A quinta edição representou um avanço e tanto: pela 1ª vez tinha os 5 continentes em disputa, além de cronômetro eletrônico e sistema de auto-falantes para informar o público. Só não podia ter boxe

O americano Matt McGrath participa da final do lançamento de martelo
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O americano Matt McGrath participa da final do lançamento de martelo


O COI sabia que era negócio seguro manter a Olimpíada na Europa e que no verão sueco encontraria temperatura amena e cidadãos de bons modos. O que surpreendeu até mesmo o Barão Pierre de Coubertin e seus camaradas foi a eficiência de Estocolmo como cidade-sede dos quintos Jogos Olímpicos.

Apesar do alto patamar deixado por Londres 1908, os suecos fizeram aquela que, sem dúvida, foi a melhor edição dos Jogos até então. A começar pelo fato de que os simbólicos cinco anéis olímpicos pela primeira vez fizeram sentido, já que houve representantes dos cinco continentes na disputa.

Por conta própria, a organização sueca instaurou um cronômetro eletrônico para as provas de atletismo – usado pela primeira vez na história olímpica, de forma não-oficial –, alem do photo-finish e de um sistema de alto-falantes para informar os resultados ao público. O COI, ainda traumatizado pelos promotores mais interessados em exposições de bugigangas do que no esporte, achou tudo uma grande maravilha.

Mas, com tudo o que a organização sueca teve de bom, também os Jogos de Estocolmo serviram para o Comitê Olímpico aprender com um erro: os suecos, boa gente como eles só, não permitiram que disputas sangrentas de boxe fossem realizadas em seu país. Simplesmente proibiram a modalidade. A partir de então, o COI decidiu limitar o poder do pais-sede na hora de definir o programa olímpico. Como a competição crescia e o interesse em sediá-la também, foi fácil tomar as rédeas e ditar as regras para aquela que seria a próxima anfitriã, Berlim. O problema foi que, em 1916, a Europa não estava nem um pouco em ritmo de união dos povos pelo esporte: a Primeira Guerra Mundial estourou e cortou o ciclo olímpico pela primeira vez.

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Estocolmo foi sede da 5ª edição dos Jogos
EFE
Estocolmo foi sede da 5ª edição dos Jogos

01 - Estocolmo foi a última vez em que o COI levou ao pé da letra a expressão “medalha de ouro”. Depois de 1912, o ouro maciço foi substituído por prata banhada de ouro.

02 - A prova de estrada na competição de ciclismo de 1912 é, até hoje, a corrida mais longa da história dos Jogos, em qualquer modalidade. Os atletas precisaram percorrer 320km. O ganhador foi o sul-africano Rudolph Lewis.

03 - A luta greco-romana foi outro teste para a resistência dos competidores (e a paciência do público, supõe-se): na fase final dos pesos médios, o russo Martin Klein e o finlandês Alfred Asikainen lutaram durante 11 horas até que Klein saiu vencedor. De tão cansado, não disputou sua última luta, contra o sueco Claus Johansson – que herdou o ouro. A final da categoria meio-pesado, entre o sueco Ahlgren e o finlandês Böhling, também durou suas nove horas. A curiosidade é que houve empate e, por isso, não houve medalha de ouro: os dois dividiram a prata.

04 - O primeiro de uma série de grandes fundistas finlandeses, Hannes Kölehmainen venceu os 5 mil metros – distância na qual estabeleceu o recorde mundial -, os 10 mil metros e também o cross-country individual. Depois de ganhar tudo nessas distâncias, ele se tornaria maratonista – vencedor do ouro em Antuérpia 1920. O herói finlandês foi o responsável por acender a pira olímpica quando os Jogos foram para o pais, em Helsinque 1952.

05 - O grande herói daqueles Jogos foi o norte-americano de origem indígena Jim Thorpe, que venceu o pentatlo e o decatlo – conseguindo o recorde mundial deste. Na entrega da medalha, o rei Gustavo V da Suécia se referiu a ele como “o maior atleta do mundo”. Em janeiro de 1913, porém, Thorpe perdeu suas medalhas porque descobriu-se que já havia recebido (pouco) dinheiro para jogar beisebol anos antes, o que faria dele um esportista profissional e, portanto, proibido de disputar a Olimpíada. Em 1951, a história virou O Homem de Bronze - filme de Michael Curtiz (o diretor de Casablanca), com Burt Lancaster no papel do atleta. Só em 1982 o COI admitiu que a decisão não fazia sentido e devolveu as medalhas. Não a Jim, que já havia falecido, mas à sua filha.

06 - Um dos membros da equipe austríaca de esgrima que ficou com a medalha de prata no sabre era o presidente do comitê olímpico do pais, Otto Herschmann. Até hoje, é o único a fazer as duas coisas ao mesmo tempo: ser presidente do comitê e medalhista.

Atleta pratica lançamento de dardo nas Olimpíadas de Estocolmo 1912
EFE
Atleta pratica lançamento de dardo nas Olimpíadas de Estocolmo 1912


07 - Sob não apenas um, mas dois pseudônimos - Georges Hohrod e M. Eschbach -, o Barão Pierre de Coubertin ganhou a medalha de ouro na modalidade literatura durante a competição artística realizada paralelamente à esportiva. O texto premiado: uma “Ode ao Esporte”. Não entendo o porquê dessa cara de desconfiado.

08 - Num dia de calor em Estocolmo, a Olimpíada registrou uma de suas grandes histórias trágicas: no ano em que Portugal participava pela primeira vez dos Jogos, o maratonista Francisco Lázaro,de 24 anos, parou no quilômetro 29 da prova. Caiu duas, três vezes e logo caiu para não mais levantar. Foi o primeiro atleta que morreu durante um prova olímpica. Depois, constatou-se que, além das doses maciças de estricnina, Lázaro tomou outra medida supostamente energizante conhecida na época: besuntou o corpo com um sebo, mistura de essência de terebentina, ácido acético e ovo. Os poros tapados não ajudaram em nada seu desempenho.

09 - O ginasta italiano Alberto Braglia foi campeão olímpico no individual geral em Londres 1908, mas isso não significou vida fácil para o atleta. Precisou aceitar um insólito bico como “Torpedo Humano” no circo. Além de lhe render uma costela e um ombro quebrados, por causa da atividade profissional foi banido da federação italiana. Nesse ínterim, seu filho de 4 anos faleceu, o que o levou a uma grave crise nervosa. Com isso tudo, Braglia deu a volta por cima: conseguiu o status de amador a tempo de competir em Estocolmo e defender seu titulo olímpico.

10 - Invenção do Barão Pierre de Coubertin, o pentatlo moderno teve sua primeira aparição nos Jogos em Estocolmo. O participante que terminou em 5º lugar futuramente se tornaria um dos protagonistas da 2ª Guerra Mundial, o polêmico general do exército norte-americano George S. Patton – retratado pelo cinema em 1970 em "Patton – Rebelde ou Herói?", ganhador de sete Oscars.

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