Berlim 1936: Quando tudo se perdeu

Por iG São Paulo

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É difícil entender como o COI, para não dizer o mundo, permitiu que um evento da grandeza e da natureza das Olimpíadas pudesse ser realizado sob a sombra do nazismo. Virou propaganda política

A sombra de Adolf Hitler sob os Jogos de 1936
EFE
A sombra de Adolf Hitler sob os Jogos de 1936


O nazismo ainda não havia chegado oficialmente ao poder na Alemanha em abril de 1931, quando o COI escolheu Berlim – que competia contra Barcelona – como cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 1936. Mas isso não impediu que diversos paises ameaçassem (mas nenhum decidisse) boicotar aquela Olimpíada. E talvez não sirva mesmo como justificativa para o Comitê, para não dizer o mundo, permitir que o evento esportivo mais importante da Humanidade se tornasse showroom do ideário mais sórdido que esta já fabricou.

De um lado, havia os que consideravam que participar da competição era um ato de legitimação do governo de Adolf Hitler. Do outro, os que diziam que aquilo era esporte e que não se devia misturá-lo com política (mesmo as duas coisas já estando unilateralmente misturadíssimas). Os Estados Unidos foram os que mais discutiram a possibilidade de não ir aos Jogos, mas também optaram por não criar confusão.

Quando Hitler assumiu, em 1933, o gênio do mal e ministro da propaganda do 3º Reich, Joseph Goebbels, teve que convencê-lo de que era boa idéia organizar a Olimpíada. Seu instinto, como de hábito, não falhou: com o maior numero de paises participantes na história e uma organização germanicamente impecável, os Jogos de Berlim foram um sucesso esportivo e também de marketing político – apesar de golpes nas teorias racistas como as quatro medalhas de ouro de Jesse Owens, que era negro.

As Olimpíadas de 1936 e as suásticas. Foto: Getty ImagesAs Olimpíadas de 1936 e as suásticas. Foto: Getty ImagesAs Olimpíadas de 1936 e as suásticas. Foto: Getty ImagesA sombra de Adolf Hitler sob os Jogos de 1936. Foto: EFEJesse Owens, uma das mais belas histórias das Olimpíadas. Foto: Getty ImagesO cartaz dos Jogos Olímpicos de 1936. Foto: EFE


Mais de 4 milhões de ingressos foram vendidos, e o evento deu lucro. Pela primeira vez, as imagens de uma Olimpíada foram transmitidas, para 25 telões instalados por toda a capital alemã. O público se divertiu e se impressionou com o alto nível técnico, que gerou 15 recordes mundiais.

A equipe exclusivamente “ariana” da Alemanha, se não chegou aos 60 ouros cantados por Hitler, terminou no topo do quadro de medalhas. No saldo final, os US$ 30 milhões que estima-se terem sido gastos pelo governo do führer com os Jogos ajudaram a fortalecer a imagem de superioridade nazista - que só não é mais deprimente do que o fato de tanta gente ter sido levada por ela.

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Jesse Owens, uma das mais belas histórias das Olimpíadas
Getty Images
Jesse Owens, uma das mais belas histórias das Olimpíadas

01 - A maior engolida a seco de Adolf Hitler durante os Jogos e o símbolo mais claro de que as teorias racistas do nazismo eram balela vieram com o norte-americano Jesse Owens: negro, neto de escravos, ele venceu os 100m e 200m rasos, o revezamento 4 x 100m e o salto em distância. Na prova do salto, sob o olhar do führer, um dos adversários de Owens, o alemão Lutz Long, cumprimentou o norte-americano e lhe deu dicas sobre como melhorar sua técnica. Por seu gesto, recebeu de forma póstuma a medalha Pierre de Coubertin pelo espírito esportivo.

02 - Ah, sim, o Brasil: os irônicos comentaram que levamos gente como nunca e não ganhamos nada, como sempre. Depois de muita briga entre a Confederação Brasileira de Desportos e o Comitê Olímpico Brasileiro – que passou a existir efetivamente em 1935 -, as delegações formadas pelas duas entidades se fundiram, e foram 94 os atletas que viajaram para disputar dez modalidades – desta vez com seis mulheres. O máximo que alguém conseguiu foi um 5º lugar.

03 - Havia mentes brilhantes trabalhando pelo nazismo, e a mais vistosa delas foi provavelmente a cineasta Leni Riefenstahl. Foi fazendo filmes apologéticos ao 3º Reich que a alemã revolucionou a estética audiovisual da sua época. Uma de suas obras-primas mais inovadoras foi Olympia, o documentário oficial dos Jogos de 1936, que incluiu pela primeira vez o revezamento da tocha olímpica, partindo desde Olímpia, na Grécia. Com close-ups gritantes do corpo humano, técnica de edição jamais vista e um trilho para mover sua câmera no estádio, Leni Riefenstahl estabeleceu os parâmetros de tudo o que se tornou padrão – quando não clichê – em matéria de imagem de esportes.

O cartaz dos Jogos Olímpicos de 1936
EFE
O cartaz dos Jogos Olímpicos de 1936

04 - Grupos antifascistas chegaram a planejar a disputa da “Olimpíada do Povo”, em Barcelona - um evento de protesto contra os Jogos em terra nazista. Mas o mar não estava para peixe: o torneio teve que ser cancelado porque explodiu a Guerra Civil Espanhola, que levaria aos 36 anos de ditadura franquista.

05 - O basquete fez sua primeira aparição como esporte olímpico de forma algo conturbada. A organização montou uma quadra externa, mas não contou com o mau tempo: na final, por causa da chuva, o piso se tornou um imenso lodaçal e os jogadores não conseguiam bater bola. Não por acaso, o placar foi digno de recreio da 4ª série: Estados Unidos 19 x 8 Canadá.

06 - Sohn Kee-chung era o recordista mundial da maratona em 1936, quando se classificou para a Olimpíada. Sul-coreano e nacionalista fervoroso, ele foi obrigado a competir pelo Japão, que anexara a Coreia do Sul em 1910. Ao se sagrar campeão – disputando sob o nome japonês Son Kitei – escutou quieto e de cabeça baixa a execução do hino japonês. De volta à Coreia, idolatrado, sua foto foi publicada no diário Dong-a-Ilbo com uma alteração: a bandeira japonesa de seu agasalho coberta. Oito pessoas foram presas, e o jornal passou nove meses fora de circulação. Sohn Kee-chung foi o porta-bandeira da Coreia do Sul independente nos Jogos de 1948 e emocionou o pais quando entrou no estádio olímpico de Seul com a tocha olímpica aos 76 anos, na Olimpíada de 1988.

Da esquerda para a direita: a alemã Kathe Kohler e as americanas Velma Clancy Dunn e Dorothy Poynton-Hill, bronze, prata e ouro nos saltos
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Da esquerda para a direita: a alemã Kathe Kohler e as americanas Velma Clancy Dunn e Dorothy Poynton-Hill, bronze, prata e ouro nos saltos

07 - Nas quartas-de-final do futebol, o Peru derrotou a Áustria por 4 a 2 na prorrogação, mas, no dia seguinte, a organização ordenou que o jogo fosse cancelado e disputado outra vez – alegando que as dimensões do campo eram pequenas demais e que os torcedores peruanos haviam invadido o gramado apos o quarto gol. O governo do Peru, ofendido, mandou que o time abandonasse os Jogos. A Áustria aproveitou e chegou até a final, quando perdeu para a Itália – que vinha de vencer a Copa do Mundo em 1934 e voltaria a vencê-la dois anos depois.

08 - Aos 13 anos, a norte-americana Marjorie Gestring ganhou a medalha de ouro na prova do trampolim dos saltos ornamentais e se tornou a campeã olímpica mais jovem – marca que detém até hoje. Também em Berlim, a dinamarquesa Inge Sorensen foi a mais jovem a conquistar uma medalha num evento individual: aos 12 anos, levou o bronze nos 200m peito.

09 - Medalha de prata em Amsterdã 1928 e ouro em Los Angeles 1932, o húngaro Olivér Halassy conquistou sua terceira medalha olímpica no pólo aquático em Berlim 1936, quando ajudou seu pais a ganhar o bicampeonato. O interessante: Olivér fazia tudo isso mesmo tendo tido uma de suas pernas amputada logo abaixo do joelho, conseqüência de um acidente automobilístico quando criança.

10 - Vencedora dos 100m livre e do revezamento 4x100m e prata nos 100m costas, a holandesa Rie Mastenbroek partia para disputar sua quarta final em cinco dias, a dos 400m livre. Antes da prova, a dinamarquesa Ragnhild Hveger abriu uma caixa de bombons (método curioso para acumular energia antes de nadar) e a dividiu com todas as adversárias, menos com Mastenbroek. E então criou-se um monstro. Só de raiva, a holandesa nadou muito, derrotou a dinamarquesa e se tornou a única mulher a levar quatro medalhas de ouro numa mesma Olimpíada.

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