímpicos. Os bronzes de José Telles da Conceição no salto em altura e Tetsuo Okamoto, vulgo “peixe voador”, nos 1500m nado livre completaram o digno desempenho do Brasil no quadro de medalhas

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01 - Uma medalha de ouro nos 10.000m e uma prata nos 5.000m da Olimpíada de Londres 1948 já seriam suficientes para o checoslovaco Emil Zátopek ser considerado um grande fundista, mas a fama de “locomotiva humana” se justificou plenamente foi em Helsinque: ganhou suas duas provas e ainda arriscou disputar, pela primeira vez na vida, uma maratona. Venceu-a também e gravou seu nome na história olímpica. Membro influente da ala democrática do Partido Comunista, ele participou das revoltas conhecidas como Primavera de Praga e acabou sendo condenado a trabalhar numa mina de urânio até o fim do regime, em 1989. Após morrer aos 78 anos, em 2000, Zátopek recebeu do COI a medalha Pierre de Coubertin do espírito olímpico.

A lenda Adhemar Ferreira da Silva
Reprodução
A lenda Adhemar Ferreira da Silva

02 - Nossa delegação, que adorava um bom rega-bofe, voltou impressionada com a organização dos finlandeses e, em especial, com a comida. O major Sylvio de Magalhães Padilha, chefe da missão brasileira (porque na época se chamava assim), desfiou elogios ao cardápio em seu relatório e ao inovador sistema self-service.

03 - O Japão e a Alemanha, depois de terem sido banidos de Londres 1948, retornaram aos Jogos. A República Federal da Alemanha – mais famosa como Alemanha Ocidental – participou, ganhou 24 medalhas, mas, curiosamente, nenhuma de ouro. A República Democrática da Alemanha, comunista, já tinha um comitê olímpico, mas não enviou atletas. O Estado de Israel, que havia sido oficialmente criado em 1949, também participou pela primeira vez.

04 - O ouro em Helsinque 1952 foi o momento em que o mundo descobriu a histórica seleção húngara de futebol, de Kocsis, Puskas e cia. A campanha do título olímpico foi parte de um período em que a Hungria ficou 32 jogos invicta – série que escolheu uma hora ruim para terminar, na final da Copa do Mundo de 1954, contra a Alemanha.

05 - Sabe-se lá por que razão, a seleção da Índia de futebol disputou sua partida da primeira fase, contra a Iugoslávia, sem chuteira. Com bolhas, frieiras, hipotermia e o que mais viesse, os indianos sofreram e voltaram para casa sacolejados: 10 a 1.

06 - Pela primeira vez, as mulheres puderam competir contra os homens na prova de adestramento do hipismo. A primeira heroína foi a dinamarquesa Lis Hartel: vitima de poliomielite aos 23 anos, ela teve o corpo paralisado abaixo do joelho. Apesar disso, mesmo com a necessidade de ajuda para subir e descer do cavalo, Hartel conquistou a medalha de prata – feito que repetiria quatro anos depois em Melbourne.

A ginasta russa Marie Gorokhoyskaja compete na trave. Ela foi a campeã no individual geral
EFE
A ginasta russa Marie Gorokhoyskaja compete na trave. Ela foi a campeã no individual geral

07 - Campeão do salto com vara, o Reverendo Bob Richards, que era professor de teologia na Califórnia, fez sua parte para tentar quebrar um pouco o gelo da Guerra Fria: ele liderou uma delegação não-oficial dos EUA que visitou a concentração da equipe soviética e confraternizou com os inimigos de regime.

08 - A norte-americana Patrícia McCormick foi a única mulher a vencer as duas provas – de trampolim e plataforma – nos saltos ornamentais. Ela repetiria o feito em Melbourne-1956, apenas oito meses depois do nascimento de seu filho.

09 - Nos Jogos de Paris 1924, Bill Havens foi escolhido para participar da equipe de remo dos Estados Unidos, mas recusou o convite porque a competição calhava de ser justo quando sua esposa daria à luz o filho do casal, Frank. Vinte e oito anos depois, Frank Havens realizou o sonho olímpico do pai e levou o ouro nos 10.000m da canoagem.

10 - Com algo de sorte, o carpinteiro sueco Lars Hall se tornou o primeiro sujeito não-militar a vencer o pentatlo moderno: na prova do hipismo, o sorteio lhe reservou um cavalo manso demais. Lars pediu um substituto e acabou com um bichinho tão rápido que precisava se esforçar para não cair. Ele se agüentou e ficou com a medalha de ouro, que repetiria na Olimpíada seguinte.

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